Por Ana Paula Cavalcanti — Combate Racismo Ambiental

Milhares de estudantes participam de manifestação em apoio à reeleição do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em passeata da Candelária à Cinelândia, em 07/10/2026. Foto: Fernando Frazão /Agência Brasil

Disputar o futuro. Por Ederson Duda

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No primeiro turno, a campanha de Lula permaneceu predominantemente fria, apoiada na trajetória do presidente e na apresentação das realizações do governo, com pouca capacidade de estimular a participação ativa de sua base social. A opção por uma campanha conduzida sobretudo de cima para baixo limitou a mobilização popular e subestimou a força do bolsonarismo. O resultado de 4 de outubro, com Flávio Bolsonaro à frente, expôs os limites dessa orientação e colocou a necessidade de uma mudança na condução da disputa.

A primeira resposta veio da juventude. Já no dia seguinte à votação, estudantes começaram a convocar assembleias e manifestações que se espalharam por diferentes cidades do país. Com forte impulso espontâneo e articuladas também por entidades estudantis, essas iniciativas partiram da própria base social e deram expressão coletiva à preocupação com o retorno do bolsonarismo. A participação de trabalhadores, movimentos populares e outros setores ampliou esse movimento, renovou a energia da campanha e pressionou por uma atuação mais “a quente”, sustentada pela presença nas ruas e nas redes.

Ao ocupar as ruas, a juventude contesta a ideia de que uma vitória bolsonarista seja inevitável. O medo não desaparece, mas passa a encontrar uma resposta coletiva. Pessoas que acompanhavam a campanha isoladamente se encontram, reconhecem preocupações comuns e constroem formas de agir. Esse movimento importa porque a correlação de forças também depende da capacidade de transformar uma posição política em presença social organizada. As manifestações ampliam essa possibilidade quando se desdobram em conversas, trabalho nos territórios e mobilização de quem ainda está distante da campanha.

Há processos semelhantes, com características próprias, em outros países. Na França, estudantes têm enfrentado a deterioração da educação pública e os cortes de recursos. Nos Estados Unidos, as manifestações contra Trump articulam a resistência ao autoritarismo à mobilização eleitoral. Esses movimentos não compartilham necessariamente um programa, mas expressam a resistência à extrema direita e às condições que restringem as possibilidades de vida em diferentes sociedades: a precarização do trabalho, o encarecimento da moradia, a deterioração dos serviços públicos e a dificuldade crescente de construir expectativas de futuro.

Essas experiências expressam dimensões concretas da crise estrutural do capitalismo. Enquanto a riqueza permanece concentrada e as exigências da valorização orientam decisões econômicas e políticas públicas, a reprodução da vida se torna mais incerta para amplos setores da população. O endividamento compromete a renda futura, jornadas extensas consomem o tempo presente e o acesso à moradia e aos serviços essenciais exige esforços cada vez maiores. Para muitos jovens, a promessa de que o estudo e o trabalho permitiriam alcançar uma vida mais estável perde credibilidade diante da experiência cotidiana.

A extrema direita tem procurado organizar politicamente esse desencanto. Apresenta-se como força de ruptura, promete enfrentar o “sistema” e oferece pertencimento a quem se sente abandonado. Ao mesmo tempo, preserva interesses econômicos que produzem a insegurança e desloca a frustração para a hostilidade contra outros trabalhadores, mulheres, pessoas LGBTQIA+, migrantes e povos indígenas. Sua força não depende apenas de oferecer explicações para as insatisfações, mas também de construir identidades, vínculos e formas de participação. Essa operação exige uma resposta que alcance tanto as condições materiais de vida quanto as formas pelas quais elas são interpretadas.

Distinguir o bolsonarismo de outras expressões da direita tem, portanto, uma função política. A distinção não decorre de pedantismo teórico: ajuda a compreender o projeto que pode voltar ao poder e a definir como enfrentá-lo. Embora compartilhe interesses econômicos e estabeleça alianças com a direita liberal, o bolsonarismo organiza sua força por meio de uma mobilização autoritária contra adversários, movimentos sociais e conquistas democráticas.

A possibilidade de seu retorno por via eleitoral não reduz esse perigo. O acesso ao governo pelo voto pode ser utilizado para restringir as condições de disputa, enfraquecer organizações populares e ampliar o controle sobre as instituições. Uma vitória de Flávio Bolsonaro daria novo impulso a esse projeto, agora apoiado na experiência acumulada pelo bolsonarismo e em um cenário internacional favorável à articulação da extrema direita. A submissão aos interesses do imperialismo estadunidense aprofunda os ataques à soberania nacional aos direitos sociais, trabalhistas e políticos.

Entretanto, uma política restrita à administração do presente encontra dificuldades para enfrentar uma força que promete transformar a sociedade, ainda que em sentido regressivo. Para a juventude e a classe trabalhadora, que enfrentam a precarização do trabalho, o custo elevado da moradia e as dificuldades de acesso e permanência na educação, defender a democracia precisa significar também a possibilidade de mudar essas condições. As demandas por educação, moradia, tempo livre e proteção ambiental confrontam escolhas que subordinam necessidades sociais às exigências da rentabilidade e da austeridade. Cabe aos socialistas articular essas lutas a um horizonte de transformação, tornando reconhecíveis os interesses que bloqueiam as mudanças e as forças capazes de realizá-las.

