Cordel ganha destaque em livro que reúne 70 anos de capas e chega ao Recife nesta sexta (9)
Por Fátima Pereira — Brasil de Fato
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Uma coleção com mais de 500 capas de cordéis produzidas ao longo de sete décadas será apresentada ao público no Recife nesta sexta-feira (9), a partir das 19h30, no Saltim Café e Tal, em Boa Viagem. O lançamento de Visual Culture of Northeast Brazil: Cordel Edition, do designer alagoano Victor Yves, será acompanhado de uma oficina de xilogravura e tipografia, das 17h às 19h, conduzida pelo cordelista Waldila, neto de Mestre Dila. As duas atividades têm inscrições pelo Sympla, o lançamento é gratuito e a oficina custa R$ 130.
Com 700 páginas, a publicação reúne parte de uma pesquisa que Victor desenvolve há 15 anos sobre a produção gráfica ligada à literatura de cordel. O levantamento já alcançou cerca de 8 mil registros e busca chamar atenção para um aspecto muitas vezes pouco explorado dessa tradição: a elaboração visual dos folhetos, incluindo tipografia, ilustração, composição, impressão e uso das cores.
O livro apresenta capas produzidas principalmente a partir da década de 1950 e reúne trabalhos de nomes como Mestre Dila, Mestre Nova, José Costa Leite, Mestre Nunes, Mestre Expedito e J. Borges. A curadoria procura colocar lado a lado diferentes soluções encontradas por artistas, tipógrafos, impressores e xilogravadores em oficinas e pequenas gráficas do Nordeste.
“Minha escolha foi muito no sentido de diversidade de tipografia”, afirma Victor. A proposta, segundo o designer, é ampliar a percepção sobre a própria história do design brasileiro, incorporando produções desenvolvidas fora dos circuitos tradicionalmente reconhecidos pela área.
A tipografia aparece como um dos principais elementos dessa investigação. Letras produzidas com tipos móveis, matrizes de madeira e desenhos manuais, além de variações de tamanho e marcas decorrentes dos processos artesanais de impressão, mostram como os produtores dos folhetos construíram diferentes formas de organizar e destacar informações. “Eles usam a tipografia como voz”, observa Victor.
O interesse do designer pelo tema começou ainda na infância, em Arapiraca, no interior de Alagoas, durante as idas às feiras com o pai. Anos depois, já estudando design gráfico, ele percebeu que aquela produção visual presente em suas memórias tinha pouco espaço na formação acadêmica. A inquietação deu origem ao trabalho de pesquisa que, ao longo do tempo, passou a reunir milhares de imagens e informações sobre as capas.
O acervo foi organizado pelo CASCA Archive, iniciativa independente criada por Victor para pesquisar, preservar e divulgar referências da cultura visual nordestina. Parte da coleção pode ser consultada no site do projeto, que permite explorar as capas por características visuais e autoria.
Para a publicação, o levantamento contou ainda com contribuições de coleções, instituições e pesquisadores, entre eles o Instituto Brincante e o poeta e folclorista Marco Haurélio, responsável pela revisão do livro. A edição foi produzida de forma independente, sem uma editora comercial, e teve financiamento dos próprios realizadores.
Antes de chegar ao Brasil, Visual Culture of Northeast Brazil: Cordel Edition passou por livrarias e lojas especializadas de cidades como Tóquio, Cidade do México, Los Angeles, Nova York, Montreal, Toronto, Berlim, Paris e Porto. A primeira tiragem teve mil exemplares, dos quais metade foi destinada ao mercado internacional e já está esgotada.
A publicação também passou a integrar acervos acadêmicos, entre eles os das universidades de Toronto e Stanford. O projeto foi apresentado em eventos no Canadá e recebeu destaque da plataforma britânica de design It’s Nice That e da Folha de S.Paulo.
A edição brasileira ganha ainda um segundo material, A Oficina Verbal das Capas, com cerca de 90 páginas de traduções, ensaios, poemas e textos inéditos. Editado pelo artista e DJ Eduardo Beu, o caderno reúne contribuições de Xico Sá, Isabelly Moreira, Chico Homem de Melo, DJ Dolores, Fausto Fawcett, Lirinha e Cristhiano Aguiar.
A publicação complementar foi produzida em Caruaru, na Casa do Cordel Mestre Dila. Waldênio Silva ficou responsável pela impressão e encadernação, em um formato inspirado nos folhetos tradicionais. A escolha reforça a relação entre o conteúdo do livro e os modos de produção artesanal que fazem parte da história do cordel.
Entre os temas registrados nas capas estão religião, cangaço, política, futebol, transformações econômicas, acontecimentos científicos, tragédias nacionais e personagens da cultura popular. O conjunto também evidencia a importância das feiras nordestinas como espaços de circulação de impressos, encontro entre artistas e leitores e difusão de diferentes formas de expressão.
A indicação de “volume 1” sinaliza que a pesquisa ainda está longe de ser encerrada. Para o CASCA Archive, o material reunido representa apenas uma parcela de uma produção gráfica mais extensa, que continua sendo localizada, estudada e preservada.
Antes do lançamento, Waldila conduz uma oficina de duas horas sobre xilogravura e tipografia, com uma apresentação sobre a trajetória de Mestre Dila e da Casa do Cordel. Os participantes terão contato com matrizes, tipos móveis, ferramentas e técnicas tradicionais de impressão.
Cada pessoa poderá criar um desenho, entalhar uma matriz de madeira umburana e produzir uma impressão, incluindo a composição de um título com tipos móveis. Os materiais necessários serão fornecidos durante a atividade.
Não é preciso ter experiência anterior com desenho ou xilogravura. A oficina é aberta também a crianças a partir de 10 anos, desde que acompanhadas por um adulto responsável durante toda a atividade.
As goivas utilizadas são de uso exclusivo durante a oficina. Ao final, os participantes poderão levar a matriz de madeira e o desenho produzidos.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato