Esther Dweck defende soberania digital e revela repatriação de dados estratégicos para empresas públicas de TI
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O Brasil caminha a passos largos para garantir o controle efetivo sobre seus dados estratégicos e infraestrutura digital na era da inteligência artificial. Em entrevista exclusiva concedida ao jornalista Leonardo Attuch, na TV 247, a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), Esther Dweck, detalhou a virada de chave do governo Lula na defesa da soberania digital — conceito que ela define não como isolamento nacional, mas como autonomia decisória, capacidade tecnológica e garantia de que os dados nacionais estejam sob jurisdição brasileira.
Dweck explicou que, ao assumir a pasta em 2023, encontrou um cenário preocupante: licitações anteriores haviam colocado dados críticos do Estado e de universidades federais em nuvens públicas estrangeiras, sujeitas a sanções e decisões unilaterais de outras nações. A partir daí, o ministério implementou uma política decisiva de repatriação.
Nuvem soberana: poder de compra e mais de R$ 1,8 bilhão investidos
Para reverter essa vulnerabilidade sem abrir mão dos serviços de nuvem de ponta, o governo adotou uma estratégia pragmática: exigiu que os equipamentos físicos (CPUs e servidores) fossem instalados fisicamente dentro dos data centers das empresas públicas de TI — o Serpro e a Dataprev.
“Uma coisa é o armazenamento físico na empresa pública, outra é o serviço de nuvem. O que Serpro e Dataprev fizeram foi usar o poder de compra do Estado para negociar com as big techs, inclusive a chinesa Huawei — que foi a primeira a topar —, para que trouxessem suas máquinas para dentro do Brasil. Juntas, nossas estatais investiram mais de R$ 1,8 bilhão nessas aquisições e contratações para garantir que os dados fiquem aqui sob nossa custódia”, pontuou a ministra.
Dweck lembrou que, logo no início de 2023, ao emitir a portaria da Secretaria de Governo Digital exigindo a repatriação, chegou a ouvir de representantes internacionais que a medida seria “jurássica”. Hoje, segundo ela, o cenário mudou: gigantes da tecnologia reconhecem os riscos geopolíticos e procuram o governo brasileiro dispostas a se adequar aos parâmetros de soberania exigidos pelo país.
A ministra também enfatizou o papel estratégico das empresas públicas de tecnologia, ressaltando o perigo evitado ao retirá-las do Programa Nacional de Desestatização (PND), onde haviam sido colocadas na gestão anterior:
“Serpro e Dataprev são empresas 100% públicas, altamente lucrativas e fundamentais para a soberania. Estando no PND, elas eram proibidas de investir. Ao assumirmos, com dinheiro em caixa e uma nova diretriz governamental, foi possível dar esse salto tecnológico”.
Inteligência Artificial: modelos especializados e foco social
Questionada sobre o impacto e o futuro da inteligência artificial, Dweck rechaçou tanto o catastrofismo apocalíptico quanto a visão do mercado que prega a “autorregulação” irrestrita. Para ela, a IA deve ser rigorosamente regulada — inclusive no plano multilateral, traçando um paralelo com a governança da energia nuclear — e orientada a resolver problemas reais do povo brasileiro, sem precarizar o trabalho nem substituir o ser humano.
“A IA precisa ser regulada. Como citei recentemente em reuniões internacionais, hoje a inteligência artificial é menos regulada do que uma escova de dente. Não podemos deixar uma tecnologia com esse poder sem supervisão humana estrita, sob risco de aprofundar desigualdades e preconceitos”, afirmou.
A estratégia brasileira traçada pelo presidente Lula, segundo Dweck, tem dois eixos claros:
- Tropicalização e código aberto: Em vez de tentar competir isoladamente com modelos genéricos gigantescos de trilhões de dólares, o Brasil aposta em modelos de código aberto (open source) — campo no qual a China tem liderado com uma postura de compartilhamento — para treinar modelos com dados nacionais especializados.
- Resolução de demandas concretas: Aplicação prática em agricultura tropical, combate ao desmatamento, previsão de desastres climáticos, saúde pública e diagnóstico médico, além de ferramentas de eficiência para servidores públicos.
Projeto Inspire e parcerias no Sul Global
Entre os projetos em curso, Dweck destacou o Inspire, desenvolvido em parceria com o CPQD e financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O projeto tem como metas principais catalogar o patrimônio de dados do governo e desenvolver mais de 30 chats inteligentes e soluções especializadas no Gov.br para atendimento direto ao cidadão.
A ministra também exaltou a cooperação com os países do Sul Global, citando a Índia — referência em credenciais verificáveis (tecnologia que substitui a autenticação cartorial por via 100% digital, já aplicada no crédito rural brasileiro) — e a China, pela postura colaborativa em modelos abertos e aplicações práticas voltadas à educação e facilitação da vida cotidiana, em contraste com a lógica do Vale do Silício focada em corte drástico de custos e eliminação de empregos.
Por fim, Esther Dweck destacou o exemplo pioneiro de estados brasileiros, em especial o Piauí, que hoje desponta na vanguarda das soluções de governo digital e IA soberana, comprovando que o salto tecnológico brasileiro está articulado da base aos ministérios centrais.
Assista à íntegra da entrevista com a ministra Esther Dweck na TV 247:
Fonte: Brasil 247