EUA, Argentina, França e Alemanha têm protestos por educação, direitos e democracia
Por gutoalves — Fundação Perseu Abramo
A reação popular que ganhou as ruas brasileiras encontra correspondência em mobilizações que atravessam fronteiras. Nos Estados Unidos, o movimento No Kings contesta a concentração de poder sob Donald Trump. Na Argentina, a comunidade universitária enfrenta os cortes do governo Javier Milei. Na França, estudantes exigem professores e escolas em condições de funcionar. Na Alemanha, manifestantes cobram medidas para conter a extrema direita e proteger a ordem democrática.
As mobilizações têm origens, organizações e calendários próprios. Seus pontos de aproximação aparecem na defesa de direitos, na rejeição à exclusão social e na disposição de participar das decisões políticas. A democracia ganha sentido concreto quando envolve a possibilidade de estudar, trabalhar, viver com dignidade e contestar quem governa.
Nos EUA, resistência a Trump se organiza para continuar
O nome No Kings, ou “Sem reis”, sintetiza a contestação à ideia de um presidente acima dos limites democráticos. O movimento realizou jornadas nacionais em junho e outubro de 2025 e em março de 2026, reunindo manifestações contra as políticas de Trump, sua atuação sobre a imigração e o uso concentrado do poder.
A jornada de 28 de março alcançou cidades dos Estados Unidos e teve manifestações de solidariedade no exterior. Entre as pautas estavam a rejeição ao autoritarismo, às políticas de perseguição a imigrantes e à guerra com o Irã. A organização local permitiu ampliar a presença dos atos para além dos grandes centros.
Uma nova jornada está convocada para 17 de outubro. Desta vez, a iniciativa No Kings: Vote Early combina organização comunitária, proteção do direito ao voto e preparação para as eleições legislativas de novembro. O calendário inclui encontros, atividades de bairro e ações para orientar os eleitores sobre registro e votação antecipada, onde essa modalidade está disponível.
Os organizadores relacionam a participação política às dificuldades de pagar alimentação, combustível e energia. Também rejeitam a concentração de poder em bilionários e governantes que se consideram livres de prestar contas. A proposta é transformar a mobilização das ruas em capacidade permanente de organização, com atuação nos bairros e defesa do voto sem intimidação.
Na Argentina, a universidade resiste ao ajuste de Milei
O enfrentamento aos cortes de Javier Milei colocou a educação pública no centro da resistência argentina. Desde abril de 2024, marchas federais reúnem estudantes, docentes, trabalhadores das universidades e setores da sociedade em defesa das instituições e da pesquisa.
Para 15 de outubro, o Conselho Interuniversitário Nacional (CIN) e a Federação Universitária Argentina convocaram a quinta Marcha Federal Universitária, com mobilizações em diferentes cidades. A pauta inclui o cumprimento da Lei de Financiamento Universitário, recomposição salarial, respeito às decisões judiciais e recursos para assegurar o funcionamento das instituições no orçamento de 2027.
Os números apresentados pelo CIN ajudam a dimensionar o conflito. Em documento divulgado na marcha de maio, a entidade apontou uma queda real acumulada de 45,6% nas transferências às universidades entre 2023 e 2026. Segundo o conselho, o corte atinge ensino, pesquisa e extensão, enquanto a perda salarial estimula renúncias e obriga trabalhadores a acumular empregos.
A reivindicação alcança também o respeito às instituições. A comunidade universitária acusa o governo de descumprir a lei aprovada pelo Congresso e exige sua aplicação. A defesa da educação se encontra, assim, com a cobrança de que o Executivo respeite as decisões dos demais poderes.
Para o Brasil, onde estudantes se mobilizam diante do risco de novos cortes, a experiência argentina oferece uma referência concreta sobre as consequências do desfinanciamento: dificuldades para manter cursos, laboratórios, bolsas e equipes. Também mostra a capacidade de uma pauta universitária reunir sindicatos, famílias e movimentos populares.
