‘Embora gere frustrações, é parte da estratégia’: analista avalia discurso de Delcy Rodríguez na ONU
Por Leonardo Fernandes — Brasil de Fato
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Teve até mobilização nas ruas de Caracas para celebrar a participação da presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O motivo de tanta celebração é o fim do isolamento diplomático ao qual o país esteve submetido nos últimos anos.
Para o governo venezuelano, a ocasião marca o retorno da Venezuela ao cenário internacional e abre novas janelas de oportunidade para que o país supere as dificuldades econômicas provocadas pelas sanções.
“Peço o apoio da comunidade internacional para que apoie, de boa fé, as mudanças de que a Venezuela precisa, respeitando o direito do meu país à autodeterminação. A Venezuela quer respirar livremente, exercer seus direitos como nação soberana sem qualquer interferência, uma Venezuela admirada e respeitada”, disse a presidenta em exercício na ONU, na terça-feira (23).
A última vez que um chefe de Estado venezuelano havia participado da Assembleia Geral das Nações Unidas foi em 2018, quando o presidente Nicolás Maduro discursou. Desta vez, ele não esteve presente nem no discurso da atual mandatária, que evitou falar diretamente sobre a agressão militar sofrida no dia 3 de janeiro, e se referiu apenas ao que chamou de “confrontação agudizada com os Estados Unidos”.
“Em 2026, a Venezuela viveu duas grandes e dolorosas provações na sua vida como nação: uma derivada do estrangulamento da sua vida política interna e da confrontação agudizada com os Estados Unidos da América; outra proveniente da ferocidade da natureza, o duplo terremoto de 24 de junho. Apesar destes golpes da vida tão fortes, como diria o poeta César Vallejo, para os venezuelanos e venezuelanas, hoje a Venezuela renasce”, declarou Rodríguez.
Para o cientista político venezuelano Martín Pulgar, embora gere certa frustração em setores revolucionários, a presidenta joga com as armas que tem diante de um cenário absolutamente desfavorável, em que qualquer passo em falso pode prejudicar a própria defesa de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. O casal segue seuqestrado nos Estados Unidos.
“Do ponto de vista da esquerda latino-americana, venezuelana e do chavismo em concreto, há um sentimento de profunda dor, pois é uma bandeira o resgate e a denúncia de um ato injusto como o sequestro do presidente, além do assédio permanente contra a Venezuela”, reconhece Pulgar, que, por outro lado, defende uma postura pragmática que tenha como objetivo central preservar as negociações entre o país agressor e o agredido.
“Não estou nessas mesas de negociação, mas imagino como seja difícil avançar em passos pequenos que vão, aos poucos, consolidando a flexibilização ou o levantamento das sanções. O objetivo é não gerar ruídos que possam obstaculizar o andamento do julgamento, pois qualquer declaração pode provocar reações, considerando que se trata de um julgamento midiático e moral em que muitos atores influenciam para obter uma condenação. Qualquer ação ou reação pode ser prejudicial”, argumenta o cientista político.
A reunião com Donald Trump, que deu origem à foto da presidenta ao lado dele, em que ambos aparecem sorrindo, foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais venezuelanas e provocou críticas ácidas à presidenta em exercício. Figuras históricas do chavismo arremeteram contra o governo de Delcy Rodríguez. Como o apresentador de TV Mário Silva, ex-deputado constituinte, que fez críticas fortes ao encontro em Nova York.
“Eu pensei que fosse inteligência artificial ou algo do tipo, mas é um surrealismo total. Quando vemos a presidenta interina reunida com quem nos bombardeou e matou mais de cem compatriotas, incluindo 32 cubanos, e fazendo o sinal de ‘V da vitória’, não conseguimos entender isso”, publicou o apresentador em uma rede social.
Por sua vez, o cientista político Martín Pulgar argumenta que as ações do governo venezuelano fazem parte de uma estratégia baseada em objetivos claros: garantir a viabilidade da República e da nação venezuelana diante de um bombardeio, a preservação da democracia participativa e, finalmente, a manutenção do poder político pelas forças revolucionárias. E critica as cobranças por um enfrentamento que só causaria mais danos ao país.
“Eu posso entender o desejo de ostentar bandeiras. Entendo também que alguns setores de esquerda na América Latina quisessem a imolação dos venezuelanos e da Revolução Bolivariana, embora estejam dispostos a ver os outros se imolarem sem fazer o mesmo em seus próprios países e lutas”, pontua.
“As revoluções não se fazem apenas com um livro debaixo do braço. Fazem com o livro e com a compreensão da realidade objetiva e das realidades subjetivas, adequando a ação e o manual a cada momento histórico e aos objetivos de curto, médio e longo prazo”, continua Pulgar.
Na viagem a Nova York, Delcy Rodríguez ainda se reuniu com o secretário-geral da ONU, António Guterres, e chefes de organismos financeiros multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
“O fato de a Venezuela poder voltar a atuar com maior liberdade no cenário internacional, sem o peso das medidas coercitivas, podendo reingressar nos processos e circuitos financeiros, é algo fundamental”, finaliza Pulgar.
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Fonte: Brasil de Fato