Especialista vê segurança pública como possível caminho para pressão dos EUA sobre eleição

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Por henriquenunesFundação Perseu Abramo

O alerta da Agência Brasileira de Inteligência sobre risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras chama atenção para pressões que podem ocorrer fora das urnas e influenciar o ambiente político da campanha.

No relatório “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça, a Abin aponta uma tendência de escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil e classifica a possibilidade de interferência externa com “nível de criticidade”.

Para Mariana Kalil, professora de Geopolítica da Escola Superior de Guerra, uma das vias possíveis para esse tipo de pressão passa pela segurança pública e pela tentativa de associar partidos de esquerda e movimentos sociais ao terrorismo e ao narcoterrorismo.

“Há uma coordenação que vê, antes mesmo do governo Trump, uma relação entre partidos de esquerda e movimentos sociais com o narcoterrorismo para desestabilizar o Ocidente. Mobilizando esses grupos e conseguindo radicalizar essa narrativa poderia haver, sim, uma real ameaça ao processo eleitoral”, afirma.

A questão ganhou peso depois que o governo de Donald Trump classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, também incorporou à campanha a proposta de tratar organizações criminosas brasileiras como narcoterroristas.

Na avaliação de Mariana, a narrativa pode ser usada para questionar a capacidade do Estado brasileiro de enfrentar o crime organizado e transferir o tema da segurança pública para a disputa entre os governos brasileiro e norte-americano.

“O que me parece é que o Brasil não está na zona de influência dos EUA na questão da segurança e, portanto, não pode ser visto como confiável com este regime que temos no momento. Pela via da segurança, embora seja uma demanda dos estados, a sociedade imputa à União a responsabilidade e Trump pode mobilizar uma narrativa desfavorável ao governo Lula.”

A professora considera, porém, frágil uma tentativa de estabelecer uma relação direta entre o governo brasileiro, movimentos de esquerda e organizações classificadas pelos Estados Unidos como terroristas.

Segundo ela, esse tipo de argumento guarda semelhanças com a retórica utilizada pelo governo Trump em relação à Venezuela.

“Na retórica americana, a Venezuela costura toda essa narrativa de que tinha grupos terroristas que foram tolerados por Maduro e têm sido tolerados por Lula no Brasil.”

Mariana chama atenção, sobretudo, para o salto entre o problema real da atuação transnacional das facções e sua transformação em argumento político contra determinado campo ideológico.

“A construção dessa ligação da segurança pública, que não é competência exclusiva da União, com grupos terroristas é muito frágil e é nesse ponto que precisamos insistir.”

O relatório da Abin também identifica a segurança como uma das áreas em que a pressão norte-americana avançou nos últimos meses. Segundo o órgão, o enquadramento de organizações criminosas brasileiras como ameaça à segurança dos Estados Unidos pode abrir caminho para sanções com efeitos financeiros e econômicos sobre pessoas e empresas no Brasil.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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