Corredor submarino via Cabo Verde vai ligar Brasil e Europa e reduzir passagem de dados brasileiros pelos EUA

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Por Allan Ravagnani — Carta Capital

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Por séculos, o arquipélago de Cabo Verde serviu de escala aos navios que cruzavam o Atlântico Sul. Em julho, o país de menos de 600 mil habitantes voltou ao foco global, ao alcançar a segunda fase da Copa do Mundo em sua estreia e cair […]

Por séculos, o arquipélago de Cabo Verde serviu de escala aos navios que cruzavam o Atlântico Sul. Em julho, o país de menos de 600 mil habitantes voltou ao foco global, ao alcançar a segunda fase da Copa do Mundo em sua estreia e cair diante da Argentina apenas na prorrogação. Agora, a velha rota volta a interessar a quem transporta mercadorias feitas de dados.

Em 29 de setembro, a alemã DE-CIX e a Cabo Verde Telecom (CVTelecom) assinaram uma carta de intenções para criar um corredor de interconexão entre Lisboa e São Paulo. Segundo as empresas, o objetivo é reduzir a dependência dos grandes centros de troca de tráfego do norte da Europa e da América do Norte, por onde passa hoje boa parte dos dados que circulam entre os dois lados do oceano.

O desenho prevê uma permuta de ativos. A operadora cabo-verdiana entra com capacidade de transporte entre as duas cidades. A DE-CIX, que se apresenta como a maior operadora de pontos de troca de tráfego do mundo, oferece acesso a seus ecossistemas em Frankfurt, Madri, Marselha, Nova York e São Paulo. Na prática, uma empresa conectada em São Paulo passará a trocar tráfego diretamente com redes em Lisboa, Madri ou Frankfurt, em conexão ponto a ponto. O presidente-executivo da DE-CIX, Ivo Ivanov, associa o modelo a ganho de segurança, porque o dado circula entre parceiros identificados, em um ambiente mais difícil de interceptar. A menor latência atende transmissões ao vivo, robótica e aplicações financeiras. Os termos comerciais serão fixados em acordo definitivo, e o preço do serviço vai variar conforme o volume de tráfego contratado.

A infraestrutura física do plano já está no fundo do mar. O EllaLink, cabo submarino de cerca de 6 mil quilômetros, liga Sines, em Portugal, a Fortaleza, com ramal na cidade da Praia. Em operação desde 2021, o sistema recebeu recursos da Comissão Europeia e 25 milhões de dólares da própria CVTelecom. Foi o primeiro cabo de fibra óptica direto entre o Brasil e a Europa. Antes dele, a maior parte das conexões de dados entre os dois continentes fazia escala em território norte-americano. A operadora cabo-verdiana também participa do SHARE, cabo de 720 quilômetros que liga a Praia a Dacar, no Senegal, e estende o alcance da rota à costa ocidental africana.

Do lado africano, a parceria reforça a ambição de transformar o arquipélago em porta digital entre África, Europa e Américas. Em nota, a diretora de marketing da CVTelecom, Isa Neves, afirmou que a combinação da capacidade internacional da operadora com a plataforma da DE-CIX deve ampliar a conectividade e o acesso a serviços digitais em Cabo Verde e na África Ocidental. As empresas esperam que o corredor atraia novos investimentos em infraestrutura e tecnologia ao longo do Atlântico Sul.

Em entrevista à CartaCapital, Ivanov afirmou que o trajeto atual carece de sentido geográfico e econômico. Quanto mais longa a rota, mais cara a capacidade contratada. Sua aposta é que a ligação direta leve empresas brasileiras a se instalar em Portugal e na Espanha, e companhias ibéricas a abrir operação no Brasil. Segundo ele, o padrão se repetiu em outros mercados, com clientes que começam conectados à distância e depois montam presença física.

