Em Minas, Lula encara alta abstenção e apoio de grandes cidades a Flávio Bolsonaro para virar no 2º turno
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Apenas 49.650 votos separaram a vitória do presidente Lula (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2022 em Minas Gerais. Entretanto, no último dia 4, Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu assumir a dianteira e consolidou uma vantagem de 4,91 pontos percentuais no estado frente a Lula, destaca a Folha de São Paulo.
No primeiro turno foram registrados cerca de 588 mil votos a mais para o candidato do PL no estado, valor que corresponde a cerca de um quarto dos 2,2 milhões da diferença entre os presidenciáveis no país.
Ainda que Lula tenha ganhado em mais municípios mineiros — 452, ante 401 liderados por Flávio, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, o senador fluminense conquistou os maiores colégios eleitorais do estado, fato que impõe um desafio à campanha do presidente, que agora tenta reverter um cenário marcado pela alta abstenção e conquistar o voto de indecisos no segundo turno.
O candidato do PL superou o presidente na capital do estado, Belo Horizonte, e na maioria das cidades da região metropolitana, e também teve vantagem em nove dos dez maiores colégios eleitorais mineiros. Entre eles, estão Uberlândia, no Triângulo Mineiro, Ribeirão das Neves, cidade da Grande BH com histórico de alinhamento petista, e Montes Claros, um dos poucos municípios do norte de Minas onde Lula ficou em desvantagem.
Minas Gerais concentra o segundo maior colégio eleitoral do país e funciona como atalho, segundo analistas e acadêmicos, para projetar os rumos da apuração nacional. Durante a campanha eleitoral iniciada em agosto, tanto Flávio quanto Lula visitaram o estado pelo menos quatro vezes.
“De todos os estados, Minas é o que mais se aproxima da ideia de um espelho do país”, diz o especialista em geografia eleitoral Lucas Gelape, professor do departamento de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Por, justamente, ser um estado grande e desconcentrado, ele é muito poroso a diferentes influências e, por isso, consegue refletir ou indicar movimentos que acontecem em outras regiões do país”, afirma.
No estado, Flávio ainda conseguiu reverter o resultado do último pleito em 178 cidades. Lula, por sua vez, não registrou nenhuma inversão nos municípios que em 2022 deram vitória a Jair Bolsonaro.
Entre as dez cidades mais populosas, Lula só marcou vantagem em Juiz de Fora, na zona da mata mineira, região onde o mandatário conseguiu manter a liderança registrada em pleitos anteriores.
Gelape evita afirmar que o resultado expõe um crescente alinhamento do estado à direita, que deu uma votação recorde a Nikolas Ferreira (PL), reeleito deputado federal, e elegeu as maiores bancadas estaduais e federais do PL em Minas. “Temos sim uma direita cada vez mais consolidada no Brasil, mas Minas mostra como essa diversidade [das cidades onde os candidatos conquistaram a maioria] ainda acontece”.
Ele diz que a campanha de Lula deve focar especialmente nas grandes cidades, “onde tem mais voto e onde o Lula também perdeu mais votos”. “A bancada do PT na Câmara dos Deputados e na ALMG [Assembleia Legislativa de Minas Gerais] aumentou, você tem aí deputados com enraizamento social no estado que podem sair para fazer campanha, mas eles vão falar o quê e para quem?”, questiona o professor, apontando a falta de uma linha estratégica clara para a candidatura do presidente em segundo turno.
Para ele, nesse sentido, a campanha de Flávio se revela mais simples. “Na verdade, a estratégia dele vem dando certo. O que ele precisa fazer para conquistar esse pouquinho que falta é converter o voto dos candidatos eliminados em primeiro turno”, diz. “Não tem por que ele mudar o discurso que tem”.
Na semana passada, o candidato consolidou o apoio de Ronaldo Caiado (PSD), da Federação União Brasil/PP, do Novo e do Republicanos, partido do governador Cleitinho, eleito em primeiro turno.
Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest, também aponta a derrota de Lula nas grandes cidades como indicativo de um eleitorado que busca perspectivas de mudança, algo dificilmente captado por um incumbente que tenta a reeleição. “Isso está claramente associado a um tipo de eleitor de classe média trabalhadora que está frustrado, porque, diferente de quem recebe muitos benefícios sociais, esse ainda depende do Estado para os serviços públicos, mas não está vendo o seu poder de compra subir”, afirma Russo.
A esse desafio, soma-se a alta abstenção registrada em Minas. Mais de 3,7 milhões de pessoas deixaram de votar no estado, um índice de 22,81% — maior que a média nacional. Das dez cidades com os maiores índices, oito são mineiras, e as três primeiras colocadas estão no Alto Vale do Jequitinhonha, reduto historicamente petista.
“Não há dúvidas de que o PT vai tentar fazer muita força de mobilização na região metropolitana [para superar a abstenção], mas essa também é uma tarefa muito difícil”, explica Russo. “Esse eleitor já tem uma propensão a não ir à urna. Esse convencimento tem muitas etapas”.
Para a deputada estadual Leninha, presidente do PT em Minas Gerais, a disputa no estado continua aberta. “A principal tarefa agora é regionalizar e descentralizar ainda mais a campanha, fortalecendo a mobilização em todas as regiões do estado”, ela afirma, indicando a prevalência de dois públicos fundamentais a serem atingidos: aqueles que não votaram nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro no primeiro turno e os que se abstiveram do voto.
“Também estamos construindo estratégias para fortalecer nossa narrativa nas redes sociais, investindo esforços para uma maior capilaridade neste terreno tão relevante nestas eleições”, ela diz. Exemplo dessa investida é a presença de Ana Elisa (PT), segunda candidata a deputada federal mais votada em Minas, em reunião da equipe de comunicação do presidente.
Na outra ponta, o presidente estadual do PL, Zé Vitor, reeleito deputado federal no estado, também afirma que a estratégia é ampliar a mobilização entre eleitores que não votaram em primeiro turno e absorver aqueles que optaram por Zema, Caiado e Cury.
O partido também espera uma participação mais efetiva de Cleitinho nesta etapa do processo eleitoral, e conta com a mobilização dos bloquinhos puxados por Nikolas Ferreira em diferentes pontos do país.
Fonte: Brasil 247