De olho no 2º turno, Lula vai a Alagoas a pedido dos Calheiros e tenta evitar atritos com Arthur Lira e o centrão
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O presidente Lula (PT) cumprirá agenda de campanha na capital Maceió, em Alagoas, na quinta-feira (24), para participar de ato ao lado de Renan Filho (MDB) e Renan Calheiros (MDB), candidatos ao governo do estado e ao Senado Federal, respectivamente. A visita atende a um pedido direto do clã Calheiros, mas acendeu um sinal de alerta na coordenação de campanha do Palácio do Planalto sobre o risco de provocar rusgas com o ex-presidente da Câmara e atual candidato ao Senado, Arthur Lira (PP), expoente do centrão e adversário local dos emedebistas, informa reportagem do jornal O Globo.
A viagem a Alagoas contraria uma diretriz inicial traçada pela articulação política da reeleição petista, que recomendava evitar viagens a estados onde houvesse mais de um palanque sinalizando apoio ao presidente. O objetivo era impedir indisposições com lideranças partidárias locais. No entanto, interlocutores de Lula avaliaram que não havia como recusar o apelo da família Calheiros, aliados de primeira hora do governo — Renan Filho ocupou o Ministério dos Transportes na atual gestão e foi uma das vozes mais ativas no combate ao bolsonarismo nas redes sociais e em discursos públicos.
Para mitigar eventuais ruídos políticos, Lira foi previamente informado sobre a agenda. A orientação do entorno do presidente é que Lula faça um discurso focado no apoio aos seus aliados locais, sem realizar qualquer ataque direto ao candidato do PP. No cálculo eleitoral de uma disputa acirrada, a avaliação é de que o Planalto não pode abrir mão de apoios no Congresso e precisa manter canais abertos com o centrão, visando tanto as costuras legislativas quanto o cenário de um eventual segundo turno das eleições presidenciais.
Tensões com o PP e o espectro do segundo turno
A preocupação com o tom das declarações de Lula decorre de episódios recentes. No início do mês, durante agenda no Piauí, o presidente afirmou não aceitar “vira-latas” ao comentar a disputa pelo Senado local — uma fala interpretada como indireta ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL). A declaração gerou forte incômodo no presidente nacional do PP, colocando em risco o pacto de não agressão acertado entre o Planalto e o partido, o qual havia garantido a postura de neutralidade da federação União Brasil-PP no primeiro turno.
O movimento de aproximação com o centro contou com atuação pessoal de Lula nas últimas semanas. Em agosto, o presidente reuniu-se com o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com a cúpula do Podemos e da federação União Brasil-PP — com destaque para a participação dos líderes Dr. Luizinho (PP-RJ) e Pedro Lucas (União-MA). A coordenação da campanha, liderada por Edinho Silva (PT) e pelo ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), pediu formalmente que esses partidos não definam apoios para o segundo turno sem antes abrir nova rodada de negociações sobre a composição de um eventual quarto mandato.
Apesar da articulação, lideranças das siglas de centro sinalizam que, no cenário atual, a tendência majoritária é de um apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em uma eventual segunda fase do pleito. Entre os motivos alegados estão o empate técnico nas pesquisas de intenção de voto e insatisfações com os movimentos estaduais do PT. Integrantes desses partidos admitem, contudo, que uma decisão definitiva dependerá do desempenho de Lula nas urnas no primeiro turno: caso a candidatura petista mostre força expressiva, a neutralidade do bloco poderá ser mantida.
O quadro eleitoral e os bastidores em Alagoas
A presença do presidente em Maceió visa impulsionar a candidatura dos Calheiros em um cenário de forte acirramento local. Segundo levantamento da pesquisa Quaest realizado em agosto, Renan Filho aparece empatado numericamente com João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), na corrida pelo governo de Alagoas, marcando 42% das intenções de voto no primeiro turno contra 40% do tucano.
O cenário político local envolveu intensas negociações prévias que esbarraram em rivalidades históricas. No ano passado, o governo federal tentou sem sucesso costurar uma chapa unificada entre Renan Calheiros e Arthur Lira. Em paralelo, interlocutores relatam que JHC havia firmado um compromisso com o Planalto para não disputar o governo estadual e permanecer na prefeitura da capital. Em contrapartida a esse acerto, o presidente indicou a procuradora de Justiça Maria Marluce Caldas Bezerra, tia de JHC, para uma vaga no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Apesar de a nomeação para a Corte ter sido confirmada, o ex-prefeito alterou os planos políticos. Após sinalizar que concorreria ao Senado — o que ampliaria a competição com Lira —, JHC anunciou seu registro de candidatura ao governo de Alagoas nas horas finais do prazo limite estipulado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A ida de Lula ao estado busca consolidar a reta final da campanha dos Calheiros e assegurar a vantagem na disputa pelo Executivo estadual e pelas vagas ao Congresso Nacional.
Fonte: Brasil 247