Estudantes de Goiás vencem desafio da Meta com óculos de IA para vistoria de imóveis
Por Giovanna Campos — Jornal Opção

Um protótipo desenvolvido por uma equipe de estudantes de Goiás, que automatiza etapas de vistoria e elaboração de laudos de imóveis alugados por meio de óculos com inteligência artificial, venceu o AI Glasses Brasil, programa realizado pelo Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (CEIA-UFG) e pela Meta. Batizada de “Já Estava”, a solução permite que o vistoriador trabalhe com as mãos livres enquanto registra imagens e descreve as condições de cada item do imóvel.
O resultado foi anunciado na sexta-feira, 18, após o hackathon presencial realizado na sede da Meta, em São Paulo. A final reuniu cinco equipes selecionadas entre 95 inscritas no programa. Durante um dia, os participantes implementaram, testaram e apresentaram protótipos voltados a contextos tão distintos quanto vistorias imobiliárias, administração de medicamentos, formação técnica, atendimento a pessoas surdas e produção de conteúdo.
“Foi uma oportunidade de colocar ideias em prática e explorar novas possibilidades para uma tecnologia que ainda está em desenvolvimento. O hackathon mostrou como diferentes áreas podem encontrar aplicações para os AI Glasses e transformar uma ideia em uma solução concreta”, afirma Arlindo Galvão, diretor do CEIA-UFG.
O “Já Estava” foi criado pela equipe Fita Crepe, formada pelos estudantes João Vitor Alves e Miguel Bertol, que cursam Ciência da Computação na UFG, e João Victor Borges, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).
A ideia surgiu durante uma conversa sobre a vistoria de um apartamento da família de Miguel, em Brasília. A partir do laudo do imóvel, a equipe começou a investigar como os óculos poderiam reduzir o trabalho manual dos vistoriadores. O grupo buscou profissionais do setor imobiliário para entender as principais demandas e dificuldades.
Funcionamento e aplicações para outras áreas
O profissional inicia o procedimento pelo celular, guarda o aparelho e percorre o imóvel usando os óculos. Ao indicar o cômodo e narrar as condições de portas, paredes, aparelhos e outros itens, os registros da câmera e as observações são associados automaticamente.
No pós-processamento, a inteligência artificial cruza a transcrição com o laudo de entrada e classifica cada item como conferido, divergente ou pendente. Além de organizar fotos, resumos e comentários no laudo, a solução gera uma prova em vídeo durante a vistoria.
“O vistoriador indica em qual cômodo está e começa a descrever os itens. Depois de cerca de três segundos, a foto é registrada junto com o que ele falou. Quando termina, ele avisa que finalizou a vistoria e o laudo fica pronto com as fotos, os resumos e os comentários”, explica João Vitor Alves.
Embora tenha sido concebido inicialmente para o mercado imobiliário, o projeto parte de uma lógica que pode ser adaptada a outras atividades de inspeção: registrar imagens e narrações, relacionar as evidências a documentos anteriores e organizar as diferenças encontradas. A equipe agora busca incubadoras de startups para aplicar a tecnologia em vistorias de veículos e frotas, análises para o mercado de seguros, inspeções na manufatura, controle de qualidade e revisões técnicas de máquinas e equipamentos.
Pódio
O segundo lugar ficou com a equipe “Son’s of Turing”, responsável pelo CuidarIA. Voltado a cuidadores de instituições de longa permanência para idosos (ILPIs), o protótipo foi projetado para criar uma verificação adicional na administração de medicamentos. A solução reconhece o residente pelo rosto, registra a declaração falada do cuidador, lê a embalagem do medicamento por reconhecimento óptico de caracteres (OCR) e cruza os dados com a prescrição. Em caso de divergência, o sistema bloqueia o procedimento. O processamento ocorre localmente, no celular.
Em terceiro lugar ficou o “StepWise”, desenvolvido para apoiar estudantes de cursos técnicos, especialmente nas áreas de mecânica e mecatrônica, durante atividades práticas de montagem. O aprendiz pode pedir a verificação de uma etapa sem interromper o trabalho. A câmera analisa a montagem por visão computacional executada localmente, enquanto regras predefinidas determinam se a etapa está correta. Conforme o estudante demonstra domínio, o sistema reduz o nível de assistência.
