Dilma Rousseff: “Lula faz toda a diferença para o fortalecimento do BRICS e do NDB”
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 — Em uma entrevista exclusiva concedida aos jornalistas Leonardo Attuch e Fernando Morais, transmitida pela TV 247, a ex-presidenta da República e atual mandatária do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, fez um balanço contundente de sua gestão à frente da instituição multilateral. Ao longo da conversa, Dilma destacou o papel decisivo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no reposicionamento geopolítico do Sul Global, detalhou mais de R$ 23 bilhões em investimentos destinados ao Brasil e explicou por que o avanço tecnológico e a soberania nacional são inseparáveis na construção de um mundo multipolar.
“Um presidente que tem esse compromisso facilita o nosso trabalho. O governo Lula procura projetos que de fato impactam o desenvolvimento, melhoram a infraestrutura e garantem sustentabilidade. O mundo reconhece a liderança internacional de Lula”, enfatizou Dilma.
O diferencial do NDB: soberania e respeito às prioridades locais
Dilma resgatou as origens do NDB, concebido no espírito da cúpula de Fortaleza em 2014, durante seu governo, para contrapor a lógica tradicional dos organismos multilaterais ocidentais. Enquanto instituições tradicionais historicamente condicionavam socorros financeiros à austeridade e a programas forçados de privatização, o Banco dos BRICS segue a diretriz estrita de ser guiado pela demanda (demand-driven).
“Nós respeitamos a soberania dos países. Nossa função não é dizer a uma nação o que ela deve fazer, mas apoiar as suas próprias prioridades com financiamento de longo prazo e taxas competitivas”, sublinhou. Dilma explicou ainda que o NDB tem diversificado fontes de captação, tornando-se o maior emissor privado de títulos em moeda chinesa fora do mercado continental (Panda Bonds), permitindo um mix financeiro mais seguro e resistente às oscilações internacionais.
Mais de R$ 23 bilhões investidos no Brasil
Durante a entrevista a Attuch e Morais, Dilma revelou que, desde março de 2023, quando assumiu o comando do banco em Xangai, foram aprovados cerca de R$ 23,95 bilhões em operações para o Brasil, divididos entre iniciativas públicas e privadas:
- Recuperação de recursos represados: Dilma relatou que resgatou US$ 1 bilhão destinados à recuperação socioeconômica pós-pandemia que haviam sido negligenciados pela gestão anterior.
- Parceria com o BNDES: Foram direcionados US$ 1,7 bilhão ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, com foco em infraestrutura sustentável e combate às mudanças climáticas.
- Infraestrutura em estados e municípios: Recursos expressivos foram alocados em obras de saneamento em Pernambuco (R$ 1,1 bilhão) e na Paraíba (R$ 495 milhões), contenção e drenagem em Aparecida de Goiânia (R$ 400 milhões), saneamento no Pará (R$ 250 milhões) e mobilidade urbana em Serra (ES) e Maceió (AL).
- Transição energética: Financiamento da expansão de redes de distribuição da CPFL em São Paulo (R$ 1,06 bilhão), do parque eólico Serra das Palmeiras na Paraíba e da implantação da linha de transmissão de ultra-alta tensão (800 kV) Graça Aranha–Silvânia, com 1.500 km conectando a energia limpa do Nordeste ao centro de consumo do Sudeste.
Hospital Inteligente: o SUS no centro da vanguarda tecnológica
Um dos pontos mais celebrados da entrevista foi a criação do primeiro Hospital Inteligente do SUS, viabilizado por meio de convênio com o Ministério da Saúde e apoio operacional do governo do Estado de São Paulo.
O complexo funcionará como centro de emergência de alta complexidade e laboratório-escola, integrando soluções de inteligência artificial, robótica cirúrgica, prontuários automatizados e tecnologia de ponta desenvolvida em parceria com instituições da China e a renomada rede indiana Narayana Health.
“O SUS é uma das maiores tecnologias sociais do mundo. Com o Hospital Inteligente, estamos provando que o povo mais humilde e os trabalhadores que dependem da saúde pública têm direito ao atendimento mais moderno e avançado que existe no planeta. Não seremos meros consumidores de tecnologia; seremos produtores e multiplicadores”, defendeu Dilma.
Moedas locais e superação da hegemonia do dólar
Questionada sobre o debate monetário internacional, Dilma esclareceu que o foco do NDB não reside em discursos simplistas de “desdolarização” por decreto, mas na construção pragmática de mecanismos que viabilizem operações em moedas locais.
Segundo ela, a excessiva dependência de uma única moeda de reserva gera graves vulnerabilidades cambiais para os países em desenvolvimento:
“Quando você levanta e empresta em moeda local, elimina o descasamento entre receita e dívida. A estabilidade monetária global depende de uma arquitetura multilateral em que as nações não fiquem expostas às decisões unilaterais de política monetária de um único país emissor”, pontuou.
Expansão do Sul Global e o horizonte de 2027
O NDB vive um ritmo acelerado de expansão. Fundado inicialmente pelos cinco membros originários (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o banco já incorporou nações como Egito, Emirados Árabes Unidos, Bangladesh, Argélia e Uzbequistão, além de ter em andamento os processos de adesão de Etiópia, Angola e Zimbábue.
Dilma projeta que a instituição alcance cerca de 20 países-membros até meados de 2027. O plano estratégico 2027–2031 do banco colocará ênfase na inovação industrial, na agricultura tecnificada e no intercâmbio científico, tendo como pilar um novo Portal de Inovação dos BRICS.
O Brasil no tabuleiro mundial: multipolaridade e soberania
Ao concluir a conversa com Leonardo Attuch e Fernando Morais, a presidenta do NDB expressou otimismo sobre o futuro do Brasil sob a liderança de Lula, mas deixou uma advertência contundente contra retrocessos políticos e o desmonte de setores estratégicos nacionais:
“Não existe desenvolvimento duradouro sem ciência, sem educação básica e sem valorização da cultura nacional. A multipolaridade não é apenas uma reorganização de poder; ela é multilateral, multicultural e pacífica. O Brasil tem dimensão continental, criatividade e capacidade de ser um país avançado. Para isso, precisamos de projetos de longo prazo, amor à nossa soberania e clareza de que não devemos ser subservientes a ninguém”, finalizou.
Fonte: Brasil 247