O executivo colocou o Brasil entre os mercados prioritários da companhia. A DE–CIX interliga seus pontos de troca de São Paulo e do Rio de Janeiro e mantém conexão com Nova York, o que permite a redes brasileiras alcançar a plataforma global da empresa, presente em cinco continentes. O pacote inclui conexão direta a serviços de nuvem de Microsoft, Google e Amazon. A empresa trabalha sem data centers próprios e opera dentro de instalações de parceiros como Elea, Equinix e Ascenty.

O argumento mais sonoro da conversa veio da política. Ivanov tratou a infraestrutura digital como questão de soberania e defendeu que dados de saúde e de segurança de brasileiros permaneçam no País, longe de servidores norte-americanos usados para treinar modelos de inteligência artificial. Também elogiou o Redata, regime especial de tributação para data centers sancionado em 15 de setembro. A Lei 15.504 prevê renúncia estimada em 5,2 bilhões de reais em 2026 e exige que ao menos 10% da capacidade incentivada atenda o mercado interno. Para acessar o benefício, as empresas precisam contratar energia de fontes renováveis ou de baixa emissão. Estimativas citadas na defesa do programa indicam que cerca de 60% das cargas digitais do País dependem de serviços prestados no exterior.

O discurso ganha outra camada quando se observa quem o pronuncia. A DE-CIX nasceu em Frankfurt, em 1995, e anunciou sua chegada ao Brasil em outubro de 2024, com pontos de troca em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na estreia, informou que 90% de suas 60 localidades estavam no Hemisfério Norte. A soberania de dados oferecida pela empresa desvia o tráfego dos Estados Unidos e o encaminha para a Europa. A dependência muda de endereço, e a receita da interconexão passa a circular por uma plataforma alemã.

O movimento esbarra num ativo nacional de escala global. O IX.br, mantido pelo NIC.br, entidade sem fins lucrativos ligada ao Comitê Gestor da Internet, atingiu em junho um pico de 55 terabits por segundo. Só a unidade paulista respondeu por 35,9 terabits, volume que a coloca como o maior ponto de troca de tráfego do mundo. A rede reúne cerca de 3,8 mil sistemas autônomos em 39 regiões metropolitanas. Ivanov descreve a presença da DE-CIX como complementar, voltada à redundância. Em 2024, ao anunciar a entrada no País, a empresa afirmou que o Brasil contava com poucos pontos de troca de porte relevante para o tamanho de seu mercado, leitura difícil de conciliar com os números do NIC.br. A convivência entre um modelo público e outro comercial e estrangeiro tende a definir o alcance da expansão.

A frente comercial mais ambiciosa envolve inteligência artificial. A empresa propõe interligar conjuntos de processadores gráficos instalados em data centers distintos, para treinamento de modelos, e rotear por redes privadas a comunicação entre agentes na fase de inferência. O executivo cita como exemplo a detecção de fraudes bancárias em tempo real, operação em que milissegundos separam uma transação bloqueada de um prejuízo. Os próximos alvos no País são Porto Alegre e Fortaleza, onde desembarcam cabos vindos da Europa e dos Estados Unidos e opera o segundo maior ponto do IX.br. O executivo aponta a rede de transmissão como gargalo e a intermitência das fontes solar e eólica como obstáculo para instalações que funcionam dia e noite.

A carta assinada entre Frankfurt e a Praia devolve ao Atlântico Sul uma função que os navegadores portugueses conheciam bem. A escala cabo-verdiana, que abastecia caravelas, agora encaminha conhecimento e pacotes de dados que atravessam o oceano em milissegundos. Para o Brasil, o corredor abre mais uma porta direta para a Europa e aproxima empresas nacionais dos mercados ibéricos e da costa africana. O arquipélago que surpreendeu na Copa entra em outra disputa, travada em fibra óptica e medida em segurança e rapidez.


Allan Ravagnani

Jornalista com especializações em Finanças, Macroeconomia e Ciência Política. Nas últimas duas décadas trabalhou em veículos como Valor Econômico, Istoé Dinheiro e Folha de S.Paulo.

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Fonte: Carta Capital

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