Desemprego em queda não basta para garantir trabalho de qualidade no ES
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Publicado em 30 de Setembro de 2026 às 08:19
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O Espírito Santo tem uma boa notícia e uma advertência no mesmo dado. No segundo trimestre de 2026, a taxa de desocupação caiu para 2,3%, a menor da série iniciada em 2012. Aproximadamente 49 mil pessoas procuravam trabalho, número abaixo de 50 mil pela primeira vez. Em uma economia que cresceu 4,4% no primeiro semestre, é natural celebrar a geração de ocupação.
Mas o mesmo levantamento traz um sinal que merece atenção. A informalidade subiu de 38,6% para 40% em um trimestre e alcançou cerca de 832 mil capixabas. Há mais pessoas trabalhando, mas uma parcela importante ainda está fora de um vínculo formal, sem carteira assinada ou sem registro empresarial. Os dois movimentos não se anulam. Eles mostram que o Estado avançou na quantidade de ocupações, mas ainda tem uma tarefa importante na qualidade delas.
Isso não autoriza tratar toda informalidade da mesma forma. Há profissionais independentes que escolhem trabalhar por conta própria e têm autonomia real. O problema está em transformar um grupo tão diverso em um rótulo único e ignorar a parcela que permanece informal por falta de alternativa.
Para o empregado sem carteira, a ausência de vínculo significa não contar com férias remuneradas, 13º salário, FGTS ou seguro-desemprego. Para o trabalhador por conta própria sem formalização, costumam ser maiores as dificuldades para comprovar renda, emitir nota, acessar crédito adequado e contribuir regularmente para a Previdência. Quando a renda é imprevisível, a família posterga consumo, reduz investimentos em qualificação e enfrenta qualquer imprevisto com menos proteção.
Essa situação também tem consequências para a economia. Pequenos negócios fora dos canais formais têm mais obstáculos para vender a empresas maiores, participar de cadeias de fornecedores e crescer com financiamento. A arrecadação é apenas um dos efeitos. Relações frágeis tendem a reduzir planejamento, investimento e mobilidade social.
O perfil do mercado capixaba ajuda a explicar parte desse quadro. A safra de café eleva as contratações em determinados meses e responde por uma parcela relevante da ocupação no interior. Construção, comércio e serviços também têm grande rotatividade e concentram muitas pequenas atividades. O Estado criou 24,2 mil postos formais no primeiro semestre, um resultado importante. Ainda assim, a alta da informalidade mostra que a geração de emprego com carteira não foi suficiente para acompanhar o aumento da ocupação total.
Por isso, a análise do mercado de trabalho não pode se limitar à taxa de desemprego. É preciso acompanhar renda real, rotatividade, duração dos vínculos, horas trabalhadas, proporção de trabalhadores por conta própria com CNPJ e cobertura previdenciária. Esses indicadores mostram se a ocupação está se convertendo em uma base mais segura para as famílias ou apenas em uma sucessão de trabalhos de curto prazo. Eles também ajudam a identificar onde está o problema: na qualificação, na sazonalidade, no custo de formalizar ou na falta de conexão entre quem procura trabalho e quem oferece vagas.
As respostas também devem ser diferentes conforme o território. Nas regiões cafeeiras, o desafio é aproveitar a contratação sazonal para ampliar qualificação e oportunidades fora do pico da colheita. Na Grande Vitória, projetos de construção, logística e indústria demandam trabalhadores com competências específicas. Para o pequeno prestador de serviços, orientação e acesso a canais de venda podem ser mais úteis do que uma abordagem exclusivamente fiscalizatória. Não há uma única política para um mercado de trabalho tão heterogêneo.
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O desafio, portanto, não se resolve apenas com o anúncio de novas vagas. Com desemprego muito baixo, empresas precisam competir por trabalhadores, reter pessoas e investir em formação. O poder público precisa aproximar cursos das demandas efetivas de setores como construção, logística, indústria, turismo e serviços, além de orientar pequenos negócios que podem formalizar-se e crescer. A formalização deve ser tratada como porta de entrada para mercados, crédito e proteção, não apenas como uma exigência burocrática.
Também seria um erro imaginar que a resposta é empurrar todo trabalhador autônomo para um emprego tradicional. A economia contemporânea comporta empreendedores individuais, prestadores de serviço e novas formas de trabalho. O objetivo é garantir que essa autonomia seja uma escolha viável, com renda, acesso a proteção e possibilidade de evolução, e não a única saída para quem não encontra uma ocupação melhor.
O Espírito Santo tem razão para comemorar a menor taxa de desemprego de sua história recente. Mas não pode encerrar o diagnóstico aí. A pergunta agora é se o trabalho gerado permite às pessoas planejar o mês seguinte, obter crédito em condições razoáveis, proteger a família e construir uma trajetória profissional. Quando a resposta for cada vez mais positiva, o avanço da economia terá se transformado em desenvolvimento.
Leia mais na coluna de Felipe Storch
Felipe Storch
Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria
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