Famílias quilombolas perdem produção e ficam impedidas de acessar serviços básicos no Vale do Ribeira, no Paraná

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Por Gustavo de SousaBrasil de Fato

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

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No Vale do Ribeira, entre os estados de São Paulo e Paraná, os temporais intensos estão provocando enchentes nos municípios e comunidades próximas ao Rio Ribeira do Iguapé e seus afluentes. Em comunidades quilombolas da região, no lado paranaense, moradores enfrentam dificuldades de locomoção e acesso a serviços básicos. 

Chuvas intensas, que atingiram o Paraná na última semana, deixaram cinco mortos e afetaram outras milhares de pessoas. Situação preocupa especialistas, que fazem alerta para a flexibilização da legislação ambiental no estado.

A comunidade de Estreitinho está situada às margens do Rio Pardo, a cerca de 165 quilômetros de Adrianópolis (PR). Com as chuvas, a rede de energia elétrica do território parou de funcionar, o que causou a perda de insumos e da produção agrícola de leite, principal fonte de renda das famílias quilombolas.

“Isso gera preocupação não apenas com a renda dos próximos meses, mas também com a permanência das nossas famílias no território”, conta Vanessa Cordeiro, moradora de Estreitinho.

Não só as quedas de energia, que chegam a durar dias, preocupam quem vive no território. Em períodos de emergência, a comunicação também é um fator que pode salvar vidas, mas é dificultada pela falta de acesso à internet na comunidade, que impossibilita o acesso aos alertas da Defesa Civil. “Em situações de emergência como essa, a falta de informação se soma à insegurança que já enfrentamos”, reforça Cordeiro.

Durante as tempestades fortes que atingiram o Vale do Ribeira entre essa sexta (11) e domingo (13), três moradores do Estreitinho ficaram ilhados na porção paranaense do território – dentre eles, um paciente oncológico sem acesso à medicação. O território está isolado pelas águas do Rio Pardo, então o deslocamento para saída do quilombo é feito apenas pela travessia de bote.

Em João Surá, comunidade quilombola a 50 quilômetros de Adrianópolis, os moradores relatam preocupação com a abertura das comportas da represa do Rio Capivari, afluente do Ribeira do Iguapé. 

Carla Galvão, moradora do quilombo, alega que, nesta época, as enchentes são comuns. A dificuldade é se preparar para a maior intensidade no volume de água, que não é comunicada à comunidade: “Do nada o rio enche e a gente perde o controle da vazão natural do rio”, explica.

Com as enchentes, diversos pontos da BR-476 foram bloqueados, afetando o acesso a serviços de saúde e à chegada de alimentos à comunidade, que é abastecida por Curitiba (PR). “Acaba tendo vários alagamentos em pontos das estradas, aí a estrutura que já é comprometida acaba sendo afetada, como as pontes de madeira e os bueiros”, descreve.

“A BR está bloqueada, então todos os recursos que vêm da ajuda humanitária não conseguem chegar”, conta Gedielson Ramos, presidente da associação de moradores da comunidade Córrego das Moças, também próxima a Adrianópolis. Muitos territórios estão inacessíveis, e o município não possui estrutura suficiente para atender às emergências de maneira adequada.

A Defesa Civil do Paraná presta apoio à cidade enviando atendimentos para regiões emergenciais, mas, até o momento da publicação desta reportagem, não há atualizações oficiais do órgão sobre as comunidades.

Por parte das comunidades, Ramos explica que a demanda é pela instalação de geradores elétricos e sistemas de acesso à internet para servir de apoio durante eventos como as cheias no Vale do Ribeira. “Quando a gente não consegue chegar até lá, eles passam como está a situação e nós conseguimos dar um suporte, passar informações”, argumenta.

“São impactos que não terminam quando a água baixa. A médio e longo prazo, as famílias precisam de apoio para reconstruir o que foi perdido e recuperar suas condições de trabalho e sustento”, explica Vanessa Cordeiro. No Estreitinho, há ainda a busca por apoio do poder público para a construção de uma ponte que tire a comunidade do isolamento.

*Estagiário sob supervisão de Murilo Bernardon.

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Fonte: Brasil de Fato

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