Flávio troca Daniella ‘Milei é o exemplo’ Marques pelo jeitoso Marcelo Kayath, que já fala como futuro ministro da Fazenda
Por Marco Damiani — Brasil 247
Ex-diretor do banco Credit Suisse, interlocutor do ex-ministro Fernando Haddad e respeitado no mercado financeiro, o economista Marcelo Kayath já fala como futuro ministro da Fazenda de um eventual governo Flávio Bolsonaro. Na gangorra de cotações para o cargo, a administradora de empresas Daniella ‘Milei é o exemplo’ Marques está em veloz movimento de descida. Ela já foi empurrada pelo senador Rogério Marinho, homem forte da campanha, para a posição de cuidar das áreas de desenvolvimento e mulheres, que seriam unificadas em um órgão ministerial na hipótese de nova vitória direitista no turno definitivo, dia 25. Marinho, por sua vez, é favorito para o cargo de chefe do Gabinete Civil.
Sim, o comando bolsonarista está montando em praça pública o possível futuro governo, enquanto anuncia apoios como o do ex-candidato presidencial Ronaldo Caiado, endereçado para a pasta da Agricultura em caso de os planos darem certo.
À CNN, ontem, Marcelo Kayath falou em tom quase oficial. “Temos de criar as condições de fazer um ajuste fiscal de tal maneira que isso seja sustentado e crível, para dar a possibilidade de o Banco Central reduzir os juros de maneira sustentada”, disse ele. É exatamente o que o mercado quer ouvir. A questão do ajuste é antiga, compreendida pela classe média e não está contemplada, ao menos até aqui, nos pronunciamentos do presidente Lula ou do ministro da Fazenda, Dario Durigan. Os caminhos propostos são opostos.
“Não se combate juros com canetada nem com reclamação sobre o presidente ou a diretoria do Banco Central. O jeito de combater juros altos é colocar as contas em ordem”, pontificou Kayath. “Quem não cuida das contas não pode cuidar das pessoas”, fraseou ele.
O economista foi o principal articulador de uma numerosa reunião com banqueiros e empresários com Lula, às vésperas do segundo turno, na qual compromissos anteriores levaram o presidente a chegar depois da hora combinada. O encontro frustrou as expectativas da plateia quanto a uma discussão mais profunda sobre a gestão econômica, especialmente no tocante ao propalado ajuste fiscal.
Na entrevista ao programa ‘Hora H’ da emissora controlada pelo empresário Rubens Menin, dono da construtora MRV e fundador do Banco Inter, Kayath deixou claro que migrou de campo. “O povo brasileiro votou pela mudança no último domingo”, avaliou. “A mensagem das urnas foi a de que as coisas não estão boas, e cabe a nós uma maneira de fazer esse ajuste necessário”.
Didático e em tom amistoso, o egresso do mercado financeiro garantiu que “fazer uma arrumação nas contas agora visa continuar com os programas sociais e melhorar os investimentos em saúde, educação e ter mais dinheiro para a infraestrutura”. Ele prosseguiu: “Para arrumar as contas, tem de haver um choque de gestão, como o candidato Flávio Bolsonaro está defendendo, que vai atacar todas as ineficiências do governo, como penduricalhos, supersalários e também as emendas constitucionais do Congresso, que representam cerca de R$ 60 bilhões por ano. Será um processo de negociação, isso não será imposto por ninguém”, garantiu.
Sem rodeios, Kayath desenvolveu o seu discurso com postura de ministro escolhido para a Fazenda. “O choque de gestão que será feito vai dar credibilidade para o ajuste fiscal. Com isso, iremos mostrar para a população que estamos combatendo ineficiências no Judiciário, no Legislativo e no Executivo antes de pedir o sacrifício da própria população, isso é o mais importante”, pontuou.
“Quando a gente chegar ao momento de desenhar qualquer novo tipo de medida econômica – e ‘a gente’ me refiro ao novo governo e uma nova situação no país -, teremos a credibilidade para implantar o que o Brasil necessita”, projetou Kayath. Para reforçar a mensagem de que o ajuste fiscal não irá prejudicar a população mais vulnerável, o economista disse que “a premissa básica é a de que os programas sociais não podem deixar de ser preservados”.
Para ele, “num país desigual como o Brasil, a gente não pode fazer com que os mais pobres e necessitados tenham de sofrer primeiro”. Acentuou que “não pode ser essa a premissa e não são essas as ideias que temos trocado com o candidato Flávio Bolsonaro”. O interlocutor do presidenciável bolsonarista descreveu que “a linha que iremos adotar é um choque de gestão que remeta a um ajuste nas contas, para dar condições ao Banco Central de reduzir juros e, a partir daí, começar a sair da situação em que nós estamos”.
Tá aí! O bolsonarismo achou a narrativa que soa como música aos banqueiros da Faria Lima, tem potencial para seduzir as camadas médias da população e, em tese, não assustaria o povão. A campanha de Flávio Bolsonaro acaba, assim, de esvaziar Daniella Marques, também conhecida como ‘mãos de tesoura’, pelo jeitoso executivo financeiro que orbitava o campo do governo e, agora, passou para o outro lado. Política é assim mesmo.
Fonte: Brasil 247