Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Para quem conhece a conjuntura das big techs, o surpreendente seria se a empresa de Mark Zuckerberg não interviesse na política brasileira

Nos últimos dias, se avolumaram denúncias de usuários do ­Instagram sobre conteúdos removidos, perfis banidos, visualizações congeladas, alcance reduzido. Todas estas vinham de contas de esquerda, enquanto no caso de contas de direita o contrário era observado: números de visualizações estratosféricos, sugestão automática de perfis, pouca moderação. O caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral após uma denúncia formal da campanha do presidente Lula, que alega interferência da Meta – também dona do Facebook e do WhatsApp – no processo eleitoral brasileiro. Muitos ainda têm dúvida sobre essa acusação: por que a empresa arriscaria sua credibilidade fazendo isso? Outros sugerem que tal interferência seria “fácil” de comprovar: afinal, “é só” olhar os metadados da plataforma. Já para quem conhece essas empresas e a conjuntura em que se encontram, o surpreendente seria se a Meta não interviesse nas eleições brasileiras.

Em primeiro lugar, isso já havia sido anunciado. Logo após a eleição de Trump para um segundo mandato, o dono da ­Meta, Mark Zuckerberg, anunciou uma “nova era” para a empresa que refletisse o novo espírito do tempo. Hoje, a convergência política de praticamente todas as grandes plataformas com a extrema-direita norte-americana é explícita, e isso se expressa, inclusive, na radicalização pessoal dos seus fundadores, como Elon Musk e ­Zuckerberg. Esses homens não veem valor na democracia: conduzem suas empresas de forma verticalizada e têm sobre elas a última palavra. Zuckerberg, por exemplo, tem uma peculiar obsessão “cesarista” com a figura do imperador romano: corta seu cabelo nesses estilos, passou a lua de mel em Roma, nomeou suas três filhas de Maxima, Aurelia e Augusta.

Em segundo lugar, a Meta faria isso porque ela pode. Plataformas são “caixas-pretas” sob soberania privada de empresas estrangeiras e seus dados e procedimentos são, na prática, inacessíveis e inauditáveis ao Poder Público. Ainda que o TSE não fosse liderado por dois ministros bolsonaristas, a Justiça Eleitoral brasileira pode fazer muito pouco, pois não dispõe de mecanismos para identificar, quiçá punir, uma eventual interferência oculta no nível dos algoritmos.

Finalmente, a Meta e outras big techs fariam isso por uma questão de sobrevivência: é existencial para elas. As plataformas hoje dominantes nos EUA se consolidaram após a bolha dotcom de 2001, expandindo seus domínios de forma praticamente ilimitada: sem serem reguladas, pagando pouquíssimos impostos, engajando em práticas anticoncorrenciais, recebendo de mão beijada mercados consumidores bilionários no Sul Global, como Índia e Brasil, por meio de pacotes de dados grátis para seus aplicativos – ferindo, inclusive, o princípio da neutralidade de rede previsto no Marco Civil da Internet.

Isso significa que essas empresas não conseguem sobreviver de outra forma e hoje, após quase 30 anos, elas se deparam com obstáculos inéditos a esse modelo de crescimento. Estes são, por um lado, materiais: a perspectiva de escassez de recursos naturais na medida em que a indústria acelera na corrida pelas IAs. Por outro lado, pela primeira vez na sua história, elas se veem diante de um concorrente à altura: a China. Esses fundadores e CEOs se veem, portanto, sob ameaça existencial, e sua reação a essa conjuntura é a radicalização. Eles têm pouco a perder e muito a ganhar redefinindo o jogo político na América Latina.

A solução preconizada por Trump para salvar o agonizante império global norte-americano diante da ascensão tecnológica e comercial chinesa também resolve o problema das big techs: reposicionar os EUA como hegemon hemisférico voltado às Américas, desde a Groenlândia até as Ilhas Malvinas. Trump e seus aliados poderiam, assim, sobreviver expandindo seu espaço vital – ou Lebensraum, termo usado pelo regime nazifascista alemão para justificar a invasão da Polônia, Áustria e outros territórios durante a Segunda Guerra Mundial.

Com o controle político sobre esses novos territórios, poderão extrair deles tudo o que precisam para dar sobrevida a um modelo em vias de esgotamento: terra, água, minério, energia, trabalho. Os data centers e a extração de terras-raras são uma metonímia para esse parasitismo que nos vê, como todo sujeito colonial, como recursos a serem explorados sem terem que se responsabilizar pelas externalidades produzidas. Hoje, restam de pé poucas barreiras para consumar esse plano: a conquista do Brasil promete ser o ponto de virada de que tanto precisam e para o qual a intervenção algorítmica numa eleição é um preço mínimo a pagar. •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Eleição na mira da Meta’


Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de ‘O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital’

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Fonte: Carta Capital

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