Por Gustavo Tapioca — Brasil 247

A esta altura, ninguém pode alegar desconhecimento. 

Não depois de tudo o que aconteceu desde 2018. Não depois da pandemia, das ameaças às instituições, do 8 de janeiro de 2023, da tentativa de impedir a posse de Lula, do Plano Punhal Verde Amarelo que incluía o assassinato de Lula e Alkmin, das investigações, julgamentos e condenações e de tudo o que se tornou público sobre o projeto político da família Bolsonaro. 

E muito menos depois desta campanha presidencial. 

João Moreira Salles publicou na piauí um extraordinário ensaio intitulado “O que esses brasileiros sabem”. O título contém uma das perguntas mais incômodas desta eleição. 

Moreira Salles não observa essa elite de fora. Documentarista, escritor e fundador da revista piauí, é um dos herdeiros da família Moreira Salles, uma das grandes fortunas brasileiras. É filho do banqueiro e diplomata Walter Moreira Salles, que foi embaixador e ministro da Fazenda. Sua origem torna ainda mais significativa a pergunta que dirige aos muito ricos. 

É alguém vindo do andar de cima afirmando ao próprio andar de cima: vocês sabem com quem estão lidando. 

Talvez tenhamos passado tempo demais tentando entender os brasileiros que não sabem. 

Os que acreditam nas mentiras das redes sociais. Os que foram convencidos de que as urnas são fraudadas. Os que rezaram diante dos quartéis pedindo intervenção militar. Os que vivem dentro de um universo político em que fatos perderam importância. 

Moreira Salles olha para outros brasileiros. 

Os que sabem. 

Sabem quem foi Jair Bolsonaro. 

Sabem quem é Flávio Bolsonaro. 

Sabem o que aconteceu em 8 de janeiro de 2023. 

Sabem o que significou a homenagem de Jair Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi, no voto pelo impeachment de Dilma Rousseff. 

E sabem que Flávio não rompeu com esse legado. 

Ao contrário. 

Ele se apresenta como seu continuador. 

“Honrar meu pai e dar continuidade ao seu legado. O presidente Jair Messias Bolsonaro vai subir a rampa junto com a gente em janeiro do ano que vem” disse o próprio candidato.  

Então não existe espaço para a confortável fantasia de que Flávio Bolsonaro seria uma versão civilizada do bolsonarismo. 

Flávio é o candidato do legado. 

Eles têm nome 

O mérito adicional do ensaio de Moreira Salles é não deixar essa discussão no terreno abstrato. 

Ele dá nomes. 

Relaciona empresários, banqueiros, investidores e executivos que participaram de encontros e jantares com Flávio Bolsonaro — alguns como anfitriões: 

Flávio Rocha, Marcelo Kayath, André Esteves, Eduardo Bartolomeo, Eduardo Fischer, David Feffer, Roberto Campos Neto, Fernando Marques, Rubens Ometto, Emmanuel Hermann, Paulo Skaf, Luiz Carlos Trabuco, Fábio Barbosa, Alexandre Ostrowiecki, Mario Araripe, Milton Maluhy Filho, Helio Seibel, Christian Egan, Roberto Dagnoni, Pedro Parente, Daniel Goldberg, Fábio Ermírio de Moraes, Fabio Carvalho, Richard Gerdau, Gilson Finkelsztain, José Galló, Fernando Simões e João Camargo. 

É uma lista impressionante. 

Ali estão representantes do sistema financeiro, indústria, mineração, siderurgia, energia, infraestrutura, varejo, logística e mercado de capitais. 

Uma parcela poderosa do Brasil. 

Moreira Salles é cuidadoso. Não afirma que todos votarão em Flávio. Alguns estavam ali representando empresas e conselhos de administração. 

Pedro Parente, um dos nomes da lista, tornou pública uma demonstração importante dessa diferença: disse que não votará em Flávio Bolsonaro e que saiu do jantar com uma impressão do candidato pior do que tinha quando entrou. 

A ressalva é indispensável. 

Mas não elimina a pergunta central: 

O que significa transformar Flávio Bolsonaro num interlocutor normal da elite brasileira? 

Até onde se pode ir? 

Moreira Salles recupera uma questão moral fundamental: todo ser humano deveria saber onde está a fronteira que não aceita atravessar. 

Há coisas negociáveis na política. 

Impostos são negociáveis. Juros são discutíveis. Política fiscal é discutível. Tamanho do Estado é discutível. Privatizações são discutíveis. Reformas econômicas são discutíveis. 

Tortura não é. 

Golpe de Estado não é. 

Ditadura não é. 

Milícia não é. 

A destruição da democracia não pode entrar numa planilha de custos e benefícios. 

E é justamente aí que o artigo da piauí se torna devastador. 

Moreira Salles não está falando dos desinformados. 

Está falando de homens acostumados a analisar riscos antes de tomar decisões de milhões e bilhões de reais. 

Sabem ler balanços. 

Sabem avaliar empresas. 

Sabem investigar a vida de um sócio antes de colocar dinheiro num negócio. 

Sabem medir riscos políticos, cambiais, regulatórios e jurídicos. 

Fazem due diligence antes de uma aquisição. 

Examinam passivos ocultos. 

Investigam antecedentes. 

Calculam riscos. 

Por que dispensariam a mesma diligência quando o ativo em negociação é a Presidência da República? 

Eles sabem 

Sabem de Fabrício Queiroz. 

Sabem de Adriano da Nóbrega. 

