Em 1946, a Argentina libertou 20 castores para criar uma indústria: 80 anos depois, mais de 200.000 barragens transformaram a Terra do Fogo

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Por Carlos Emanoel Freires dos Santos — Catraca Livre

Em 1946, apenas 20 castores canadenses foram introduzidos na Terra do Fogo com um objetivo econômico: formar uma população que pudesse abastecer uma futura indústria de peles. O negócio não prosperou, mas os animais encontraram alimento abundante, rios disponíveis e praticamente nenhum predador natural. O resultado apareceu décadas depois, quando pesquisadores contabilizaram mais de 200.000 diques espalhados pelo arquipélago.

Castores são considerados “engenheiros de ecossistemas” porque conseguem transformar fisicamente o ambiente onde vivem.

Por que a Argentina decidiu levar castores para a Terra do Fogo?

A introdução aconteceu em uma época em que trazer animais de outros continentes para exploração econômica era visto de maneira muito diferente da atual. Os 20 exemplares foram liberados nas proximidades do lago Fagnano com a intenção de estabelecer uma população silvestre capaz de sustentar a produção de peles.

Mas o projeto comercial teve pouco sucesso. Os castores permaneceram no ambiente e começaram a se reproduzir sem o controle natural encontrado na América do Norte, onde predadores como lobos e ursos fazem parte do ecossistema. Na Terra do Fogo, água, madeira e alimento estavam disponíveis em grande quantidade.

Como apenas 20 animais conseguiram ocupar uma região tão grande?

A expansão aconteceu ao longo de décadas. Os castores colonizaram rios, arroios e áreas úmidas da Ilha Grande da Terra do Fogo e depois avançaram para outras ilhas do arquipélago. Registros mostram que chegaram ao setor chileno ainda na década de 1960 e continuaram ampliando sua distribuição.

A combinação era quase perfeita para a espécie:

  • poucos predadores naturais;
  • grande quantidade de cursos de água;
  • abundância de árvores e arbustos;
  • capacidade de modificar o próprio habitat;
  • facilidade para ocupar novos vales e bacias.

Décadas após a introdução, estimativas oficiais já apontavam populações superiores a 100 mil animais e ocupação de aproximadamente 95% das bacias hidrográficas da Terra do Fogo.

De onde vêm as mais de 200.000 barragens encontradas no arquipélago?

Castores são considerados “engenheiros de ecossistemas” porque conseguem transformar fisicamente o ambiente onde vivem. Eles cortam árvores e acumulam troncos, galhos e lama para construir diques que diminuem a velocidade da água e criam áreas alagadas ao redor de suas tocas.

Um levantamento realizado por pesquisadores argentinos identificou mais de 200.000 diques de castores no arquipélago da Terra do Fogo. Essas estruturas estavam espalhadas por aproximadamente metade da região estudada, tanto no território argentino quanto no chileno.

O número não significa que existam 200 mil colônias ativas ao mesmo tempo. Muitos diques são antigos ou abandonados, mas permanecem na paisagem e continuam alterando cursos de água, solos e vegetação.

Castores são considerados “engenheiros de ecossistemas” porque conseguem transformar fisicamente o ambiente onde vivem.

O que essas barragens fizeram com as florestas da Terra do Fogo?

Na América do Norte, muitas espécies vegetais evoluíram convivendo com castores e conseguem se recuperar com maior facilidade depois de cortes e inundações. As florestas austrais da Terra do Fogo não tiveram essa mesma história evolutiva.

Árvores nativas como lenga, guindo e ñire podem morrer quando o solo permanece inundado durante longos períodos. Mesmo quando uma barragem é abandonada e a água recua, a regeneração da floresta pode ser extremamente lenta. Fontes oficiais argentinas estimam cerca de 30 mil hectares de floresta nativa afetados e destacam que algumas formações de lenga podem levar aproximadamente dois séculos para se recuperar.

Estudos também encontraram antigas áreas alagadas transformadas em campos abertos onde a regeneração natural das árvores continua limitada, mostrando que os efeitos podem persistir muito depois de os animais deixarem o local.

O experimento de 1946 virou um dos maiores exemplos de introdução de espécie invasora na região

O que começou com 20 castores trazidos para estimular uma indústria de peles acabou modificando rios, florestas e zonas úmidas de todo um arquipélago. Pesquisadores consideram o impacto da espécie uma das maiores transformações da paisagem das florestas subantárticas desde a última era glacial.

Hoje, Argentina e Chile trabalham com estratégias de controle e recuperação dos ambientes afetados. O episódio mostra como uma decisão aparentemente pequena pode produzir consequências ecológicas que atravessam gerações: 80 anos depois da liberação inicial, os diques ainda redesenham a paisagem da Terra do Fogo e deixam uma tarefa de restauração que pode durar muitas décadas.

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Fonte: Catraca Livre

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