Documentário mergulha na odisseia criativa de Tolkien

0

Por Tiago SouzaCarta Capital

Menu

Produção de Érico Borgo investiga como vivências pessoais, memória e pesquisa moldaram o vasto universo criado pelo escritor britânico

Imagine passar 57 anos criando, revisando e ampliando um único universo. Para muitos artistas, o grande feito pode estar em fazer com que uma obra conquiste uma legião de fãs. No caso de John Ronald Reuel Tolkien, mais conhecido como J. R. R. Tolkien, a motivação parece ser outra.

O documentário Uma Odisseia Criativa: Em busca de Tolkien, produzido e apresentado por Érico Borgo, um dos criadores do site Omelete e da CCXP, com direção de Laís Almeida, procura compreender a gênese do universo conhecido como Legendário, que abrange muito mais do que O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

O documentário não é exatamente sobre a vida do famoso escritor. Como Borgo afirma, é necessário situá-lo historicamente para compreender as influências que moldaram sua criação, mas a proposta vai além. O filme é, sobretudo, uma investigação sobre a criatividade: de onde surge, como se desenvolve e de que maneira pode transformar a vida de quem cria.

Para leigos, o Legendário engloba a totalidade da criação de Tolkien e reúne lendas, contos, poemas, mapas e línguas presentes na Terra-Média e no mundo de Arda, muito além das duas obras mais conhecidas. Com exceção delas e de alguns outros trabalhos, coube ao filho, Christopher, editar e organizar esse vasto material após a morte do pai, dando origem a publicações como O Silmarillion e A História da Terra-Média.

Mais do que uma biografia

Para Borgo, criatividade não se resume a um ato artístico. Também envolve criar possibilidades diante de uma pergunta, necessidade, desejo ou problema. Logo, planejar a própria vida, encontrar alternativas, resolver questões e mudar caminhos também fazem parte das explorações criativas.

É desse ponto que a obra parte. Embora seja sobre Tolkien, o documentário também é, em alguma medida, sobre Borgo e seus rumos profissionais, numa tentativa de aproximar o espectador da experiência de uma mudança de vida. O resultado é uma produção feita por um fã que entrega muito mais do que o service esperado.

As gravações realizadas diretamente na Inglaterra ajudam a situar o espectador. Em determinado momento, Borgo comenta que Tolkien provavelmente odiaria a decisão do diretor Peter Jackson de levar as filmagens da trilogia cinematográfica de O Senhor dos Anéis, responsável por formar boa parte da legião de fãs do escritor, para a Nova Zelândia.

Como aponta o apresentador, a verdadeira Terra-Média existe e ainda vive na Inglaterra. Tudo ali respira e remete ao mundo imaginário dos Hobbits, Anães e Orques. Até as árvores antigas parecem evocar Barbárvore.

Ao longo do documentário, acompanhamos a viagem do trio formado por Borgo, Laís e o câmera Denis Arrepol pelas estradas percorridas décadas antes pelo escritor. O objetivo é compreender a influência exercida sobre sua obra por cada uma das regiões onde Tolkien morou ou esteve.

A jornada começa em sua terra natal, a África do Sul, passa pela infância em Birmingham, já na Inglaterra, pelos estudos em Oxford e pelo pesadelo das trincheiras do Somme, na França, durante a Primeira Guerra Mundial, até chegar ao retorno à academia, como professor. Também entram em cena as amizades, em especial a que manteve com o escritor C. S. Lewis, famoso criador de As Crônicas de Nárnia.

Pelos caminhos de Tolkien

No entanto, ao apreciar o filme, percebe-se que os caminhos criativos de Tolkien foram muito além dos lugares onde viveu e esteve. Suas anotações e cartas mostram que tudo ao seu redor contribuía para alimentar a imaginação. Um trecho do livro lançado em conjunto com o documentário pela HarperCollins resume essa relação:

“Para as pessoas comuns, palavras eram apenas palavras. Para Tolkien, porém, escondiam significados e, quando dissecadas, podiam servir como verdadeiros portais para a imaginação.”

O escritor gastava horas refletindo sobre nomes de ruas e relevos — algo impensável no acelerado mundo de hoje, dominado por algoritmos e redes sociais. Amante de lendas antigas, buscava nelas grande parte de sua inspiração. A primeira linha de O Hobbit, inclusive, surgiu enquanto ele corrigia provas.

“A reflexão o ajudava a pensar histórias. A ficção vinha das perguntas sobre os lugares, costurando o mundo ao redor, sobre o qual buscava respostas, às suas inspirações e influências. Tolkien observava, refletia, pesquisava e transformava”.

Criatividade também é linguagem

O documentário segue uma estrutura já conhecida por quem acompanha produções do gênero: apresenta o tema, conduz o espectador por uma jornada e encerra com a morte do biografado. Contudo, a bagagem da equipe, construída ao longo de anos no YouTube, traz um toque de frescor a essa fórmula.

Enquanto busca humanizar o biografado, o filme não deixa de lado os próprios realizadores. As quebras narrativas — provocadas tanto por decisões de filmagem quanto pela intervenção inesperada de uma fã brasileira de Borgo passeando pela Inglaterra — não atrapalham a história. Em alguns momentos, dão leveza ao relato. Em outros, ajudam a recuperar a atenção dos espectadores mais distraídos.

Além disso, ficam claras as decisões criativas tomadas durante a produção do documentário. Destaca-se o uso de mecanismos manuais para apresentar a história, como uma pasta de anotações de pesquisa, ilustrações e fotografias antigas. Há algo de especialmente interessante nisso: um filme sobre a inventividade de Tolkien utiliza seus próprios recursos narrativos para contar essa trajetória.

É um claro exemplo de como o gênio do autor conseguiu ir além do Legendário, inspirando Borgo, Laís e os demais integrantes da equipe a explorarem suas próprias possibilidades diante das limitações impostas pela produção.

O resultado é uma verdadeira odisseia criativa: um documentário sobre descobertas e sobre uma figura realmente instigante, que fez a imaginação transbordar para além das páginas. Mais do que investigar onde Tolkien encontrou suas histórias, o filme procura mostrar como ele transformava o mundo ao redor em matéria-prima para criar.

UMA ODISSEIA CRIATIVA:
EM BUSCA DE TOLKIEN
Gênero: Documentário
Direção: Laís Almeida
Produção: Érico Borgo
Duração: 82 minutos


Tiago Souza

Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos cobrindo o mercado de HQs, livros, séries e cinema. Dedica-se a analisar os cruzamentos entre cultura pop, comportamento e a indústria do entretenimento

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.


Desenvolvido por OKN Technology Agency

Fonte: Carta Capital

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *