Cooperação entre China e Índia no BRICS atende aos interesses do Sul Global, afirmam especialistas
Por Leonardo Sobreira — Brasil 247
247 – O presidente chinês Xi Jinping participará da 18ª Cúpula do BRICS em Nova Déli, de sábado a domingo, a convite do primeiro-ministro indiano Narendra Modi, anunciou nesta quinta-feira (10) um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, de acordo com informações do Global Times.
A visita, muito aguardada, será a primeira de Xi à Índia em sete anos e despertou grande atenção. Veículos de comunicação indianos noticiaram o anúncio assim que ele foi feito.
“A visita do presidente chinês à Índia deverá ser um importante encontro diplomático. Ela terá implicações para os esforços em andamento para estabilizar as relações bilaterais entre as duas potências asiáticas”, informou o Indian Express na quinta-feira.
Especialistas chineses e indianos ouvidos pelo Global Times consideram a visita uma oportunidade importante para aprofundar as relações bilaterais, especialmente para a Índia, que está recalibrando suas prioridades de política externa em meio às mudanças no cenário global.
Mohammed Saqib, CEO do think tank indiano Bureau of Research on Industry & Economic Fundamentals e do India China Economic & Cultural Council, afirmou ao Global Times que a próxima visita do presidente chinês elevou significativamente a importância da Cúpula do BRICS.
“No contexto do aquecimento das relações entre China e Índia, esta visita promoverá ainda mais a melhoria e o desenvolvimento das relações entre China e Índia”, afirmou Qian Feng, diretor do Departamento de Pesquisa do Instituto de Estratégia Nacional da Universidade Tsinghua, ao Global Times na quinta-feira.
Janela para novos avanços
Nova Déli já entra no clima da Cúpula do BRICS. Nas ruas da capital indiana, que sediará o encontro, repórteres do Global Times observaram que cartazes e faixas sobre a próxima cúpula já ocupam as principais vias e mercados. Ao mesmo tempo, é visível o reforço da segurança na capital. Alguns moradores disseram ao Global Times que a Índia atribui grande importância à cúpula e acompanha os preparativos na cidade.
Quando visitaram o local da cúpula, o Bharat Mandapam, na manhã de quinta-feira, os repórteres do Global Times encontraram muitos trabalhadores ocupados com a decoração do espaço e das áreas próximas, enquanto os preparativos finais se intensificavam.
Qian observou que a Índia considera a visita do líder chinês uma oportunidade muito importante para promover melhores relações. São esperadas reuniões bilaterais entre os dois líderes durante a visita.
A 25ª Rodada de Conversas entre os Representantes Especiais da China e da Índia sobre a Questão de Fronteiras, realizada em Pequim em 25 de agosto, resultou em um consenso de oito pontos, descrito pelos dois lados como um sinal positivo de melhoria das relações. Segundo Qian, o resultado demonstra os avanços recentes. Novos progressos na relação seriam “a cereja do bolo”, afirmou.
Shubhajit Roy, editor sênior de diplomacia do Indian Express, disse ao Global Times na quinta-feira que a visita de Xi é “muito significativa”. As principais áreas de atenção deverão incluir relações estratégicas, políticas, econômicas e entre os povos.
As pessoas esperam um “resultado positivo” entre China e Índia durante a cúpula, observou Saqib.
O especialista indiano destacou as fortes complementaridades entre os dois países: a China possui fortes capacidades em hardware, enquanto a Índia tem vantagens em software e uma grande quantidade de jovens talentos.
Ele ressaltou que a cooperação entre Índia e China é importante não apenas para as relações bilaterais, mas também para o Sul Global e para o mundo como um todo. “Se os dois países trabalharem juntos, o impacto irá muito além da relação bilateral.”
A economia indiana está em expansão, com crescimento do PIB projetado em cerca de 6,8% no ano fiscal de 2025-26. O comércio bilateral de bens com a China chegou a aproximadamente US$ 151 bilhões no ano fiscal de 2025-26, tornando a China o maior parceiro comercial da Índia.
Saqib afirmou que os acontecimentos recentes mostram que a Índia está mais consciente da necessidade de recalibrar suas prioridades de política externa. Havia, entre alguns setores da Índia, a expectativa de que relações mais próximas com os Estados Unidos apoiassem automaticamente o desenvolvimento indiano e de que Washington permanecesse firmemente ao lado de Nova Déli. Na prática, os Estados Unidos atuam de acordo com seus próprios interesses, acrescentou Saqib.
“A China é vizinha da Índia. Os dois países compartilham civilizações antigas e, de muitas maneiras, se compreendem melhor. Também existem profundas conexões históricas e culturais”, disse Saqib.
Roy observou que a reconstrução da confiança continua sendo “um trabalho em andamento” e “não acontecerá da noite para o dia”, mas plataformas multilaterais como o BRICS oferecem oportunidades para que os dois lados compreendam melhor e respondam às preocupações um do outro.
“Se houver um clima de confiança, um clima de cooperação econômica, isso significará uma relação melhor entre os dois países”, afirmou.
Plataforma do Sul Global
A participação de Xi tem um significado mais amplo para o BRICS como plataforma de cooperação do Sul Global, multipolaridade e reforma da governança global.
Qian destacou várias áreas que provavelmente receberão atenção. A cooperação financeira, incluindo acordos em moedas locais e pagamentos digitais transfronteiriços, deverá ser um dos principais focos, com a Índia, como país anfitrião, em posição de promover medidas práticas.
Após a expansão, o BRICS tornou-se um grupo maior. A capacidade da cúpula de construir consenso sobre questões relacionadas à adesão de novos membros, preservando a unidade do mecanismo e mantendo a prioridade da cooperação econômica, será fundamental para seu futuro papel como um pilar mais efetivo da governança global, afirmou Qian.
Nas ruas de Nova Déli, os repórteres do Global Times viram muitos cartazes e faixas com o lema do BRICS: “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability” (“Construindo para a resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”), tema da presidência indiana do BRICS em 2026.
Outros temas em destaque incluem ajustes na voz das instituições financeiras multilaterais, expansão dos negócios e da cobertura do Novo Banco de Desenvolvimento, energia e transição para energias limpas, financiamento verde e respostas coletivas às mudanças climáticas. Questões como governança da inteligência artificial e segurança alimentar também podem levar a esforços para estabelecer posições comuns, segundo especialistas.
Sobre o BRICS especificamente, Saqib observou que, na maioria dos itens da agenda, os interesses da Índia e da China estão alinhados, citando o desenvolvimento do Sul Global e a reforma de instituições como o FMI e o Banco Mundial. Ele ressaltou que a cooperação entre Índia e China dentro do BRICS atende a interesses mais amplos.
Roy destacou que muitos países do Sul Global esperam que Índia e China ampliem sua voz sobre questões como escassez de energia, aumento dos preços e dificuldades econômicas enfrentadas pelos países em desenvolvimento.
A participação de alto nível da China envia um sinal claro de compromisso contínuo com o papel em evolução do grupo na promoção de uma governança global mais inclusiva e da cooperação prática entre economias emergentes, afirmou.
À medida que a contagem regressiva continua, o local está praticamente pronto, e as ruas da capital já exibem sinais da ocasião. Enquanto a cidade anfitriã se prepara, o encontro deverá destacar o papel do grupo no avanço da cooperação prática para um mundo mais inclusivo e multipolar.
Fonte: Brasil 247