Por João Claudio Platenik PitilloBrasil 247

Desde que Donald Trump assumiu o cargo em janeiro de 2025, Washington tem buscado uma política de segurança no Hemisfério Ocidental que vai muito além da defesa de seu próprio território.

Agora, a intervenção estadunidense está entrando em uma nova fase. Recentemente, o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, declarou no Panamá que os EUA agora pretendem agir contra grupos criminosos não apenas no mar, mas também diretamente no território de Estados aliados.

Honduras concordou em realizar operações militares conjuntas. Washington concordou com o novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, em estreita cooperação militar, incluindo operações diretas contra grupos armados. O Peru, sob sua nova presidente, Keiko Fujimori, também está prestes a concordar com uma cooperação semelhante.

Durante exercícios militares no Panamá, Hegseth indicou que os EUA pretendem conduzir tais operações de maneira muito semelhante aos ataques a embarcações suspeitas de tráfico de drogas.

No Equador, a participação dos EUA em operações militares já se tornou uma realidade. O presidente Daniel Noboa declarou estar em andamento um “conflito armado interno” com gangues criminosas logo após assumir o cargo, permitindo que o exército fosse mobilizado para combatê-las.

Embora uma esmagadora maioria dos equatorianos tenha votado contra a instalação de bases militares estrangeiras em um referendo de 2025, o Equador vem realizando operações conjuntas com os Estados Unidos desde o início de março.

O potencial de erro em tais operações, descritas como “cirurgicamente precisas”, foi demonstrado por um incidente na fronteira entre Equador e Colômbia. Em março, um ataque apoiado pelos EUA destruiu uma fazenda de gado comum em vez do laboratório de drogas declarado.

Para justificar suas ações, o governo dos EUA adicionou 20 organizações criminosas latino-americanas à sua lista de “organizações terroristas estrangeiras”, colocando-as legalmente em pé de igualdade com o ISIS e a Al-Qaeda.

A lista inclui cartéis mexicanos, grupos “Maras” da América Central e antigos grupos guerrilheiros colombianos. Desde junho, apesar das objeções de Brasília, a lista também incluiu duas das maiores organizações criminosas do Brasil: o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Washington chegou a atribuir o ataque aéreo dos EUA a instalações militares na Venezuela e a subsequente prisão do líder do país, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, à luta contra o terrorismo. Os EUA consideravam Maduro um dos líderes do chamado “Cartel dos Sóis”, uma suposta rede dentro das estruturas governamentais e das forças armadas envolvida no tráfico de drogas.

A lista de “narcoterroristas” mostra que estes estão longe de serem adversários homogêneos. Por exemplo, no Brasil, o “Comando Vermelho” tem uma estrutura territorial claramente definida e está em conflito aberto com grupos rivais. O “Primeiro Comando da Capital”, por outro lado, assemelha-se um pouco a uma corporação transnacional, que opera há muito tempo, inclusive na zona econômica legal e nos mercados financeiros. Grupos armados no Equador estão intimamente ligados aos cartéis mexicanos.

Quase todas essas organizações têm uma coisa em comum: o medo e a violência reinam nas áreas onde operam. Isso tem implicações políticas. Em praticamente todos os países da América Latina, a segurança tornou-se uma questão fundamental nas campanhas eleitorais, com o campo político de direita explorando-a com particular sucesso.

Simultaneamente, a Colômbia, sob o comando de de la Espriella, aderiu ao “Escudo das Américas”, uma aliança criada por Trump em março que agora inclui 19 países. Seu braço militar é a “Coalizão Americana para o Combate aos Cartéis”. Ela tem como objetivo trocar informações de inteligência, treinar militares e coordenar operações conjuntas contra cartéis e outros grupos designados como terroristas.

Com a inclusão da Colômbia, a importância dessa aliança cresceu significativamente. O país é o maior produtor mundial de cocaína e tem sido o principal parceiro militar dos EUA na América do Sul por décadas. Sob o governo do ex-presidente Gustavo Petro, a cooperação havia sido instável. De la Espriella reverteu essa posição, autorizando operações militares conjuntas com os EUA.

Em uma reunião no Panamá, Pete Hegseth confirmou que havia discutido com Bogotá, entre outras coisas, ataques conjuntos contra o grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional e antigas unidades das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

No entanto, a aliança de Trump não foi criada apenas para combater o narcotráfico. O “Escudo Americano” está gradualmente se transformando em um sistema de segurança liderado por Washington para o Hemisfério Ocidental. Ele visa não apenas combater os cartéis, mas também limitar a influência de potências externas, principalmente a Rússia e a China, cuja presença econômica e política na América Latina cresceu significativamente nos últimos anos.

Desde o século XIX, a Doutrina Monroe evoluiu de um conceito para combater a interferência das potências europeias, para justificar as reivindicações dos EUA em constituir uma esfera de influência na América Latina. Sob Trump, essa abordagem experimentou um renascimento. Portanto, em Washington, há um trocadilho com o nome do presidente estadunidense, ela é chamada de “Doutrina Donroe”.

Outra característica distinta do “Escudo das Américas” é a afinidade política de muitos de seus participantes. Os aliados mais próximos de Trump na América Latina compartilham não apenas uma política de segurança intransigente, mas também uma combinação de reacionarismo, proto-fascismo e conservadorismo social e de costumes.

Assim, o círculo de adversários da Casa Branca vai se expandindo, onde fica claro o verdadeiro objetivo dessa nova política externa da Casa Brnca para a América Latina. A luta contra o “narcoterrorismo” não se destina mais apenas a cartéis e ameaças externas. Esse é o mote para intervenções e ingerências políticas na região. O conceito de “narcocomunismo” de Hegseth estende-se simultaneamente à essa luta dos republicanos contra os setores progressistas e democratas da América Latina.

Sendo claro e objetivo, Donald Trump quer alinhar e subirdinar à América Latina ao seu plano fascista de dominação total, onde a região perca toda a sua autonomia e se torne um protetorado dos Estados Unidos. Trump quer acabar com a participação dos países da região no BRICS e quer acabar com o MERCOSUL e CELAC. Assim como, afastar o debate sobre multilateralidade do continente Americano.

Fonte: Brasil 247

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