Sabem que Flávio Bolsonaro homenageou Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio e propôs conceder-lhe a Medalha Tiradentes. 

Sabem que o próprio Flávio defendeu publicamente a legalização das milícias. 

Sabem das rachadinhas e das investigações que atravessaram sua trajetória. 

Sabem o que significa o Dark Horse. 

Sabem que o 8 de Janeiro não caiu do céu. 

Sabem das tentativas de desacreditar as urnas. 

Sabem que Flávio chamou de “crime impossível” a tentativa de golpe do 8 de Janeiro. 

E sabem que ele pretende chegar ao Planalto carregando consigo o pai que diz querer honrar. 

O problema começa antes do voto. 

Começa quando aquilo que deveria provocar repulsa passa a ser tratado como apenas mais uma alternativa política. 

Recebem-no. 

Ouvem-no. 

Jantam com ele. 

Perguntam sobre déficit fiscal. 

Querem saber o que fará com impostos, gastos públicos, privatizações e investimentos. 

Tudo muito civilizado. 

Tudo muito racional. 

Tudo muito normal. 

E é justamente essa normalidade que deveria nos escandalizar. 

Quanto vale a democracia? 

Há uma pergunta inevitável nesses encontros. 

Qual é o preço da democracia? 

Quantos pontos percentuais de déficit fiscal justificam esquecer Ustra? 

Quanto precisa cair o gasto público para que uma tentativa de golpe deixe de importar? 

Qual reforma econômica compensa a convivência histórica com personagens ligados às milícias? 

Quanto vale a promessa de reduzir impostos diante de um candidato que se apresenta como continuador do pai? 

Essa conta não deveria existir. 

Mas existe. 

Moreira Salles chama atenção para algo revelador. O vocabulário dessa parcela da elite econômica é conhecido: privatizações, redução da carga tributária, flexibilização regulatória, corte de gastos e redução da máquina pública. 

Nada disso é ilegítimo. 

Tudo isso pode e deve ser discutido numa democracia. 

O que não pode ser naturalizado é outra coisa: 

trocar princípios democráticos por uma política econômica conveniente. 

Foi assim que setores das elites brasileiras ajudaram a normalizar Jair Bolsonaro em 2018. 

Primeiro disseram que as instituições o conteriam. 

Depois, que ele amadureceria no cargo. 

Depois, que suas ameaças eram apenas retórica. 

Até descobrirem que o homem que durante décadas exaltou a ditadura realmente não gostava da democracia. 

Agora não existe sequer essa desculpa. 

Flávio não caiu do céu 

Flávio Bolsonaro não apareceu subitamente na política brasileira em 2026. 

Sua história está diante de todos. 

Mais importante ainda: ele próprio não pede que esqueçamos de onde veio. 

Faz exatamente o contrário. 

Apresenta-se como filho. 

Herdeiro. 

Continuador. 

Moreira Salles o resume numa frase demolidora: 

“Menos um político que um sobrenome.” 

É o sobrenome que lhe deu a candidatura. 

É o sobrenome que lhe deu os votos. 

É o sobrenome que o levou à disputa pela Presidência. 

Ele quer herdar a força eleitoral de Jair Bolsonaro e promete honrar seu legado. 

Não pode, portanto, exigir que o Brasil esqueça o significado político dessa herança. 

É com o pai que estão conversando 

Moreira Salles reserva uma advertência especialmente dura para aqueles que dizem rejeitar Jair, mas aceitam conversar com Flávio. 

Sua conclusão é simples: 

“É com o pai que estão conversando.” 

Essa talvez seja a frase que melhor destrói a ficção do Flávio moderado. 

O pai não está fora da candidatura. 

Está dentro dela. 

Flávio prometeu subir a rampa com Jair Bolsonaro. 

Promete libertá-lo. 

Promete anistiar. 

Promete continuar seu legado. 

O filho não esconde o pai. 

Exibe-o como certificado de origem. 

Ninguém poderá dizer que não sabia 

Em 2018, ainda havia quem dissesse não saber o que aconteceria. 

Depois aconteceu. 

O Brasil viu. 

Viu um presidente atacar sistematicamente as instituições. 

Viu a urna eletrônica ser transformada em alvo de uma campanha destinada a desacreditar antecipadamente uma eventual derrota. 

Viu a tentativa de impedir a posse do vencedor. 

Viu o 8 de Janeiro. 

Viu a democracia brasileira chegar perigosamente perto do abismo. 

Agora estamos novamente diante de um Bolsonaro. 

Só que desta vez não existe o benefício da dúvida. 

Não há salto no escuro. 

Não há surpresa possível. 

Há experiência. 

Há documentos. 

Há fatos. 

Há história. 

Há memória. 

E há nomes. 

João Moreira Salles colocou diante do Brasil uma pergunta muito mais perturbadora do que “quem é Flávio Bolsonaro?”. 

O que esses brasileiros sabem? 

Eles sabem. 

Os banqueiros sabem. 

Os empresários sabem. 

Os investidores sabem. 

Os jornalistas sabem. 

Os políticos sabem. 

Nós sabemos. 

Em 4 de outubro de 2026, quando cada eleitor estiver sozinho diante da urna, não estará escolhendo apenas entre dois candidatos. 

Estará decidindo também o que fazer diante daquilo que sabe. 

Depois de tudo o que o Brasil viveu, ninguém poderá dizer: 

“Eu não sabia.” 

Sabia. 

E escolheu assim mesmo. 

Fonte: Brasil 247

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