DNIT cancela obra de dragagem no Tapajós, o que pode causar prejuízo de R$ 850 milhões e fortes danos ambientais
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) cancelou a licitação de R$ 74,8 milhões destinada à dragagem de manutenção do rio Tapajós, no Pará, aumentando a preocupação do setor produtivo com os efeitos de uma eventual seca severa sobre um dos principais corredores logísticos do país. A decisão ocorre depois de meses de discussões envolvendo o governo federal, representantes empresariais, Ministério Público Federal, organizações socioambientais e comunidades indígenas.
Segundo estimativas apresentadas por entidades do setor produtivo, a ausência da dragagem poderá provocar prejuízos de até R$ 850 milhões, comprometer o escoamento de até 5 milhões de toneladas de soja e milho e gerar impactos ambientais adicionais, uma vez que parte das cargas teria de ser transferida das barcaças para caminhões.
A principal consequência ambiental apontada pelas entidades seria o aumento de aproximadamente 55 mil toneladas nas emissões de dióxido de carbono. A substituição do transporte hidroviário pelo rodoviário também ampliaria o fluxo de caminhões nas estradas, elevaria o consumo de combustíveis e aumentaria os custos logísticos.
Tapajós é uma artéria do Arco Norte
A hidrovia do Tapajós tornou-se uma das principais rotas do chamado Arco Norte e desempenha papel estratégico no transporte da produção agrícola do Centro-Oeste até os terminais portuários da região amazônica.
Em 2025, o Tapajós movimentou 16,8 milhões de toneladas de cargas, crescimento de 14,3% em relação ao ano anterior. Aproximadamente 88% desse volume foi composto por soja e milho. Somente nos dois primeiros meses de 2026, 2,04 milhões de toneladas desses dois produtos passaram pela hidrovia.
O crescimento da rota ajudou a criar uma alternativa logística para a produção do Centro-Oeste, reduzindo a dependência dos corredores que levam aos portos do Sul e do Sudeste.
Uma interrupção da navegação por três ou quatro meses poderia impedir o transporte de 3,1 milhões a 5 milhões de toneladas de grãos. O prejuízo estimado varia de R$ 510 milhões a R$ 850 milhões, enquanto a utilização de rotas alternativas poderia acrescentar entre R$ 150 e R$ 250 por tonelada aos custos logísticos.
Transferência para rodovias aumentaria emissões
O impacto potencial não seria apenas econômico. A transferência das cargas para caminhões poderia provocar aumento de cerca de 55 mil toneladas nas emissões de CO₂.
O transporte hidroviário permite movimentar grandes volumes com número relativamente reduzido de embarcações. Segundo dados divulgados pela MoveInfra, um comboio de 35 barcaças pode transportar aproximadamente 70 mil toneladas de grãos, volume equivalente ao levado por cerca de 1.700 caminhões.
A eventual perda de capacidade do Tapajós, portanto, aumentaria a pressão sobre as rodovias, particularmente a BR-163 e a BR-230, além de elevar custos, emissões e riscos associados ao transporte terrestre.
El Niño aumenta preocupação com a seca
Outro fator de preocupação é o risco de uma estiagem severa na Amazônia. Dados e avaliações utilizados pelo governo e pelo setor produtivo apontaram semelhanças entre o comportamento hidrológico observado em 2026 e o período anterior à seca extrema de 2023 e 2024.
A possibilidade de fortalecimento do El Niño ao longo de 2026 e 2027 aumenta o temor de que o nível do Tapajós recue a ponto de restringir a passagem das barcaças justamente durante o período de escoamento da safra.
Por essa razão, representantes do setor defendiam que a dragagem fosse realizada antes da fase mais crítica da estiagem.
Dragagem de manutenção virou centro de controvérsia
O projeto previa a retirada de sedimentos acumulados em pontos críticos entre Itaituba e Santarém. O DNIT define esse tipo de intervenção como dragagem de manutenção, destinada a recuperar condições de navegabilidade afetadas pelo assoreamento.
A operação, entretanto, passou a enfrentar resistência de lideranças indígenas e organizações socioambientais, que manifestaram preocupação com possíveis alterações no rio e impactos sobre comunidades e ecossistemas locais.
O Tribunal de Contas da União condicionou a retomada da licitação à obtenção de licença ambiental prévia e à realização de consulta prévia, livre e informada às comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais potencialmente afetadas.
O governo federal afirma que a decisão de não realizar a dragagem neste momento foi tomada depois de avaliação das condições ambientais, sociais e logísticas e do diálogo com comunidades tradicionais. O cenário do rio continuará sendo monitorado.
Alternativa privada também não avançou
Além da licitação de R$ 74,8 milhões, havia outra possibilidade para a realização dos trabalhos. O DNIT aprovou anteriormente a possibilidade de celebrar um acordo de cooperação técnica com a Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (Abani).
O modelo permitiria a execução excepcional e emergencial de serviços de dragagem de manutenção sem custos para o DNIT, com participação do setor privado. Essa alternativa, porém, também não avançou.
A Frente Parlamentar da Agropecuária e mais de 30 entidades do setor produtivo chegaram a encaminhar ao Ministério da Agricultura um pedido de mobilização do governo para garantir a navegabilidade do Tapajós.
A vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS), está entre as vozes que vêm cobrando uma solução para o problema. O setor argumenta que deixar de realizar a manutenção não elimina impactos ambientais, uma vez que uma eventual interrupção do transporte hidroviário deslocaria milhões de toneladas de cargas para as rodovias.
Problema vai além do agronegócio
Uma eventual paralisação do Tapajós também teria consequências para o abastecimento da população amazônica. Pelo corredor circulam combustíveis, alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais.
Estimativas consideradas nas discussões sobre a dragagem apontam que cerca de 1,36 milhão de metros cúbicos de combustíveis passam anualmente pelo corredor logístico do Tapajós, atendendo 17 municípios, mais de 200 postos e uma população de aproximadamente 7,5 milhões de pessoas.
O impasse coloca o governo diante da necessidade de conciliar a proteção ambiental e os direitos das populações tradicionais com a manutenção de uma infraestrutura logística que ganhou importância estratégica para o país.
Com a aproximação do período de estiagem, o nível do Tapajós e as condições de navegabilidade passam a ser determinantes. Caso uma seca severa se confirme sem que haja uma solução para os pontos críticos da hidrovia, os efeitos poderão atingir simultaneamente a produção agrícola, os custos de transporte, o abastecimento regional e as emissões de gases de efeito estufa.
Fonte: Brasil 247