Goiás concentra projetos bilionários de terras raras e se torna peça-chave na disputa de empresas estrangeiras por minerais
Por João Paulo Alexandre — Jornal Opção

Goiás ocupa uma posição estratégica na corrida internacional pela exploração de terras raras, minerais considerados essenciais para a fabricação de veículos elétricos, equipamentos de energia renovável e tecnologias de defesa. O Estado abriga a operação comercial mais avançada do Brasil, localizada em Minaçu, além de projetos que preveem investimentos de centenas de milhões de dólares em pesquisa, extração e processamento desses elementos.
Um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo neste sábado, 10, identificou pelo menos 18 empresas estrangeiras com processos minerários voltados à pesquisa ou exploração de terras raras no território brasileiro. Os empreendimentos representam mais de US$ 3,5 bilhões, aproximadamente R$ 17,5 bilhões, considerando recursos já aplicados e projeções de investimentos futuros.
Nesse cenário, Goiás se destaca pela presença de dois projetos de grande porte: a mina Serra Verde, em Minaçu, no norte goiano, e o empreendimento da canadense Aclara, em Nova Roma, no nordeste do Estado. A companhia também mantém uma unidade experimental em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital.
A movimentação ocorre em meio ao interesse crescente de grupos internacionais em diversificar o fornecimento desses minerais e reduzir a dependência da China, que domina parte significativa da cadeia mundial de produção e processamento de terras raras.
Segundo a apuração da Folha, empresas australianas lideram a presença estrangeira no Brasil, com pelo menos 11 grupos identificados. Canadá e Estados Unidos aparecem na sequência, com três companhias cada. O levantamento também identificou uma empresa constituída nas Ilhas Marshall.
Minaçu abriga operação mais avançada do Brasil
Um dos principais exemplos da participação de Goiás nesse mercado é a Serra Verde, instalada em Minaçu. O empreendimento recebeu autorização ambiental para operar em 2023 e iniciou a produção comercial no ano seguinte, tornando-se uma referência nacional na exploração de terras raras.
A mina produz um concentrado de elementos utilizados especialmente na fabricação de ímãs de alto desempenho, empregados em motores elétricos, turbinas eólicas e outros equipamentos tecnológicos.
De acordo com informações da empresa americana USA Rare Earth, que concluiu a aquisição da operação em 2026, o projeto já recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos.
A transação foi concluída em agosto, ampliando a presença de capital norte-americano na mineração brasileira e colocando a operação goiana no centro da estratégia de diversificação do fornecimento internacional desses minerais.
Em manifestação à Folha de S.Paulo, a Serra Verde destacou que a atividade realizada em Minaçu não se limita à retirada de minério do solo. A companhia informou que possui uma estrutura integrada de mineração e processamento, responsável pela produção de Carbonato Misto de Terras Raras.
Esse produto passa por etapas de beneficiamento ainda no Brasil, embora outras fases industriais sejam necessárias para obter os elementos separados e transformá-los em insumos de maior valor agregado.
A empresa também informou que a associação com a USA Rare Earth poderá facilitar o acesso a tecnologias de separação mineral. Entretanto, a instalação de novas unidades industriais dependerá de estudos de viabilidade técnica e econômica.
O Brasil permanece entre as possibilidades consideradas para receber uma futura estrutura de separação, mas ainda não existe definição sobre o local.
Nova Roma pode receber investimento de quase US$ 800 milhões
Outro empreendimento que reforça a importância de Goiás no setor está localizado em Nova Roma. A canadense Aclara estima investimentos de US$ 781 milhões no desenvolvimento de seu projeto de terras raras no município.
A companhia também possui uma planta-piloto em Aparecida de Goiânia, utilizada para atividades relacionadas ao desenvolvimento e à avaliação das tecnologias de processamento mineral.
A presença dessa estrutura na Região Metropolitana representa uma etapa importante para os estudos da empresa, embora a produção em escala industrial ainda dependa do avanço do empreendimento.
O modelo de negócios da Aclara prevê atividades iniciais de processamento no Brasil, enquanto outras etapas da cadeia produtiva estão associadas a instalações próprias nos Estados Unidos.
Essas unidades são destinadas à separação dos elementos e à fabricação de metais e ligas, processos que agregam valor econômico ao material extraído.
