Entre o palanque e a urna: o destino das candidatas em 2026
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28/9/2026 15:56
Faltam sete dias para os brasileiros irem às urnas e o eleitorado que decidirá esta eleição é feminino. São 83,8 milhões de eleitoras — 52,8% do total, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Numa disputa apertada, isso pode decidir a disputa presidencial. Não por acaso, as campanhas brigam por esse voto: Flávio Bolsonaro lançou o plano “Brasil por Elas”; Lula fez de Janja presença constante nos palanques e, em Recife, defendeu que, se as mulheres votarem em mulheres, o Congresso poderá um dia ter maioria feminina.
O problema: no mesmo palanque, Lula pediu votos para João Campos (PSB), adversário da governadora Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco — uma das poucas mulheres com chance real de vitória no país. A cena resume a contradição do pleito: disputadas como eleitoras, as mulheres seguem raras como candidatas.
Os números do TSE são impiedosos: das 20.958 candidaturas, 7.357 são de mulheres — 35,1%, 18 pontos abaixo do peso delas no eleitorado. É a quarta eleição seguida em que elas ficam em um terço — a cota de 30% virou teto, não piso. O funil se estreita conforme o cargo cresce: 42,9% das candidaturas a vice-governador são femininas, mas só 17,4% a governador e 21,9% ao Senado. Nos majoritários, onde não há cota, os partidos não escalam mulheres. O PT não lançou uma única candidata a governo estadual. Na Presidência, duas mulheres entre 13 — as duas sequer foram convidadas para os principais debates e sabatinas promovidas pela grande mídia.
Sete estados terão disputa 100% masculina pelo governo. Das 32 candidatas, só oito têm chance real — quase todas já ocupam posições de poder: governadoras, vices, senadoras. Em 2022, mulheres protagonizaram disputas abertas em PE, RN, MS e RR. Em 2026, o protagonismo se retraiu para um clube restrito de quem já chegou lá.
A grande exceção é o Senado: 69 candidatas, o maior número da história, e 15 favoritas e 14 competitivas, segundo o levantamento de Murilo Medeiros (UnB) com dados Quaest — se mais de oito vencerem, quebra-se o recorde de 2002 e 2010. No DF, Michelle Bolsonaro lidera com 26%. Mas Michelle e Marina Silva são as políticas mais conhecidas do país — a notoriedade segue sendo o passaporte da competitividade feminina.
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O dado mais cruel está na Câmara: candidatas caíram 24% ante 2022. Entre 1998 e 2022, as candidaturas femininas cresceram 925%; as eleitas, apenas 210%. O Brasil é o 139º no ranking mundial de representatividade feminina. Candidatura, no Brasil, não vira mandato.
Na pesquisa Confia Nelas, 71% querem mais mulheres na política, mas só 34% acreditam que elas têm as mesmas oportunidades hoje. E há uma armadilha: para 31%, a maior qualidade de uma governante é a honestidade — o elogio vira pedestal, impondo às candidatas um padrão moral mais alto. Entre as próprias mulheres, só 23% se sentem representadas.
A última semana decide duas eleições em paralelo. Numa, Lula e Flávio disputam o voto de 83,8 milhões de eleitoras. Na outra, silenciosa, decide-se se mais de oito atravessam a fronteira entre quem elege e quem é eleita. O Senado pode dar a resposta otimista; os governos, a presidência e a Câmara já deram a pessimista. Entre o palanque e a urna, o Brasil escolhe, em 4 de outubro, qual história contar.
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Fonte: Congresso em Foco