‘Fazer mais não significa fazer melhor’: Marco Bobbio defende medicina sem excessos em Porto Alegre
Por Walmaro Paz — Brasil de Fato
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O excesso de exames e tratamentos pode se tornar uma forma de sofrimento para pessoas idosas, especialmente no fim da vida, afirmou o cardiologista italiano Marco Bobbio ao defender uma medicina que escute o paciente antes de decidir como agir. Ele falou sobre o movimento Slow Medicine em Porto Alegre, na quinta-feira (17), durante um encontro promovido pelo Movimento Velharada Rebelde (Mover) na sede da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice).
Bobbio é filho do filósofo e senador italiano Norberto Bobbio, falecido em 2004. Cardiologista e ex-diretor de cardiologia do hospital Santa Croce e Carle, em Cuneo, é atualmente presidente da Slow Medicine, movimento presente em diversos países, inclusive no Brasil. É autor dos livros “Medicina Demais!” e “O Doente Imaginado”.
Diante de uma casa lotada de pessoas idosas, Bobbio contou que o movimento Slow Medicine nasceu em 2011, quando médicos, enfermeiros e cidadãos passaram a considerar que a medicina de hoje é uma fast medicine: cura e faz muitos exames, mas às vezes cai no excesso. Foi para criticar essa postura, disse ele, que decidiram criar uma associação.
Ele afirmou que o movimento nasceu em Turim, na Itália, país onde também havia surgido o Slow Food, em contraposição ao fast food. “Resolvemos criar a Slow Medicine para contrapor a fast medicine. Como o slow food se contrapõe ao fast food, a slow medicine se contrapõe à fast medicine. Pedimos autorização para os fundadores do Slow Food e colocamos o nome de Slow Medicine em nosso movimento.”
Segundo Bobbio, o lema do Slow Food é “bom, limpo e justo”, e seu símbolo é um caracol. “Nós colocamos em nosso símbolo dois caracóis, que representam o diálogo entre o médico e o paciente e, para definir a nossa medicina, a chamamos de uma medicina sóbria, respeitosa e justa”, explicou. O termo slow, observou, pode sugerir em português uma medicina lenta e ineficiente. “Mas não. É uma filosofia de vida e, no caso da medicina, é uma medicina reflexiva, que pensa antes de agir.”
“Até porque sou cardiologista há 40 anos e sei que, em muitos casos, é preciso fazer de tudo para salvar uma pessoa. Mas fazer tudo é muito complicado, porque temos à disposição inúmeros medicamentos e inúmeros exames. Por isso, fazer tudo para salvar uma pessoa é praticamente impossível. Precisamos pensar em como utilizar, do melhor modo possível, os recursos que temos”, disse.
Ao explicar os três pilares, Bobbio afirmou que “sóbrio não significa que não se beba vinho”. Nesse caso, significa fazer tudo o que é necessário, mas com critérios bem escolhidos e definidos. O princípio, ressaltou, não significa simplesmente fazer menos. “Às vezes pensamos que fazer todo o possível seria a melhor solução, mas isso pode fazer mal. Fazer mais não significa fazer melhor. Em muitos casos se pode fazer muito e, em outros, é preciso fazer menos.”
O segundo princípio é o respeito à vontade do paciente. “Precisamos ouvir os desejos e a vontade do paciente. Hoje existem diretrizes que pautam as melhores formas de tratar as pessoas. Isso vale para a maior parte dos pacientes, mas o paciente não é a maioria: é uma pessoa singular. As diretrizes valem de modo geral, mas as pessoas são únicas.” Já uma medicina justa, afirmou, deve servir a todos. “Não é correto que poucos tenham muitos recursos e muitos não tenham nenhum.”
Esses são os princípios da Slow Medicine, difundidos na Itália, no Brasil e em outros países porque, segundo Bobbio, é importante ensinar os médicos a refletir sobre o momento de parar.
Para ele, movimentos como Slow Medicine, Slow Food, Slow City e Slow Journalism expressam um desejo de diminuir a velocidade da vida. “Quando se chega a uma certa idade, é preciso saber diminuir a velocidade, porque caminhamos lentamente, refletimos lentamente, digerimos lentamente”, argumentou.
Bobbio disse ainda que leu o manifesto do Movimento Velharada Rebelde. “Li o vosso manifesto, gostei muito e assino embaixo”, afirmou, sob aplausos. Entre os pontos que destacou estão as frases “Ser velho não me assusta” e “Somos contra o modelo de beleza”. Para ilustrar essa última ideia, lembrou a história de uma atriz que, ao ser perguntada por que não retirava as rugas, respondeu que havia levado 70 anos para fazê-las.
O cardiologista também destacou a recusa do movimento a que as pessoas idosas sejam infantilizadas. Segundo ele, médicos e enfermeiros por vezes as chamam de “avozinho” e as tratam como crianças. “Este é exatamente o conceito de respeito. Respeitar um paciente não é somente atender às suas expectativas, mas também entender que, por ser uma pessoa idosa, tem necessidades diferentes.” Para Bobbio, submeter uma pessoa idosa a muitos exames pode se tornar uma verdadeira tortura.
“A Slow Medicine é muito próxima das pessoas idosas porque olha para esse tempo e, principalmente, para o final da vida, quando o excesso terapêutico é quase uma tortura”, afirmou. Bobbio concluiu destacando outra passagem do manifesto: “Viver os últimos anos de vida com a máxima qualidade possível, sem abdicar da rebeldia.”
O movimento Slow Medicine tem suas origens na Itália. A expressão foi usada pelo cardiologista Alberto Dolara em 2002, no artigo “Un invito ad una Slow Medicine” (“Um convite a uma medicina sem pressa”). Nele, o autor propunha, à semelhança do Slow Food, uma reconstrução dos valores relacionados à saúde, especialmente a desaceleração da tomada de decisões em algumas situações comuns da prática médica.
O Movimento Velharada Rebelde (Mover) foi lançado em junho de 2026, em Porto Alegre. Seu manifesto começou a ser elaborado antes, em um grupo de leitura e escrita da Alice, e foi retrabalhado em um encontro realizado em 2025. O documento reúne propostas para encarar a velhice sem desencanto, temor, vergonha e depressões. A ideia é enfrentar a vida com realismo, mas sem esquecer a utopia.
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Fonte: Brasil de Fato