Crise no STF aumenta temor no Congresso sobre vazamentos do caso Master
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – A escalada da disputa interna no Supremo Tribunal Federal passou a preocupar diretamente a cúpula do Congresso, que teme que deputados e senadores sejam atingidos por uma nova sequência de revelações relacionadas às investigações do Banco Master.
Segundo a Folha de S.Paulo, lideranças do centrão avaliam que o Legislativo pode se transformar no principal alvo dos efeitos colaterais da crise no STF. O temor aumentou nesta segunda-feira (14), depois de uma operação da Polícia Federal contra o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), aliado político do ministro André Mendonça.
A ofensiva contra o parlamentar foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, relator de uma investigação sobre desvios e falta de transparência na execução de emendas parlamentares. Como Dino e Mendonça estão associados a grupos divergentes dentro do Supremo, integrantes do Congresso interpretaram a operação como mais um episódio da disputa aberta entre alas da Corte.
Entre deputados e senadores, há receio de que investigações já em curso avancem sobre integrantes do Legislativo e de que decisões tomadas por ministros sejam lidas politicamente como parte da disputa interna do tribunal.
Caso Master amplia pressão sobre parlamentares
A apreensão aumentou depois da pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela abertura dos dados relacionados ao Banco Master. O presidente do STF, Edson Fachin, atendeu parcialmente à demanda pela quebra do sigilo.
No Congresso, a eventual divulgação mais ampla do material é vista como uma espécie de caixa de Pandora, com potencial para atingir políticos de diferentes partidos justamente durante a campanha eleitoral.
O temor ganhou força após a divulgação de que nomes de integrantes da cúpula da Câmara apareceram em uma lista encontrada durante uma operação na residência do senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do Progressistas.
O documento, localizado em uma churrasqueira, continha nomes de parlamentares do centrão e do PL ao lado de números que, somados, chegam a 100.
A Polícia Federal apura as relações de Ciro Nogueira com o Banco Master. De acordo com a investigação citada pela Folha, o senador mantinha conversas e realizava viagens com Daniel Vorcaro, e o ex-banqueiro teria pago despesas do parlamentar.
Operação contra aliado de Mendonça eleva tensão
Nesta segunda-feira, a ação contra Cezinha de Madureira elevou o nível de preocupação entre parlamentares.
O deputado é considerado um dos principais aliados de André Mendonça no Congresso. Por isso, políticos passaram a interpretar a operação autorizada por Dino não apenas pelo conteúdo da investigação sobre emendas, mas também dentro do contexto do conflito entre ministros do Supremo.
Na avaliação de integrantes do Legislativo ouvidos sob reserva, o Congresso pode acabar atingido tanto por desdobramentos legítimos das apurações quanto por iniciativas interpretadas politicamente como movimentos dentro da disputa no STF.
Há ainda o temor de que novas revelações desviem o centro da crise institucional da própria Corte e ampliem a exposição de deputados e senadores.
Festas atribuídas a Vorcaro também preocupam políticos
Além de possíveis suspeitas relacionadas a corrupção ou movimentações financeiras, parlamentares demonstram preocupação com a divulgação de informações sobre festas organizadas por Daniel Vorcaro e pessoas próximas a ele.
Dados obtidos pela Polícia Federal levaram à exposição de informações sobre um evento privado que teria sido promovido pelo banqueiro em 2023, no Madame Satã, com a presença mencionada de 120 mulheres, além de cerca de 20 autoridades e empresários.
Entre os nomes apontados como convidados estavam o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP); o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG); os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes; o senador Ciro Nogueira; o ex-presidente da Câmara Arthur Lira; e o empresário Wesley Batista.
Todos negaram ter participado. Segundo as informações fornecidas, não há registros da realização da festa com a presença dessas autoridades.
Congresso deve evitar reação antes das eleições
Apesar da crescente insatisfação, uma reação institucional mais organizada do Congresso é considerada improvável antes das eleições.
Lideranças afirmam que deputados e senadores estão concentrados em suas bases eleitorais e têm como prioridade imediata garantir a própria reeleição, o que dificulta a formação de uma resposta conjunta à crise.
A avaliação predominante no centrão é que o embate entre ministros e seus possíveis reflexos sobre o Legislativo devem continuar pelo menos até o pleito.
Integrantes do bloco também avaliam que o resultado da disputa interna do STF poderá ter impacto na eleição presidencial.
Na leitura dessas lideranças, se prevalecer a ala associada ao ministro Alexandre de Moraes, Flávio Bolsonaro (PL) poderia sofrer maior desgaste devido à relação revelada com Daniel Vorcaro, incluindo o pedido de recursos ao banqueiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro e a existência de diálogos entre ambos.
Caso André Mendonça saia fortalecido da disputa, integrantes do centrão consideram que o governo Lula poderá enfrentar maior pressão política devido à tentativa de adversários de associá-lo a Moraes.
CPI dos vazamentos entra no radar
O centrão já discute possíveis respostas para depois das eleições.
O deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA), cujo nome apareceu no papel apreendido na residência de Ciro Nogueira, defendeu a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar vazamentos relacionados à Polícia Federal.
Nos bastidores, porém, outras lideranças defendem uma tentativa de “pacificação” institucional depois do pleito.
O diagnóstico é que a sucessão de controvérsias envolvendo as relatorias das investigações do Banco Master aprofundou o desgaste do Supremo.
Dias Toffoli deixou o comando do caso depois de sua relação com Vorcaro ser exposta, enquanto André Mendonça enfrenta críticas de adversários que o acusam de atuar politicamente.
Para parlamentares, esse ambiente também poderá alimentar questionamentos jurídicos contra investigações e processos relacionados ao Banco Master, inclusive eventuais pedidos de anulação de atos praticados durante a crise.
Fonte: Brasil 247