Contra Milei, Trump e o imperialismo, as mulheres na linha de frente!
Por Andrea D'Atri — Esquerda Diário
No próximo dia 15 de outubro, desde cedo, teremos um novo encontro nas ruas. A Câmara dos Deputados deverá analisar o DNU 70/23 que, desde o início do governo Milei, concentrou um programa de ataques aos direitos trabalhistas e sociais, de entrega e de pilhagem. A mobilização coincidirá com uma nova Marcha Federal Universitária e com a luta que outros setores vêm travando contra o ajuste e o endividamento, luta na qual nós, mulheres, somos maioria.
Não é uma luta menor: discute-se quem pode se apropriar do nosso território e dos nossos bens comuns. E, em última análise, quem tem o direito de decidir sobre as condições em que vivemos. Por isso, no dia 15 de outubro, é preciso ir às ruas, novamente, como fizemos em 6 de agosto, contra a estrangeirização da terra e pela anulação total do DNU 70/23, já que as manobras do governo estão na ordem do dia e não faltam opositores (inclusive do peronismo) dispostos a oferecer outras alternativas que não afetem o decreto em seu conjunto.
Essa batalha faz parte de uma disputa muito mais ampla: a ofensiva do governo Milei e de seus cúmplices está estreitamente ligada ao projeto de Trump e do imperialismo ianque, não apenas para a Argentina, mas para toda a região. O presidente norte-americano quer transformar a América Latina novamente no quintal dos Estados Unidos. Uma tentativa escandalosa de recolonização do continente, como Myriam Bregman já vem denunciando. E Milei quer ser o melhor aluno desse projeto imperialista, o seu “gatinho mimado”.
A soberania não é um conceito abstrato. Defender o território é também defender as condições materiais para que as mulheres possam viver, produzir e decidir.
As desterradas
A revogação da Lei de Terras significa eliminar um limite à concentração de territórios estratégicos nas mãos de capitais que não têm qualquer interesse nas necessidades de quem vive e trabalha nesses locais. O governo pretende apresentar a eliminação dessas restrições como uma questão de “liberdade” e de “direito à propriedade privada”. Mas a liberdade e a propriedade de quem? Pois, enquanto se abrem as portas para que grandes capitais concentrem a propriedade de extensões cada vez maiores dos nossos territórios, somos milhões os que não conseguem acesso à moradia, pagam aluguéis cada vez mais altos, trabalham cada vez mais horas e se endividam infinitamente para chegar ao fim do mês.
Nós, mulheres, temos menos acesso à propriedade da terra e aos recursos produtivos. Segundo dados oficiais, na Argentina, 77% dos produtores e sócios agropecuários são homens e apenas 22% são mulheres. E, nos casos em que existe documentação das terras trabalhadas por mulheres da agricultura familiar, mais da metade está em nome de homens. No entanto, não estamos ausentes do trabalho na terra. Na agricultura familiar camponesa e indígena dos nossos territórios, as mulheres dedicam, em média, 7 horas e meia diárias a tarefas produtivas e pouco mais de 6 horas a tarefas de cuidado. A venda direta e em feiras também é feminizada: em mais de 80% dos casos, fica a cargo de mulheres. Ou seja, nós, mulheres, produzimos alimentos, sustentamos as economias familiares e reproduzimos a vida. Mas temos menos terra, menos recursos e menos poder de decisão sobre o que geramos.
Por isso, a soberania não é um conceito abstrato. Defender o território é também defender as condições materiais para que as mulheres possam viver, produzir e decidir.
Imperialismo em toda parte
Quando uma potência bloqueia um país, como os EUA fazem com Cuba; quando se impõe um ajuste para pagar a dívida, como na Argentina e em tantos outros países da América Latina; quando o preço dos alimentos aumenta ou os serviços públicos são destruídos, a crise não é “paga” de maneira igualitária. Nós, mulheres da classe trabalhadora, somos quem se torna as grandes “amortecedoras” das crises: cozinha-se de forma mais barata, compra-se menos, adia-se um tratamento médico, abandona-se um trabalho assalariado para cuidar de alguém, dedica-se mais tempo a conseguir alimentos ou medicamentos. E tudo isso representa mais trabalho gratuito que recai sobre os ombros das mulheres, enquanto as condições de vida se empobrecem e se precarizam ainda mais a curto prazo.