A divisão das atividades entre os dois países também evidencia um dos principais desafios enfrentados pelo Brasil: ampliar a capacidade de transformar os recursos minerais disponíveis em produtos industriais, em vez de concentrar sua participação apenas na extração e no beneficiamento inicial.
Disputa internacional movimenta bilhões de reais
O avanço dos projetos goianos acompanha uma movimentação mais ampla no setor mineral brasileiro.
No fim de setembro, a australiana Lynas anunciou a aquisição da Meteoric Resources por aproximadamente R$ 3,5 bilhões. A operação envolve um empreendimento de terras raras no sul de Minas Gerais e representa mais um movimento de consolidação do mercado nacional por empresas estrangeiras.
A transação ocorreu poucas semanas depois da conclusão da compra da Serra Verde, em Goiás, pela americana USA Rare Earth.
Os dois negócios demonstram a importância que o Brasil passou a ocupar nas estratégias de companhias interessadas em ampliar o acesso a minerais considerados fundamentais para a transição energética e para diferentes setores industriais.
Apesar do volume de recursos anunciado, nem todos os projetos identificados no levantamento da Folha estão em operação. Parte significativa ainda depende de licenciamento ambiental, estudos geológicos, comprovação de viabilidade econômica e obtenção de financiamento.
Isso significa que os R$ 17,5 bilhões identificados representam uma combinação de investimentos já executados e valores previstos para empreendimentos que poderão ser implantados nos próximos anos.
Nova política nacional tenta ampliar industrialização
O crescimento da presença estrangeira ocorre em um momento de mudanças na estratégia brasileira para os minerais críticos.
Em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, criada para estimular investimentos e ampliar a participação do país nas etapas industriais da cadeia produtiva.
Entre os instrumentos previstos está a possibilidade de criação de um fundo garantidor com participação federal de até R$ 2 bilhões, destinado a facilitar o financiamento de projetos considerados prioritários.
A legislação também estabelece a previsão de até R$ 1 bilhão anual em créditos fiscais, entre 2030 e 2034, para atividades relacionadas ao processamento, à transformação e à recuperação de minerais a partir de resíduos.
A intenção do governo federal é incentivar a instalação de indústrias capazes de separar, refinar e transformar os minerais extraídos em território nacional.
Atualmente, parte importante dessas atividades está concentrada fora do Brasil, o que limita a participação do país nas etapas de maior valor agregado.
À Folha, o Ministério de Minas e Energia informou que pretende utilizar mecanismos de incentivo e regulação para estimular o desenvolvimento dessas atividades. A pasta também destacou que as empresas poderão estabelecer parcerias tecnológicas para ampliar a industrialização, sem necessariamente precisar executar todas as etapas de forma independente.
Goiás enfrenta desafio de transformar riqueza mineral em desenvolvimento industrial
Embora Goiás já reúna projetos relevantes de exploração e processamento inicial, a consolidação de uma cadeia industrial completa de terras raras ainda depende de novos investimentos, transferência de tecnologia e condições econômicas competitivas.
A Serra Verde representa um avanço por já produzir comercialmente em Minaçu, enquanto o projeto da Aclara amplia as perspectivas de expansão da atividade mineral no nordeste goiano.
Entretanto, a transformação desses empreendimentos em uma cadeia produtiva mais ampla exigirá capacidade de processamento, infraestrutura, qualificação profissional e desenvolvimento tecnológico.
Também será necessário conciliar o crescimento da mineração com as exigências de licenciamento ambiental e a avaliação dos impactos sobre os municípios envolvidos.
A possibilidade de ampliar o beneficiamento e instalar novas etapas industriais em território goiano pode abrir oportunidades para fornecedores, prestadores de serviços e atividades ligadas à pesquisa e à inovação.
Por outro lado, a permanência das fases mais sofisticadas de transformação mineral no exterior pode restringir os ganhos industriais associados à exploração desses recursos.
Com projetos que já receberam investimentos bilionários e outros ainda em desenvolvimento, Goiás passa a ocupar um espaço importante na discussão sobre o futuro das terras raras no Brasil. O desafio será converter o interesse das companhias internacionais em atividades econômicas de maior valor agregado dentro do próprio Estado.
Leia também: Terras raras: o Brasil não pode vender o minério e importar o futuro
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Fonte: Jornal Opção