Transformam esterco de vaca em um substituto do plástico agrícola e conseguem cultivar usando 30% menos fertilizante
Por Carlos Emanoel Freires dos Santos — Catraca Livre
Um resíduo comum da pecuária pode ganhar uma função inesperada no campo. Pesquisadores desenvolveram uma película agrícola biodegradável feita a partir de esterco bovino para substituir parte do plástico usado sobre o solo. Em um teste com milho para silagem, o material conseguiu manter a produção mesmo quando a quantidade de fertilizante mineral foi reduzida em 30%.
Como esterco de vaca pode virar uma cobertura para o solo?
O material é chamado de manure-based slurry film, ou MSF. Em vez de colocar uma lâmina convencional de polietileno sobre a plantação, o esterco passa por processamento até formar uma cobertura biodegradável capaz de permanecer sobre o terreno durante o cultivo.
A função inicial é parecida com a do plástico agrícola: proteger a superfície do solo, ajudar a controlar a perda de água e modificar o ambiente em que as plantas crescem. A diferença aparece à medida que o novo material começa a se degradar.
Enquanto o polietileno funciona principalmente como uma barreira física, a película feita com esterco também libera matéria orgânica e nutrientes e passa a interagir com os microrganismos presentes no solo.
De onde vem a redução de 30% no fertilizante?
O teste foi realizado em Minle, na província chinesa de Gansu, durante 105 dias em 2024. Os pesquisadores cultivaram milho para silagem e compararam áreas cobertas com plástico convencional e outras com a nova película de esterco. Em cada grupo, foram testadas doses equivalentes a 100%, 85% e 70% da fertilização mineral normalmente utilizada.
Com a cobertura biodegradável, reduzir o fertilizante em 30% não provocou queda estatisticamente significativa na produção em relação ao tratamento com a dose completa dentro do mesmo sistema. Já entre as plantas com a mesma redução de fertilizante, aquelas cultivadas com o material de esterco terminaram o experimento com cerca de 230 gramas de matéria seca por planta, contra aproximadamente 195 gramas sob polietileno.
- o experimento durou 105 dias;
- o cultivo utilizado foi milho para silagem;
- foram comparadas três doses de fertilização;
- a maior redução testada foi de 30%;
- o rendimento foi mantido com a película de esterco nessa condição.
O que acontece no solo para que a planta aproveite melhor os nutrientes?
Os resultados indicam que a vantagem não vem apenas dos nutrientes presentes no próprio esterco. O material também alterou a comunidade microbiana e favoreceu processos relacionados à disponibilidade de nitrogênio, fósforo e potássio.
No início do cultivo, por exemplo, os solos cobertos com a película de esterco apresentaram cerca de 15,5 mg/kg de fósforo disponível, enquanto aqueles com polietileno registraram aproximadamente 9,2 mg/kg. Também foram observadas diferenças na matéria orgânica e em outros nutrientes durante o experimento.
As raízes também responderam. Em determinadas fases, as plantas do sistema com MSF desenvolveram mais matéria seca radicular, algo importante porque raízes maiores conseguem explorar um volume maior de solo em busca de água e nutrientes.
Essa película também pode resolver o problema do plástico deixado nas plantações?
Essa é uma das razões para o interesse no material. Filmes de polietileno são amplamente usados para conservar umidade, dificultar o crescimento de ervas daninhas e modificar a temperatura do solo. O problema aparece depois da colheita, porque retirar completamente essas películas pode ser difícil e pequenos fragmentos podem permanecer no terreno.
Uma cobertura biodegradável feita a partir de um resíduo pecuário poderia reunir três funções: aproveitar esterco que precisaria ser manejado, substituir parte do plástico agrícola e diminuir a dependência de fertilizantes minerais. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que filmes produzidos com esterco bovino podem melhorar propriedades do solo e o desempenho do milho.
Mas existe uma limitação importante. Na análise de ciclo de vida do experimento atual, a fabricação do MSF ainda apresentou impacto ambiental maior que o sistema convencional em todas as seis categorias avaliadas. Portanto, biodegradável não significa automaticamente mais sustentável quando todo o processo de produção é considerado.
O experimento mostra uma alternativa promissora, mas ainda não uma substituição pronta para qualquer lavoura
O resultado de conseguir cultivar milho com 30% menos fertilizante mineral sem perder rendimento mostra que o esterco pode assumir um papel muito mais sofisticado do que simplesmente ser espalhado como adubo. Transformado em película, ele passa a atuar simultaneamente como cobertura, fonte de matéria orgânica e agente capaz de modificar a atividade biológica do solo.
A tecnologia, porém, ainda está em fase experimental. O estudo corresponde a uma cultura, uma região e uma única temporada de 105 dias. Ainda será necessário verificar como o material se comporta em outros climas, solos e cultivos, além de reduzir o consumo de recursos durante sua fabricação. O potencial existe, mas o próximo desafio é fazer com que a alternativa também seja vantajosa quando toda a sua produção for colocada na conta.
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Fonte: Catraca Livre