As próprias eleições indicaram possibilidades nessa direção. A eleição e a projeção de candidaturas jovens, combativas e com grande audiência nas redes mostram que existe espaço para uma esquerda que nomeia conflitos, enfrenta interesses dominantes e vincula direitos a perspectivas de mudança. Esse potencial depende de conseguir transformar audiência em participação e representação em capacidade de organização. A defesa de um futuro diferente ganha força quando se liga às necessidades que atravessam a vida cotidiana.

A luta pelo fim da escala 6×1 expressa essa relação. A reivindicação por tempo de descanso, convivência e participação social transformou uma experiência de exaustão em luta coletiva e conquista política. Ela mostra que disputar o futuro pode produzir mudanças no presente. Ao mesmo tempo, melhorar as condições de vida amplia as possibilidades de participação e de construção de novos horizontes. Por isso, tornar o presente habitável e disputar o futuro são dimensões de um mesmo processo.

Ao mesmo tempo, a solidariedade que tem marcado o segundo turno pode contribuir para essa construção. Ao compartilhar tarefas, enfrentar dificuldades e assumir compromissos, pessoas com trajetórias distintas passam a reconhecer umas nas outras a possibilidade de uma ação comum. Os vínculos de camaradagem se formam nessa prática: na responsabilidade pelo trabalho coletivo, no apoio a quem está cansado, na disposição de continuar quando a insegurança ameaça paralisar.

Essa solidariedade encontra uma classe trabalhadora heterogênea, constituída por diferentes experiências de trabalho e de vida e atravessada pelas desigualdades de gênero, raça e sexualidade. A luta das mulheres, da população negra, das pessoas LGBTQIA+ e dos povos indígenas possuem participação ativa na construção dessa unidade. Reconhecer suas experiências de exploração e opressão é necessário para que a unidade tenha conteúdo e permita enfrentar as formas concretas de dominação que organizam a sociedade brasileira.

A participação de artistas, influenciadores e outras figuras públicas amplia o alcance dessa mobilização. Seus posicionamentos contribuem para reunir setores diferentes em torno da defesa da democracia, da soberania e de uma perspectiva de futuro. Essa unidade não exige concordância sobre todas as questões. Exige compreender a tarefa comum de derrotar a extrema direita e criar condições para que as diferenças continuem sendo disputadas com liberdade de organização e participação política.

O encontro nas ruas, porém, não assegura por si só a continuidade da força que ali se manifesta. A experiência das mobilizações precisa encontrar espaços de elaboração, formação política e decisão coletiva. Os vínculos criados na campanha podem fortalecer comitês, movimentos, sindicatos e partidos, incorporando novos participantes e formando novas lideranças. Para os socialistas, essa tarefa começa agora: dar continuidade à solidariedade e transformar a disposição de agir em força política capaz de sustentar conflitos prolongados.

Chegamos aos últimos dias exaustos, sob a tensão permanente das ameaças de retrocessos e da psicose política. A exposição contínua às ameaças de retrocesso e à incerteza do resultado produz desgaste e ansiedade. A organização também importa por isso. Dividir tarefas, ampliar a participação e apoiar quem vem sustentando as atividades permite preservar a capacidade coletiva de agir. A continuidade da campanha depende de conseguirmos transformar o compromisso de muitas pessoas em trabalho compartilhado nas ruas, nas redes e nos territórios.

A nossa tarefa imediata é eleger Lula. A agitação política precisa ligar a denúncia do bolsonarismo às experiências concretas da população, mostrando o que seu retorno representaria para o trabalho, a renda, os serviços públicos e as liberdades democráticas. Conversar com quem ainda hesita, com quem votou em outras candidaturas e com quem não compareceu no primeiro turno é parte decisiva desse esforço. A força das manifestações precisa se desdobrar na disputa dos votos necessários para construir uma maioria eleitoral.

Uma vitória de Lula constituiria uma “barreira sanitária” importante ao avanço da extrema direita na América do Sul e fortaleceria aqueles que a enfrentam em outros países. Também abriria condições mais favoráveis para as lutas populares no Brasil. O bolsonarismo, entretanto, continuará organizado. Se vencermos, precisaremos de força social para defender a vitória e pressionar por mudanças. Uma derrota tornaria as condições de resistência mais difíceis e exigiria ainda mais dos vínculos construídos neste período.

Reconhecer a continuidade dessa luta reforça a urgência da tarefa no presente. A mobilização iniciada depois do primeiro turno mostrou que o medo pode encontrar uma resposta coletiva e que a disputa eleitoral pode produzir novos compromissos, solidariedade e organização.

Cabe transformar essa possibilidade em vitória e em capacidade duradoura de ação. Disputar o futuro exige tornar o presente habitável; tornar o presente habitável exige organizar as forças capazes de disputar o futuro.

Ederson Duda é doutorando em Ciências Sociais pela Unifesp.

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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