Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2026: Ana, en Passant
Por Redação — Jornal Opção

Pedro Lima de Andrade
Nas vésperas do anúncio dos filmes selecionados no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, houve temores de cancelamento. Verbas travadas pela secretária de cultura do distrito, em meio a diversos escândalos. Entretanto, após uma pressão contundente do setor, o festival prosseguiu. E ontem, o palco do Cine Brasília estava lotado com a equipe de Ana, en Passant, no primeiro dia da mostra competitiva nacional de longas-metragens. Dirigido pela cineasta mineira Fernanda Salgado, o projeto teve início em 2012 como um roteiro participante do Berlinale Talent Campus. Após 14 anos de desenvolvimento e coproduções com a França e Portugal, o filme finalmente tem sua estreia mundial no festival mais antigo do país.
Ana, en Passant, narra a história da personagem titular do filme, com a voz da atriz Jéssica Pierina, uma menina que nasceu em Belo Horizonte e, após a morte da mãe no parto, vai morar em Paris com sua vó (Zezé Motta). No entanto, quando sua vó falece, Ana encontra-se numa deriva entre o Brasil e a França, sobre sua noção de família, abalada pela perda de seu fio condutor. Sendo assim, ela vai para a capital mineira, onde descobre um apartamento deixado pela vó, ocupado por uma jovem chamada Alice, grávida, que está gerando uma pessoa nas paredes, causando tanta dor à protagonista, mesmo sem ela saber ao certo. Logo, o filme é uma mistura de passado e presente, de entender as histórias não contadas e de lidar com o luto, mesmo que te desafie a voltar às suas origens, que se distanciaram ao longo do caminho.
Primeiramente, o trabalho de Salgado impressiona pela mistura de técnicas de animação: rotoscopia, colagens, 2D e um pouco de stop-motion. Esta mistura cria uma sensação interessante em relação à viagem temporal que a diretora busca. Em algumas cenas, Ana anda numa rua de Paris, com um bloquinho de carnaval ao seu redor, mas com pessoas como colagem, enquanto apenas ela está em sua dimensão completa de composição. Dessa forma, a direção brinca com as distâncias, aquilo que está presente fisicamente, mas distante emocionalmente; às vezes, só uma ideia vaga de algo afetivo. Nessas disposições fílmicas, em que o filme cria uma ilusão sobre o que realmente faz parte da vida da protagonista, reside sua maior força. As voltas que a jovem dá são a força de um filme sobre a deriva na própria história.

Sendo assim, quando Ana descobre Alice, a inquilina do apartamento de sua vó, de quem ela não sabia da existência (das duas), além da estranheza inicial e da construção de um relacionamento, há camadas de dor que ferem a protagonista. Uma primeira gestação que terminou em dor para a inquilina e em conversa sobre a perda materna da Franco-Brasileira. Nesse sentido, há uma bonita relação de compartilhamento de histórias, descobrimentos, medos e dores entre as duas. Porém, em algum momento, o roteiro de Salgado abre demasiadas abas que parecem não ter um caminho claro para serem resolvidas. Há necessidade de favorecer a história de Alice sobre Ana em alguns momentos, para fins dramáticos, como a relação entre o bebê que ela gera e o local onde a mãe da personagem principal cresceu.
Dessa forma, temos um filme que peca pelo excesso de elementos narrativos, mas é um deleite visual, nas suas colagens, nas cores pastéis que combinam com os detalhes que se esvaem em todos os momentos. Além do trabalho lindo de voz de Zezé Motta, a já mencionada avó e de Carlos Francisco, um dos destaques de O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho, que interpreta um simpático carteiro, fundamental para responder perguntas para Ana e emanar boas energias ao bebê de Alice. Sendo assim, Ana, En Passant é uma bonita animação sobre as relações familiares, principalmente a materna, mesmo na ausência dela. Há um excesso de histórias paralelas, mas o esmero artístico de Fernanda Salgado em sua estreia demonstra a necessidade de registrar nossas trajetórias pessoais e o impacto que isso tem sobre as futuras gerações. Um bom começo para a competição de longas-metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Ana, En Passant estreia nos cinemas nacionais no dia 5 de novembro de 2026, distribuído pela Embaúba Filmes.
Pedro Lima de Andrade, crítico de cinema e escritor, membro da UBE-GO e da International Cinephile Society.
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