E salve-nos, Fábio Porchat
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
Quando um comediante precisa fazer o trabalho que a mídia e a esquerda institucional deixaram de fazer
Uma coisa me ocorreu sobre o resultado fenomenal do vídeo de Fábio Porchat que desvelou as relações íntimas entre Daniel Vorcaro e uma plêiade de figuras que transitam pela política nacional e por setores das igrejas evangélicas, às vezes juntos, outras vezes separados. Em pouco mais de meia hora, Porchat conseguiu transformar uma trama complexa, envolvendo relações financeiras, políticas, empresariais e religiosas, em uma narrativa compreensível para milhões de pessoas. O alcance do episódio não foi apenas resultado da dimensão das revelações, mas também da capacidade de comunicação de Porchat, que soube apresentar a teia de relações e, principalmente, mostrar como ela foi sendo construída ao longo do tempo. Crédito, portanto, a Porchat e à equipe que preparou o material investigativo que ele magistralmente soube traduzir para um público muito mais amplo.
Mas o sucesso de Porchat também revela algo muito mais incômodo: o fracasso não apenas da mídia corporativa brasileira, mas também do PT e de seus aliados, que vêm sendo progressivamente engolidos pela máquina de comunicação do bolsonarismo, a ponto de essa máquina conseguir dar sobrevida eleitoral a um candidato cercado por relações e episódios que, no mínimo, exigem explicações. O fenômeno Porchat expõe, assim, um vazio que não deveria existir. Quando um comediante consegue organizar e comunicar em poucas horas aquilo que uma parcela importante da imprensa não conseguiu — ou não quis — transformar em informação acessível para a maioria da população, há alguma coisa profundamente errada no funcionamento da comunicação política brasileira.
A posição da mídia corporativa pode ser explicada, em boa medida, pelos interesses que se entrelaçam com aqueles que agora foram deixados nus em praça pública pelo trabalho de Porchat, incluindo figuras centrais do bolsonarismo como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. O problema do PT, entretanto, é de outra natureza e talvez seja ainda mais profundo. O partido tem nas mãos a máquina federal e dispõe de ferramentas poderosas de comunicação, mas parece incapaz de utilizá-las para disputar de maneira consequente a narrativa política do país. E aqui não quero colocar a culpa apenas na incompetência das equipes de campanha de Lula ou nos dirigentes partidários que controlam cuidadosamente aquilo que pode ou não ser dito pelo presidente e pelos demais candidatos do partido. O problema, a meu ver, é mais estrutural: o PT se tornou também parte da irmandade que Porchat revelou, ainda que quase sempre na condição desconfortável de penetra.
É justamente por isso que é tão duro admitir que um comediante possa estar fazendo aquilo que a esquerda institucional e boa parte do jornalismo brasileiro deveriam ter feito há muito tempo. E digo isso sendo fã de Porchat desde muito antes do vídeo arrasador que agora está remexendo as placas tectônicas da campanha eleitoral de 2026. O problema, portanto, não é Porchat ocupar esse espaço. Pelo contrário. O problema é que tenha sido necessário um comediante ocupá-lo. Isso diz muito sobre a falência do projeto de esquerda capitaneado pelo PT e sobre a incapacidade de seus dirigentes de compreender que, na política contemporânea, não basta administrar o Estado: é preciso disputar a produção de sentidos, desmontar narrativas adversárias e falar com a sociedade em uma linguagem que ela efetivamente consiga ouvir.
O mais irônico é que o vídeo de Porchat demonstra que ainda existe uma enorme demanda por informação política capaz de conectar os pontos, revelar as relações e explicar aquilo que a avalanche cotidiana de notícias costuma fragmentar. A resposta do público foi gigantesca. O episódio chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube em menos de 24 horas e seus cortes passaram a circular massivamente pelas redes sociais. Não se trata, portanto, de uma sociedade desinteressada pela política. Trata-se de uma sociedade que está sendo mal informada, mal atendida e, sobretudo, abandonada por aqueles que deveriam disputar esse espaço.
Por isso, mesmo reconhecendo a contribuição extraordinária de Porchat, é difícil não enxergar a ironia — e até a tragédia — de que um comediante tenha se transformado em um dos mais eficientes tradutores de uma trama política que envolve banqueiros, igrejas, empresários e candidatos à Presidência da República. Se um vídeo de humor precisa fazer o trabalho que partidos, governos e veículos de comunicação deveriam estar fazendo, talvez o problema não esteja apenas no bolsonarismo. Talvez esteja também em quem permitiu que o bolsonarismo ocupasse praticamente sozinho o terreno da comunicação política.
E é justamente aí que a questão deixa de ser apenas eleitoral. Mesmo que Lula vença as eleições, teremos de reconhecer que as perspectivas para a classe trabalhadora brasileira continuarão sendo obscuras se o projeto político que se apresenta como alternativa à direita continuar incapaz de enfrentar os mecanismos econômicos, midiáticos e políticos que produzem e reproduzem esse poder. Ganhar uma eleição não é o mesmo que recuperar a capacidade de disputar a sociedade. E administrar o governo tampouco significa reconstruir um projeto de transformação social.
Assim, resta reconhecer o que talvez seja a parte mais desconcertante de toda essa história: em uma campanha eleitoral na qual bilhões de reais, enormes estruturas partidárias, máquinas governamentais e exércitos de profissionais da comunicação estão mobilizados, foi um comediante quem conseguiu abrir uma fresta na cortina e mostrar ao público algumas das conexões que estavam sendo cuidadosamente embaralhadas.
E salve-nos, Fábio Porchat!
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
