Flávio Serafini: “Eleger Flávio Bolsonaro é eleger um bandido para presidente”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O candidato a deputado federal pelo PSOL-RJ Flávio Serafini afirmou que a destinação de uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP) precisa ser investigada para esclarecer o destino dos recursos e as circunstâncias que envolveram a indicação da entidade. Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, Serafini disse ter levado o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu a preservação imediata de documentos relacionados ao projeto financiado pela verba.
O caso envolve uma emenda de R$ 199.999,79 destinada em 2023 ao Ministério do Esporte e posteriormente repassada ao IFOP para o projeto “Jogadores do Futuro”, voltado a crianças da região da Taquara, no Rio de Janeiro. Reportagens publicadas nos últimos dias, a partir de informações de investigações da Polícia Federal, revelaram mensagens nas quais Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, solicitava recursos ao gabinete do senador. Calixto foi condenado pelo STF por participação na organização criminosa relacionada aos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
Segundo Serafini, a questão que precisa ser esclarecida não se limita à existência formal da emenda. Para ele, é necessário verificar como o projeto foi executado e se os recursos públicos efetivamente chegaram às atividades previstas.
“A gente não tem mais dúvida de que o dinheiro foi destinado para o instituto. Agora a gente quer saber se, de fato, essa emenda financiou um curso profissionalizante ou se a emenda foi simplesmente uma forma de transferência de dinheiro”, afirmou.
As mensagens encontradas pela Polícia Federal mostram que Calixto procurou Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro, em outubro de 2023, para pedir apoio ao IFOP. A assessora solicitou o envio do pedido e, posteriormente, orientou Calixto a reforçá-lo pessoalmente com o senador. A emenda foi destinada ao instituto semanas depois. Um relatório do Tribunal de Contas da União apontou indícios de irregularidades na execução do projeto, entre eles a contratação de uma sociedade de advocacia para coordenar atividades esportivas.
Na entrevista, Serafini afirmou que sua iniciativa busca fazer com que o material relacionado à execução da emenda seja preservado antes do avanço das investigações. O candidato citou documentos que, segundo ele, permitiriam verificar se as atividades previstas realmente ocorreram.
“Os cursos aconteceram? Cadê a prova dos cursos? Quem estava inscrito? Quem recebeu o certificado? Qual foi o lugar em que aconteceu? Cadê as fotos? Quem foram os professores que trabalharam e que receberam supostamente nesses cursos?”, questionou.
A petição foi direcionada ao ministro Flávio Dino no contexto da ADPF 854, processo em que o STF acompanha questões relacionadas à transparência e à rastreabilidade das emendas parlamentares. Dino tem determinado uma série de providências para ampliar o controle desses recursos e, em agosto, ordenou à Polícia Federal a apuração de possíveis crimes identificados a partir de irregularidades encontradas pelo TCU na execução de transferências especiais.
Para Serafini, o objetivo é esclarecer não apenas se houve a execução formal do projeto, mas todo o caminho percorrido pelo dinheiro público.
“A gente pede que o Supremo, de forma imediata, abra investigações e tome as medidas necessárias para preservar todas as provas de tudo que foi produzido ao redor desse curso”, disse.
O candidato do PSOL também defendeu que outras emendas destinadas pelo gabinete de Flávio Bolsonaro a organizações do terceiro setor sejam examinadas pelos órgãos de controle. Um pedido semelhante foi apresentado pelo deputado Pedro Uczai (PT-SC), que solicitou ao STF e à Controladoria-Geral da União uma auditoria das emendas do senador destinadas a entidades do terceiro setor no Rio de Janeiro desde 2019.
Serafini relacionou essa necessidade de ampliar a apuração ao fato de Flávio Bolsonaro disputar a Presidência da República. Na avaliação do candidato do PSOL, as informações reveladas pelas investigações precisam ser esclarecidas antes que o eleitorado decida quem comandará instituições como a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as Forças Armadas.
Foi nesse contexto que Serafini fez a declaração que sintetizou sua avaliação política do episódio:
“Eleger Flávio Bolsonaro pode significar a gente ter um bandido como chefe maior das Forças Armadas brasileiras.”
A afirmação é uma acusação política feita por Serafini e não uma conclusão judicial sobre Flávio Bolsonaro. O senador é alvo de investigação penal no STF em procedimento requerido pela Polícia Federal, mas isso não equivale a uma condenação.
Ao longo da entrevista, Serafini sustentou que as relações reveladas nas investigações devem ser examinadas de forma conjunta. Ele lembrou que familiares de Adriano da Nóbrega trabalharam no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e associou esse histórico às novas informações envolvendo Calixto.
No caso específico do IFOP, porém, Serafini concentrou sua cobrança em uma questão: saber exatamente o que aconteceu com os quase R$ 200 mil de dinheiro público. Para ele, a existência de documentos fiscais não encerra a necessidade de apuração sobre a prestação dos serviços, os beneficiários do projeto, os profissionais contratados e os pagamentos efetuados.
Flávio Bolsonaro afirmou, por meio de sua assessoria, que a destinação dos recursos ocorreu de acordo com a legislação e com os critérios técnicos do Ministério do Esporte. O senador sustenta ainda que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle. Segundo sua versão, o instituto apresentou notas fiscais e devolveu valores que não foram utilizados.
Serafini, por sua vez, considera que justamente essa execução precisa ser submetida a uma apuração documental. “Para que Flávio Bolsonaro destinou R$ 200 mil para alguém condenado por assassinato? Essa resposta que a gente quer”, declarou.
Para o candidato do PSOL, a proximidade da eleição aumenta a necessidade de que as informações já reunidas pela Polícia Federal e pelos órgãos de controle sejam preservadas e examinadas. Ao transformar o episódio em tema da campanha presidencial, Serafini sustenta que o debate deve ir além da disputa eleitoral e alcançar a relação entre dinheiro público, emendas parlamentares e pessoas posteriormente condenadas por participação em organizações criminosas.
“Alguém com esses vínculos com bandidos controlar a Polícia Federal, controlar a Polícia Rodoviária Federal, ser o chefe maior das Forças Armadas brasileiras é algo que a gente tem que denunciar”, afirmou.
Fonte: Brasil 247