Na França, estudantes cobram professores e escolas em condições de funcionar
A falta de professores, a superlotação das salas e a deterioração dos prédios escolares impulsionaram a mobilização estudantil francesa iniciada em setembro. O movimento nasceu em escolas da região de Paris e se expandiu com paralisações, bloqueios e manifestações apoiadas por docentes, familiares e sindicatos.
Nesta terça-feira, 13 de outubro, mais de 161 mil pessoas participaram de atos em cidades francesas, segundo dados do Ministério do Interior publicados pela Reuters. A jornada sucedeu a mobilização de 6 de outubro, que reuniu cerca de 266 mil participantes. As reivindicações colocam em discussão o investimento necessário para que a escola pública cumpra sua função.
O governo de Emmanuel Macron anunciou um plano emergencial para enviar aproximadamente 3 mil professores às escolas com maior carência de pessoal. As entidades estudantis consideraram a medida uma primeira conquista e mantiveram a mobilização. A resposta mostra que a pressão popular pode obrigar o poder público a enfrentar problemas que vinham sendo denunciados dentro das instituições.
A repressão acrescentou outra dimensão ao conflito. A Anistia Internacional denunciou o uso desproporcional da força contra estudantes e pediu mudanças na atuação policial. O direito à educação passou a ser defendido ao lado do direito de manifestação, especialmente diante da presença de menores de idade nos atos.
A mobilização teve repercussão em países vizinhos. Na Bélgica, estudantes participaram de manifestações junto a trabalhadores em greve no dia 9 de outubro. A aproximação entre juventude e sindicatos amplia o debate sobre serviços públicos, condições de estudo e trabalho.
Na Alemanha, manifestantes cobram medidas contra a extrema direita
A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD) provocou mobilizações que reúnem diferentes gerações e organizações sociais. Em Berlim, um ato realizado em 12 de setembro foi convocado por uma aliança de quase cem entidades, incluindo o movimento climático Fridays for Future, o sindicato Verdi e o coletivo Omas gegen Rechts, formado por avós contra a extrema direita.
Em Hamburgo, no dia 10 de outubro, milhares de pessoas defenderam uma análise constitucional da atuação da AfD. A polícia estimou cerca de 3.500 participantes; os organizadores apontaram 5 mil. A reivindicação é que os mecanismos de proteção da democracia sejam acionados diante do risco de forças antidemocráticas usarem as instituições para enfraquecê-las por dentro.
A mobilização alemã aproxima a memória histórica da preocupação com o presente. A presença de jovens, sindicatos, famílias e pessoas idosas mostra que o enfrentamento à extrema direita pode reunir setores com experiências distintas em torno da preservação dos direitos e da participação democrática.
Direitos sociais e democracia na mesma disputa
Universidades sem financiamento, escolas sem professores, dificuldades para pagar despesas básicas e restrições à participação política alimentam essas mobilizações. A percepção de ameaça ao futuro encontra formas de organização em assembleias, sindicatos, coletivos e redes comunitárias.
É nesse ponto que os atos internacionais se aproximam da reação brasileira. A defesa da educação pública encontra a luta por condições de trabalho; a resistência à concentração de poder se liga ao direito de decidir os rumos do país. Quando diferentes gerações ocupam as ruas, levam para o debate público necessidades que não podem ser reduzidas a slogans eleitorais.
A continuidade das jornadas também mostra que a participação popular pode ir além de uma manifestação. Na Argentina, o calendário de marchas acompanha a disputa pelo orçamento. Nos EUA, os organizadores investem no vínculo entre comunidades e no exercício do voto. No Brasil, a juventude articula as reivindicações dos campi com trabalhadores e movimentos populares. A defesa da democracia passa pela capacidade de a população se organizar, ser ouvida e cobrar decisões que melhorem sua vida.
Fonte: Fundação Perseu Abramo