Filha de Marielle Franco faz alerta sobre expansão das milícias nas eleições de 2026
Por Redação — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
A brutalidade e o alcance das milícias podem ser desconhecidos para a ampla maioria do país, mas o projeto de poder que utiliza estruturas públicas para fins criminosos está em disputa nessas eleições. Uma porta-voz desse alerta é Luyara Franco, filha da vereadora assassinada em 2018 por se opor a interesses milicianos no Rio.
“A milícia é uma prática e tem um projeto de poder que não acaba aqui [no Rio de Janeiro]. O que está em jogo é a nossa capacidade de proteger o Brasil disso e impedir que as estruturas públicas se transformem em instrumento de interesses criminosos”, disse em vídeo a diretora-executiva do Instituto Marielle Franco.
A infiltração do crime organizado na política é mais um motivo de preocupação entre os fluminenses nessas eleições. Pela via institucional, esse modelo se expandiu no Rio de Janeiro, sobretudo pela presença de políticos de extrema direita no parlamento fluminense nas últimas décadas.
Segundo estudo do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) e do Instituto Fogo Cruzado, 34,9% da população vive sob controle ou influência do tráfico ou das milícias na região metropolitana. Para além do tentáculo na política, a opressão nos territórios dominados se apresenta na violência extrema.
Os mandantes do assassinato de Marielle e do motorista Anderson Gomes foram os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, que cumprem 76 anos de prisão. O ex-deputado federal e o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, respectivamente, exerciam domínio por meio da ocupação de territórios e grilagem de terras, com imposição de violência e medo.
O caso teve resolução após 7 anos, mas Luyara reconhece que a maioria não chega a esse ponto. É por isso que a milícia não é apenas um problema de segurança pública, mas uma rede de poder que infiltra o Estado, envolvendo policiais, agentes públicos e políticos.
:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::
“Primeiro a gente vê a notícia de um policial corrupto aqui, depois a notícia de um político que emprega a família desse policial ali, depois aparece uma investigação, algumas denúncias, vemos fotos com um monte desses caras juntos e tudo parece desconectado. Mas a verdade é que não está”, reforça.
Do total mostrado no estudo do Geni/UFF, grupos paramilitares interferem na rotina de mais de 1,7 milhão de pessoas do Rio de Janeiro. A estratégia miliciana também exerce o monopólio econômico nos territórios, onde apenas os serviços e produtos oferecidos pelo grupo criminoso são permitidos. Isso inclui desde a conexão à internet até a farinha de trigo utilizada nas padarias.
O pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “A República das Milícias” (2020), associou o método das milícias de ganhar dinheiro e poder a partir da imposição do medo com a extrema direita.
Em vídeo nas redes sociais, o jornalista analisou a convergência entre estratégias de estelionato e a violência. “Pablo Marçal como coach de Flávio Bolsonaro [candidato do PL à presidência] foi uma fotografia assustadora e clara de um novo modelo que ameaça tomar o poder no Brasil para fazer política misturando a engenharia social dos estelionatários com os fuzis dos milicianos”, disse.
O jornalista também alertou para o risco do modelo que se utiliza do caos e da vulnerabilidade social. “Mais uma vez, olhem para os aliados do Flávio no Rio de Janeiro. Eles se associam com devedores contumazes do setor de combustível e contrabandistas de cigarro, e destroem esses mercados. A mesma coisa com o setor financeiro. A mesma coisa com o setor financeiro, como ocorreu no caso do Banco Master, e as bets, que apostam no estelionato para faturar”, afirmou.
“Eles tiram o dinheiro da economia formal, do varejo, de pessoas endividadas para acumular dinheiro e poder”, completou.
Um exemplo recente da infiltração do crime na política foi a prisão do deputado eleito Márcio Canella (União), aliado de Flávio Bolsonaro que já havia ocupado a Assembleia Legislativa (Alerj) por três mandatos antes de se tornar prefeito de Belford Roxo (RJ). A investigação da PF apura um esquema de lavagem de dinheiro por meio de postos de gasolina que movimentou R$ 7,6 bilhões na região metropolitana, além de negociações com o Comando Vermelho (CV) e ligações com milicianos.
O ex-prefeito Canella foi um importante aliado na pré-campanha de Flávio Bolsonaro até ser preso em julho na 6ª fase da operação pela Polícia Federal com um fuzil de calibre restrito em seu carro.
A investigação teve uma nova fase na semana passada, na qual ele foi preso novamente. Desta vez, junto com o delegado Marcus Amin, ex-secretário de Polícia Civil nomeado por Cláudio Castro (PL).
Desde o início do ano, a Operação Unha e Carne tem revelado o envolvimento de políticos com o crime organizado. Um dos presos foi o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, outro aliado de Flávio Bolsonaro, suspeito de ligação com o tráfico e vazamento de informações sobre operações policiais.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato