‘Escudo das Américas’: Amorim denuncia estratégia de Trump para impor ‘cerco’ ao Brasil
Por João Antonio Cunha — Brasil 247
247 – O assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o Escudo das Américas, iniciativa lançada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta impor um cerco ao Brasil sob a justificativa de combater o crime organizado. Segundo Amorim, a proposta representa uma estratégia de dominação sobre os países da região.
Em entrevista ao canal Tutaméia, no YouTube, Amorim classificou como falso o argumento de que a iniciativa se destina ao enfrentamento do crime organizado e criticou a aproximação entre o combate às facções criminosas e o terrorismo internacional. A coalizão reúne governos latino-americanos ultradireitistas alinhados a Trump, entre eles os de Javier Milei, da Argentina, Abelardo de la Espriella, da Colômbia, e Nayib Bukele, de El Salvador.
No mês passado, após uma solicitação do governo Trump, os integrantes do grupo firmaram um acordo para classificar formalmente facções criminosas como ameaças compartilhadas e submetê-las a sanções. Entre os 24 grupos citados na proposta estão o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
“Agora, sim, nós sofremos ameaça. Veja bem, essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil em cerco, cercado com base em argumento falso, que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional. […] Na realidade, é um esquema de dominação absoluta”, declarou Amorim.
Governo vê risco de intervenção militar
Segundo o g1, auxiliares diretos de Lula consideram a iniciativa grave e avaliam que ela pode abrir caminho para ações militares na América Latina, a exemplo do que ocorreu na Venezuela e na Colômbia.
Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que, apesar de os países da região buscarem, em geral, manter boas relações com o Brasil, diferentes interesses levaram governos latino-americanos a apoiar a proposta.
Na avaliação desses interlocutores, Milei, Bukele e Espriella aderiram por alinhamento político a Trump. Já Equador, Paraguai e Panamá teriam participado por razões estratégicas, como a busca por recursos financeiros e a tentativa de evitar operações militares estadunidenses em seus territórios.
Neste ano, o governo Trump também decidiu classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Integrantes do governo Lula criticaram a medida e argumentaram que a rotulação das facções não resolve o problema do crime organizado.
Amorim classifica tarifaço como intimidação
Amorim também acusou o governo dos Estados Unidos de utilizar tarifas comerciais contra produtos brasileiros como instrumento de intimidação contra Lula durante o processo eleitoral brasileiro.
A Casa Branca anunciou duas medidas tarifárias contra mercadorias brasileiras. Uma delas estabeleceu uma alíquota de 25%, justificada pelo governo estadunidense com alegações de práticas desleais em áreas como Pix, etanol, propriedade intelectual e desmatamento.
A outra impôs uma tarifa de 12,5%, sob o argumento de que dezenas de países, incluindo o Brasil, não teriam impedido adequadamente a importação de produtos fabricados em locais onde há trabalho forçado.
Negociadores brasileiros avaliam que as medidas tiveram motivação política. Segundo eles, os representantes dos Estados Unidos desconsideraram informações apresentadas pelo Brasil e utilizaram argumentos considerados improcedentes, entre eles a alegação de que Washington mantém déficit comercial com Brasília, quando, na realidade, os Estados Unidos registram superávit na relação bilateral.
“O tarifaço não foi uma medida econômica, tanto que eles tiveram que voltar atrás em algumas porque a própria Suprema Corte disse que eram ilegais. O tarifaço foi uma medida de intimidação. A gente procura tentar levar isso de uma maneira como se fosse para poder negociar alguma coisa, mas na realidade é uma medida de intimidação”, afirmou Amorim.
O assessor também citou a postura de Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin diante das pressões estadunidenses. “É que o Lula e o Alckmin não têm medo de tarefas difíceis, eles enfrentam. Essa é a questão. E eles [EUA] querem alguém que se acomode e faça o que eles querem, para ser um grande Porto Rico, com todo respeito ao povo de Porto Rico”, completou.
Fonte: Brasil 247