Entidades brasileiras acionam Congresso dos EUA por suspeitas de favorecimento da Meta a Flávio Bolsonaro

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – O Instituto Vladimir Herzog (IVH) e a organização CTRL+Z solicitaram ao Congresso dos Estados Unidos a abertura de uma investigação sobre suspeitas de que a Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, tenha beneficiado a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) em detrimento da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A iniciativa ocorre às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em meio a questionamentos sobre o funcionamento dos algoritmos e das ferramentas de moderação da empresa.

Segundo informações da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, as entidades encaminharam uma carta aos parlamentares americanos na quarta-feira (21), solicitando esclarecimentos sobre restrições impostas a publicações favoráveis a Lula, possíveis diferenças no tratamento de conteúdos eleitorais por sistemas de inteligência artificial e a circulação de propaganda política financiada fora do Brasil.

O documento reúne denúncias de usuários, resultados de pesquisas acadêmicas e episódios que já motivaram determinações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As organizações defendem que a atuação da companhia seja submetida a uma investigação independente, diante da recorrência dos problemas identificados durante a campanha presidencial.

Mais de 1,1 mil denúncias de restrições nas plataformas

Um dos principais elementos apresentados ao Congresso americano é um conjunto de 1.121 relatos recebidos pela CTRL+Z sobre dificuldades enfrentadas por usuários das plataformas da Meta.

As ocorrências incluem suspensão de contas, limitação de recursos disponíveis nos aplicativos e diminuição da distribuição de publicações. De acordo com a organização, os problemas afetaram sobretudo perfis favoráveis à candidatura de Lula, além de jornalistas, produtores independentes de conteúdo e organizações da sociedade civil.

As entidades questionam se os episódios decorreram exclusivamente de falhas técnicas ou se os sistemas de moderação e recomendação da empresa produziram tratamento desigual entre os candidatos à Presidência.

A carta também aborda diferenças identificadas no funcionamento das ferramentas de inteligência artificial da Meta. A própria companhia reconheceu uma falha que permitia a geração de determinadas imagens eleitorais relacionadas a Flávio Bolsonaro, mas impedia a criação de conteúdos equivalentes envolvendo Lula.

Pesquisa identificou 1.613 anúncios eleitorais financiados do exterior

Outro ponto central da denúncia é a circulação de publicidade político-eleitoral paga a partir de outros países.

Um levantamento do NetLab, laboratório vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 1.613 anúncios dessa natureza impulsionados nas plataformas da Meta entre julho e setembro de 2026.

Conforme a pesquisa, a maior parte das páginas responsáveis pelas publicações estava localizada nos Estados Unidos. Também foram encontrados registros associados à Itália, ao México, a Bangladesh e à Colômbia.

Diante desses resultados, o IVH e a CTRL+Z querem que os congressistas americanos exijam da Meta informações sobre a identidade dos financiadores e sobre os procedimentos utilizados para detectar e bloquear publicidade eleitoral irregular.

As organizações solicitam ainda a preservação dos registros digitais relacionados aos episódios denunciados, de modo a permitir futuras verificações. Entre as medidas defendidas está a realização de auditorias independentes nos mecanismos de recomendação de conteúdo, moderação e inteligência artificial da companhia.

TSE determinou tratamento igualitário entre Lula e Flávio Bolsonaro

A pressão internacional sobre a Meta ocorre depois de uma série de decisões da Justiça Eleitoral brasileira destinadas a assegurar condições equivalentes de atuação digital às duas campanhas presidenciais.

Em 14 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, determinou que a empresa adotasse medidas para impedir restrições discriminatórias à circulação de publicações e ao funcionamento dos sistemas de recomendação de suas plataformas.

A determinação foi referendada por unanimidade pelo plenário da Corte no dia seguinte.

Na segunda-feira (19), diante da necessidade de comprovação do cumprimento das medidas, o tribunal estabeleceu um novo prazo de 24 horas para a companhia apresentar as informações exigidas.

A Corte também aumentou para R$ 1 milhão o valor da multa diária prevista em caso de descumprimento da ordem judicial.

As decisões refletem a preocupação da Justiça Eleitoral com possíveis desequilíbrios na exposição dos candidatos nas redes sociais, especialmente na reta final de uma disputa presidencial acirrada.

Mensagens internas apontaram prejuízos à campanha de Lula

As suspeitas ganharam força após a Folha de S.Paulo divulgar mensagens internas da Meta nas quais funcionários da empresa reconheceram problemas que atingiram diretamente a presença digital do presidente Lula.

De acordo com a reportagem, os registros indicaram que contas associadas ao petista sofreram restrições no Instagram, enquanto o perfil de Flávio Bolsonaro apareceu indevidamente em recomendações algorítmicas no Instagram e no WhatsApp.

Um dos episódios envolveu a conta oficial de Lula, que ficou impedida de impulsionar publicações anteriormente realizadas no Instagram durante quase 24 horas.

Segundo cálculos da campanha petista, a limitação comprometeu a possibilidade de alcançar aproximadamente 1,3 milhão de pessoas.

O caso levantou questionamentos sobre os efeitos eleitorais de falhas nas ferramentas de publicidade e distribuição de conteúdo, particularmente em um período no qual as campanhas intensificam a comunicação com os eleitores.

A empresa, entretanto, rejeita qualquer favorecimento deliberado a Flávio Bolsonaro.

Em manifestação divulgada em 16 de outubro, a Meta atribuiu os incidentes a problemas técnicos distintos e sustentou que seus sistemas não foram desenvolvidos para distribuir publicações de acordo com posicionamentos ideológicos.

Apesar dessas explicações, o Instituto Vladimir Herzog e a CTRL+Z consideram necessária uma apuração externa capaz de esclarecer as causas dos episódios e verificar se as medidas corretivas adotadas pela companhia foram suficientes.

Organizações cobram respeito à soberania brasileira

Além da investigação sobre o funcionamento das plataformas, as entidades brasileiras solicitam que os parlamentares dos Estados Unidos reafirmem o respeito à soberania nacional e defendam a observância das normas eleitorais brasileiras por empresas americanas.

O pedido busca ampliar a fiscalização sobre a Meta também em seu país de origem, onde estão sediadas suas principais estruturas corporativas.

A mobilização ocorre em um contexto de preocupação de organizações da sociedade civil com possíveis interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.

Na terça-feira (20), representantes do Instituto Vladimir Herzog participaram de uma reunião com integrantes de sete embaixadas e da Delegação da União Europeia no Brasil.

Durante o encontro, o instituto apresentou denúncias relacionadas à atuação do governo do presidente americano Donald Trump e manifestou preocupação com a possibilidade de os Estados Unidos não reconhecerem o resultado das eleições brasileiras.

Segundo o IVH, os representantes diplomáticos demonstraram preocupação com os relatos apresentados e afirmaram que permaneceriam disponíveis para receber novas denúncias.

Fonte: Brasil 247

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