Também chegaram à final as equipes 3G1B, com o Libras Livre, e Akastra, com o “Olivia”. O “Libras Livre” foi concebido para facilitar o atendimento a pessoas surdas quando não há um intérprete de Libras disponível. Usados pelo atendente, os óculos captam a sinalização e a transformam em voz. No sentido inverso, a fala do atendente é apresentada na tela do celular por meio de um avatar 3D do VLibras. A proposta tem aplicação em serviços de saúde, bancos e órgãos públicos.
O “Olivia” atende criadores de conteúdo que trabalham com as mãos ocupadas, como tatuadores, cozinheiros e mecânicos. Durante a gravação, um modelo de inteligência artificial com compreensão visual analisa um quadro do vídeo a cada dois segundos e orienta, por voz ou sinais sonoros, os ajustes necessários no enquadramento.
Desenvolvimento durante o hackathon
Durante o evento, cada equipe teve acesso aos óculos, a um smartphone compatível e a um notebook. Os participantes contaram com acompanhamento técnico e precisaram cumprir checkpoints relacionados ao uso de inteligência artificial, à integração com câmera ou microfone, à resposta por áudio, à privacidade e ao tratamento de dados e à eficiência da bateria.
“O dia foi repleto de ansiedade e animação, uma mistura de todos os tipos de sentimentos. A gente via pessoas muito competentes e começava a se perguntar se estava fazendo certo. Sempre teve aquele frio na barriga”, lembra João Vitor.
As soluções foram avaliadas por uma banca formada por representantes do CEIA-UFG, da Meta e convidados. Entre os critérios estavam a viabilidade técnica, a aderência ao toolkit e ao hardware dos óculos, o potencial de impacto e as considerações éticas e de privacidade.
Sete etapas de preparação
O AI Glasses Brasil foi organizado em sete etapas, das quais seis foram realizadas pela internet: inscrição, primeiro filtro, cursos on-line, Ideathon, entrega final das propostas e segundo filtro. A sétima e última etapa foi o hackathon presencial em São Paulo.
A preparação técnica começou em agosto, com aulas assíncronas sobre o Meta Wearables Device Access Toolkit, o hardware dos óculos, desenvolvimento para Android/Kotlin e iOS/Swift e criação de agentes de inteligência artificial.
A formação conduzida pelo Centro de Competência Embrapii em Tecnologias Imersivas (AKCIT), ligado ao CEIA-UFG, também incluiu conteúdos de introdução à inteligência artificial e ferramentas generativas de texto.
No Ideathon, as equipes participaram de palestras, workshops e mentorias para aperfeiçoar as propostas. As atividades abordaram estruturação de pitches, transformação de ideias em protótipos, integração dos recursos dos óculos e desenvolvimento de software com o apoio de assistentes de código. Depois dessa etapa, os participantes revisaram os projetos e os submeteram a uma nova avaliação, que definiu as cinco equipes da final.
“Eu não esperava uma ajuda tão grande como a que a gente teve. Os mentores estavam o tempo todo por perto. Quando percebiam que a gente estava nervoso, ajudavam a ficar mais tranquilo e também tiravam todas as dúvidas técnicas. Se um deles não sabia, procurava outro na hora”, relata João Vitor.
Os dispositivos utilizados no hackathon não possuem uma tela convencional. A interação ocorre principalmente por meio de câmera e microfone, com respostas entregues por áudio. Essa característica exige que as aplicações sejam concebidas para experiências baseadas em visão e voz, sem depender de uma interface visual tradicional.
Sobre o CEIA
O Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás atua em pesquisa, desenvolvimento, formação de profissionais, inovação e transferência de tecnologia. Criado em 2019, o CEIA-UFG desenvolve projetos em parceria com instituições públicas e empresas. O Centro também participou da criação do bacharelado em Inteligência Artificial da UFG, primeiro curso de graduação da área no Brasil, aprovado em 2019.
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Fonte: Jornal Opção