Por isso, não é possível construir um feminismo profundamente transformador da vida de milhões de mulheres que não seja também anticapitalista e anti-imperialista.
O Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher das Nações Unidas (que ninguém pode suspeitar de ser comunista) apontou que as sanções norte-americanas contra Cuba agravaram a escassez de alimentos, medicamentos, insumos de saúde, combustível e eletricidade, com um impacto desproporcional sobre mulheres e meninas. Apenas 4 em cada 10 trabalhadores formais são mulheres, e essa disparidade na precarização tende apenas a se aprofundar. Por isso, defender Cuba diante do bloqueio imperialista não significa deixar de apontar as responsabilidades de seu próprio regime de governo, nem as desigualdades e restrições existentes na ilha, que são de longa data. Mas há algo fundamental que precisamos denunciar, levantando as vozes de todos os feminismos da América Latina: Washington não “liberta” nenhuma cubana da opressão burocrática de seu próprio regime político por meio do bloqueio, da fome ou da intervenção militar.
Nossa solidariedade internacionalista é um dever, pois nenhuma emancipação feminista pode vir dos fuzileiros navais nem dos governos que falam em soberania enquanto impõem medidas de austeridade aos seus próprios povos, como na Venezuela. Lá, Trump sequer disfarça sua total falta de preocupação com os direitos democráticos do povo venezuelano. Ele sempre deixou claro o motivo para justificar a invasão de suas tropas e o sequestro de Maduro: o que lhe interessa é o controle político e econômico de um território estratégico, sua posição privilegiada na geopolítica caribenha e seus recursos, a começar pelo petróleo.
E o Brasil não ficou de fora de suas ambições. Nas semanas que antecederam as eleições, o governo Trump intensificou a pressão por meio de tarifas, chantagem comercial e disputas em torno de recursos estratégicos, como petróleo, minerais críticos e terras raras. No La Izquierda Diario, denunciamos as conexões entre setores empresariais ligados ao círculo de Trump e a campanha de Flávio Bolsonaro.
A Bolívia também não escapa das garras da águia ianque. A recente detenção do procurador-geral Roger Mariaca, que investigava Fernando Cerimedo (ex-assessor de Milei, fundador do La Derecha Diario e acusado de tentativa de feminicídio), ocorreu dois dias depois de os EUA revogarem seu visto. Tratou-se de um golpe institucional arquitetado pela DEA, avalizado por Washington e executado pelo governo de Rodrigo Paz para sufocar as investigações que poderiam comprometer seriamente o presidente boliviano, o empresário filho de Trump e seus aliados argentinos.
Não é possível construir um feminismo que transforme profundamente a vida de milhões de mulheres sem que ele seja, também, anticapitalista e anti-imperialista.
Estamos diante de uma disputa sobre quem controla a riqueza que nós, milhões de trabalhadoras e trabalhadores, produzimos. E, para disciplinar essa classe poderosa, em qualquer lugar do mundo, as direitas pretendem começar disciplinando as mulheres. Não é por acaso, então, que Milei, assim como fazem outros governos de direita no continente, ao mesmo tempo em que entrega a soberania e os recursos naturais, ataque os direitos trabalhistas, promova a precarização, corte verbas da saúde e da educação pública e questione direitos conquistados pelo movimento de mulheres, transformando o feminismo em um de seus inimigos prediletos.
Quando Milei fala das “lenços verdes”, quando ataca as políticas de gênero ou questiona o direito ao aborto, ele pretende nos devolver aos papéis tradicionais do âmbito doméstico, em sentido contrário a todos os avanços que conquistamos com nossas lutas. Seu objetivo é domesticar as classes trabalhadoras diante da exploração cada vez mais cruel imposta pelo capital. Quer que nós, mulheres, tenhamos que assumir, gratuitamente, cada vez mais trabalho de cuidado; que não possamos decidir sobre nossos corpos; que nos vejamos cada vez mais submetidas à dependência econômica de outros, independentemente das condições.
