Donald Trump diante do Brasil: o predador que precisa olhar para a própria armadilha
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
A possibilidade de Donald Trump tentar interferir politicamente nas eleições presidenciais brasileiras de 2026 não pode ser simplesmente descartada. Documentos recentemente revelados mostraram que o governo norte-americano chegou a incluir, nas negociações realizadas com Brasília em 2025, exigências relacionadas às condições de participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. Ao mesmo tempo, Lula já advertiu publicamente Trump para que não interfira no processo eleitoral brasileiro. Há, portanto, razões concretas para acompanhar com atenção os movimentos de Washington.
Isso, entretanto, é diferente de afirmar que Donald Trump já decidiu não reconhecer uma eventual vitória de Lula. Até agora, não encontrei declaração pública que sustente essa afirmação. Pelo contrário, uma fonte do Departamento de Estado afirmou à CNN Brasil, em agosto, que os Estados Unidos respeitariam a escolha dos brasileiros em eleições consideradas livres e justas. O problema, portanto, não é antecipar uma ruptura que ainda não ocorreu, mas perguntar quanto espaço político Trump realmente terá para pressionar o Brasil caso Lula seja reeleito.
É nesse ponto que as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos entram na equação. Existe uma coincidência cronológica particularmente interessante: o primeiro turno brasileiro ocorrerá em 4 de outubro e o eventual segundo turno em 25 de outubro, enquanto os norte-americanos irão às urnas em 3 de novembro. Ou seja, quando o Brasil escolher seu presidente, Trump ainda não conhecerá o tamanho da bancada republicana que terá durante os dois últimos anos de seu mandato.
E os sinais disponíveis neste momento são desconfortáveis para a Casa Branca. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em setembro encontrou apenas 35% de aprovação ao desempenho de Trump e uma vantagem democrata de sete pontos — 44% contra 37% — na preferência nacional para o Congresso. A média do Silver Bulletin apontava vantagem democrata de 7,5 pontos em 18 de setembro. Outra pesquisa Economist/YouGov encontrou 51% dos eleitores considerados prováveis votantes inclinados aos democratas e 39% aos republicanos.
Esses números não significam que uma derrota republicana esteja determinada. Pesquisas nacionais de voto genérico não reproduzem automaticamente as disputas realizadas distrito por distrito para a Câmara e estado por estado para o Senado. A própria Reuters chama atenção para essa limitação. Além disso, os republicanos partem atualmente do controle das duas Casas: são 218 republicanos contra 214 democratas e um independente na Câmara, enquanto no Senado a composição é de 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes.
Mas justamente aí aparece o problema político de Donald Trump. A margem republicana na Câmara é estreita, enquanto o próprio presidente apresenta índices baixos de aprovação. Uma perda do controle de uma das Casas — ou das duas — alteraria profundamente as condições políticas dos dois últimos anos de sua presidência. O Congresso não controla sozinho a política externa norte-americana, e Trump continuaria dispondo de instrumentos presidenciais relevantes. Mas uma administração pressionada internamente teria de dividir atenção e capital político entre disputas domésticas, orçamento, investigações parlamentares, nomeações, política econômica e suas ambições internacionais. Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente se Trump tentará interferir na eleição brasileira. A pergunta é em que condições políticas ele poderá fazê-lo.
Há ainda uma ironia temporal. Se Lula vencer em outubro, qualquer reação de Trump ocorrerá poucos dias antes de os próprios norte-americanos julgarem, nas urnas, os primeiros dois anos de seu segundo mandato. Trump poderia tentar projetar poder sobre Brasília justamente quando estaria enfrentando um teste decisivo de seu poder dentro dos Estados Unidos. Isso modifica a imagem convencional de um presidente norte-americano todo-poderoso determinando unilateralmente os rumos políticos da América Latina. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência do hemisfério e a Presidência norte-americana dispõe de instrumentos diplomáticos, comerciais e financeiros capazes de produzir custos reais para o Brasil. Seria um erro minimizar essa capacidade.
Mas também seria um erro analisar Trump como se ele atuasse num vazio político. Sua capacidade de pressionar o Brasil dependerá da economia norte-americana, de sua aprovação popular, da coesão do Partido Republicano e, sobretudo, da composição do Congresso que emergirá das urnas de novembro. É justamente aí que a metáfora do predador começa a ficar mais complicada. Trump pode tentar mostrar os dentes para o Brasil em outubro, mas terá de fazê-lo olhando constantemente por cima do ombro para as urnas que estarão esperando por ele nos Estados Unidos apenas alguns dias depois.
Talvez, portanto, a imagem mais adequada para outubro de 2026 não seja simplesmente a de Trump como predador ou como presa. É a de um presidente que ainda dispõe de enorme poder institucional, mas que tenta projetá-lo para fora enquanto enfrenta uma crescente contestação política dentro de casa. E isso pode fazer toda a diferença na quantidade de força que Washington conseguirá efetivamente mobilizar contra Brasília.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
