Esposa de traficante do CV e neto de bicheiro não podem disputar a eleição, decide o TRE-RJ
Por Wendal Carmo — Carta Capital
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Mariana de Souza (PP) havia se lançado na briga por uma vaga na Câmara dos Deputados, enquanto João Felipe Drumond Espíndola (PRD) concorria à Alerj
Por unanimidade, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro barrou, nesta sexta-feira 11, a candidatura de Mariana de Souza (PP) à Câmara dos Deputados. A impugnação apresentada pelo Ministério Público Eleitoral apontou suspeitas de vínculos da candidata com o alto escalão do Comando Vermelho.
Entre os indícios citados pelo MPE está o fato de ela ser esposa de Wilson Marques de Albuquerque, conhecido como “Zé Dirceu” e apontado pela Secretaria de Segurança Pública de Alagoas como número dois da facção no estado.
De acordo com o MP, Wilson foi condenado a 19 anos e quatro meses de prisão por tráfico de drogas e a 12 anos e sete meses por associação para o tráfico. Ele está foragido. Os documentos apresentados ao TRE-RJ apontam “vínculos profundos” de Mariana com o alto escalão do CV. A Procuradoria afirma, por exemplo, que a candidata teria ocultado o rosto do marido em publicações nas redes sociais para dificultar sua identificação e sua captura.
Mariana é dona da empresa Império do Norte Ltda., registrada em endereço contíguo ao de uma empresa que teria sido aberta com identidade falsa pelo seu companheiro. A suspeita é que as empresas tenham sido utilizadas para lavagem de dinheiro.
Outro argumento apresentado pela Procuradoria ao pedir a rejeição da candidatura está relacionado à votação de Mariana nas eleições de 2024: cerca de 81,3% do total de votos recebidos naquele pleito ficaram concentrados em bairros da zona norte apontados como áreas dominadas pelo CV, incluindo regiões do Complexo da Penha. Um indício da existência de um “curral eleitoral” sustentado por coerção territorial, sustenta o Ministério Público.
Também há nos autos um áudio obtido pelas forças de seguranças de Alagoas no qual um homem identificado como “Nem Catenga”, suposto líder da facção no estado, diz considerar que a organização precisa de “um representante” e de “uma voz ativa” na política.
A gravação, de 2024, foi enviada a Patrick de Almeida Silva, o “PTK”, influenciador que pretendia disputar uma vaga de vereador naquele ano — ele foi preso em junho passado pela Polícia Civil alagoana, quando se apresentava como pré-candidato a deputado. “Mais uma vez o tribunal está dando uma resposta ao crime organizado”, afirmou o presidente do TRE-RJ, desembargador Cláudio de Mello Tavares, ao fim do julgamento.
Na mesma sessão, o tribunal fluminense também rejeitou o registro de candidatura de João Felipe Drumond Espíndola (PRD), candidato a deputado estadual. Foram cinco votos por indeferir o pedido e outros dois para manter na disputa pela Assembleia Legislativa o neto de Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho Drumond, um dos principais nomes da antiga cúpula do jogo do bicho no Rio.
Além de questionar os vínculos dele com a Imperatriz Leopoldinense, escola de samba historicamente ligada à família Drumond, o MP Eleitoral citou uma possível aproximação política entre João Drumond e Mariana de Souza ao pedir a impugnação da candidatura. Os dois aparecem juntos em publicações de agendas realizadas no Complexo da Penha, área com presença do CV.
Para o órgão, o conjunto desses elementos indicaria que a candidatura de João não estaria desvinculada de uma estrutura familiar que, segundo investigações, mantém há décadas influência no samba e ligação com a contravenção.
A desembargadora Thatiana de Carvalho Costa, relatora do processo, afirmou não ter identificado “atos de submissão, financiamento, cessão de estrutura ou coordenação entre a atuação institucional de João e uma organização criminosa”. A maioria do tribunal, no entanto, levou em consideração o fato de ter sido identificado pelo MPF que Jomar Duarte Bittencourt Júnior, o Jomarzinho, coordenaria a campanha de João em grupos de mensagens.
Jomarzinho, filho de um delegado da Polícia Federal, foi acusado de vazar informações, em 2019, sobre as investigações das mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
À reportagem, o advogado Francois Ranieri, que defende Mariana Souza, afirmou que recorrerá da decisão por considerá-la “injusta”. Ele também declarou que os argumentos do MP Eleitoral “são meras especulações de um relatório apresentado que não traz provas do seu envolvimento” com a facção criminosa.
O advogado Eduardo Damian, um dos integrantes da defesa de João Drumond, declarou respeitar o posicionamento do tribunal fluminense, mas disse que contestará a decisão com recurso ao Tribunal Superior Eleitoral.
Wendal Carmo
Repórter do site de CartaCapital no Nordeste
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Fonte: Carta Capital