Eles promovem ajustes, nós nos organizamos.
Mas nós, mulheres, não somos apenas as vítimas desta ofensiva. Somos protagonistas das resistências. Isso também se reflete no fato de que este 39º Encontro Plurinacional em Córdoba será um dos mais concorridos desde a pandemia e claramente de oposição ao governo. Porque somos centenas de milhares que vivem e sabem que, quando este governo ataca o salário e retira o financiamento da educação e da saúde pública, ataca as mulheres; quando os aluguéis ficam mais caros e as políticas públicas de cuidado são destruídas, atacam as mulheres.
Por isso, estamos à frente de todas as lutas: em defesa do Hospital Garrahan e da lei nacional de pediatria; pelo aumento salarial dos docentes, mesmo que os governos provinciais descontem o dia de greve; pela aplicação da lei que conquistamos nas ruas para pessoas com deficiência e pelo financiamento da universidade pública; pela defesa dos postos de trabalho na FATE e em todas as empresas que fecham e demitem; pela lei de terras e por todas as causas de defesa do meio ambiente e dos bens comuns. Mais uma vez, em 15 de outubro, o movimento de mulheres e os feminismos precisam fazer parte da resposta de toda a classe trabalhadora aos ataques da Suprema Corte, do governo Milei, de seus cúmplices e do imperialismo.
Somos inspiradas pelas mulheres que se mobilizam no centro de Madri para impedir despejos e lutar pelo direito à moradia. Mas, especialmente, pelas jovens que, lá e na França, contra os cortes e em defesa da educação , enfrentam as provocações dos fascistas do Vox ou a repressão brutal ordenada por Macron (com centenas de feridos e milhares de detidos), unindo-se à classe trabalhadora e às manifestações contra o serviço militar obrigatório na Alemanha; todas enfrentando seus governos imperialistas europeus. Há algo profundo em jogo nessas rebeliões: vai às ruas uma geração que não aceita que seu futuro se resuma a formar-se para conseguir um emprego precário, endividar-se até a velhice para pagar aluguel, pagar impostos para financiar guerras e o genocídio em Gaza, e aceitar que recursos públicos sejam destinados a salvar os lucros de empresas e corporações. Elas dizem “basta” e nos enchem de orgulho. Mostram que existe uma saída diferente da resignação pregada aqui pela maioria da oposição política.
No dia 15 de outubro, temos a oportunidade de seguir o exemplo delas. Unamos nossas pautas feministas a todas as lutas em curso; a fragmentação só serve aos interesses do governo. A “Marcha da Indignação” (Marcha de la Bronca) de 19 de setembro mostrou que, quando avançamos na articulação, a força ganha outra dimensão. E, com essa força, exijamos que a CGT, as CTAs e todas as organizações sindicais convoquem uma paralisação nacional ativa, como início de um plano de luta mais ambicioso, decidido democraticamente em assembleias de base, que prepare as condições para uma greve geral.
Com as mulheres à frente, pois se há algo que sabemos fazer muito bem é organizar e sustentar as lutas e uns aos outros; Porque sabemos muito sobre como transformar um problema que parece individual em uma demanda coletiva. Porque colocamos o corpo, além das ideias, e podemos transformar a indignação em uma força que ocupe as ruas até derrotar aqueles que declararam guerra aos povos oprimidos do mundo e às classes trabalhadoras, e que apontaram seus canhões, primeiramente, contra nós.
Com o Pan y Rosas e os comitês por um partido da nova classe trabalhadora que estamos impulsionando em todo o país, propomos construir essa enorme mobilização desde já, em todos os locais de estudo e de trabalho, nos bairros e com todas as organizações sindicais, estudantis, ambientais, de direitos humanos, de diversidade sexual e feministas que compartilhem essa perspectiva.
Matéria original disponível em espanhol no La Izquierda Diário. Traduzida para português por Abayomi Abebe.
Fonte: Esquerda Diário