Conflito no Iêmen está se transformando em guerra regional

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Por José Reinaldo — Brasil 247

247 – As forças do governo do Iêmen, apoiadas pela Arábia Saudita, lançaram uma ofensiva contra os houthis em meio à disputa pelo controle de áreas próximas ao Estreito de Bab el-Mandeb. O movimento, apoiado pelo Irã, respondeu com ataques de mísseis e drones contra alvos sauditas. Segundo a RT, os dois lados reivindicam conquistas territoriais, enquanto dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) apontam mais de 184 mil pessoas deslocadas pelos combates desde o início de agosto.

A RT relata a intensificação das operações na costa do Mar Vermelho e em outras frentes do território iemenita. A escalada ocorre após os houthis assumirem, em setembro, o controle de áreas estratégicas ao redor de Bab el-Mandeb, passagem marítima que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, por essa rota, ao Oceano Índico.

O exército iemenita afirmou na segunda-feira (5) que avançou para o norte pela costa, em direção a Mocha, e anunciou “uma operação ofensiva estratégica em Sanaa”. A cidade está sob controle dos houthis e funciona como centro político do movimento.

Os houthis contestaram os avanços anunciados pelo governo e disseram ter conquistado posições nos arredores de Taiz, a aproximadamente 80 quilômetros da costa do Mar Vermelho. As versões apresentadas pelos adversários sobre o controle territorial não têm confirmação independente no material divulgado.

Na Arábia Saudita, o grupo reivindicou ataques contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, bases militares e instalações petrolíferas da Aramco, entre elas a refinaria de Rabigh. Segundo a RT, as autoridades sauditas confirmaram danos nos aeroportos de Jizan e Najran. Essa confirmação não abrange todos os alvos mencionados pelos houthis.

Também circularam relatos de um incêndio em uma instalação petrolífera da Aramco em Jeddah após um suposto ataque de longo alcance. Vídeos publicados na internet mostram chamas e uma coluna de fumaça escura, mas a própria cobertura informa que as imagens não foram verificadas.

O avanço dos combates atinge também a população civil. A Al Jazeera, citada pela RT, informou que pelo menos seis civis morreram e quatro ficaram feridos em ataques atribuídos ao Ansar Allah, nome pelo qual o movimento houthi também é conhecido, no sul da província de Taiz. Os números foram atribuídos ao Ministério do Interior iemenita sediado em Áden.

De acordo com a OIM, a maior parte das mais de 184 mil pessoas obrigadas a deixar suas casas desde agosto foi deslocada a partir do início de setembro. “Cada vez mais pessoas são lançadas em um ciclo terrível de deslocamento”, afirmou a diretora-geral da organização, Amy Pope.

A ameaça de novos ataques levou a embaixada britânica na Arábia Saudita a orientar seus cidadãos a manterem atenção aos alertas oficiais e às instruções das autoridades locais. A representação diplomática advertiu que o país continua sujeito a “ataques de mísseis e drones, tendo como alvos cidades, aeroportos, instalações militares e infraestrutura energética”.

Nas frentes de batalha, as forças governamentais divulgaram vídeos apresentados como registros de operações em Marib e Taiz. Segundo o exército, as imagens mostram confrontos na região montanhosa de Jabal Habashi, ataques de drones contra posições houthis e disparos de artilharia contra um veículo militar no sul de Marib. As alegações sobre os resultados dessas ações também não foram verificadas de forma independente no conteúdo fornecido.

A participação de outros países acrescenta uma dimensão regional ao confronto. A RT informou que Arábia Saudita, Turquia e Paquistão concordaram em mobilizar forças no âmbito do Acordo Conjunto de Defesa de Meca e que a coalizão anunciou o emprego de 100 aviões de guerra em apoio à ofensiva iemenita.

Há, entretanto, avaliações divergentes na própria cobertura sobre o estágio de implementação do pacto. A professora assistente da Universidade Batman, Dünya Başol, disse à RT que a proposta permanece “em suspenso”. Segundo ela, o acordo ainda não foi ratificado, não dispõe de uma estrutura comum de comando e não estabelece com clareza os limites entre defesa coletiva, dissuasão, contra-ataques e operações ofensivas.

Başol avaliou que a Turquia poderia fornecer equipamentos contra drones, sistemas de defesa aérea e recursos de inteligência, vigilância e reconhecimento à Arábia Saudita por meio de acordos bilaterais, antes de um eventual envio de tropas. Ela também alertou que militares e equipamentos turcos destacados em território saudita ou iemenita poderiam se tornar alvos dos houthis.

O pesquisador saudita Salman al-Ansari apresentou outra avaliação. Em entrevista à RT, afirmou que os houthis “não têm outra opção a não ser se render” diante da pressão militar. Ele descreveu o pacto de Meca como primordialmente defensivo, voltado à troca de informações e à proteção da Arábia Saudita, e disse que uma eventual presença turca e paquistanesa serviria principalmente para dissuadir ameaças regionais.

Al-Ansari também rejeitou a interpretação de que Riad teria solicitado uma intervenção direta dos Estados Unidos. Segundo o pesquisador, o apoio buscado junto a Washington envolve inteligência e assistência na definição de alvos.

Do lado houthi, o porta-voz Mohammed al-Bukhaiti afirmou à RT que o movimento dispõe de armamentos para sustentar o confronto e mantém arsenais destinados a diferentes tipos de conflito. “O Iêmen tem suprimentos suficientes para continuar lutando para sempre”, declarou. Ele atribuiu essa capacidade à produção própria de armas e à adaptação dos equipamentos para enfrentar as defesas sauditas. A declaração representa a avaliação do grupo sobre sua capacidade militar.

A disputa por Bab el-Mandeb ganha relevância adicional em meio às perturbações no Estreito de Ormuz associadas à guerra entre Estados Unidos e Irã, conforme o contexto apresentado pela RT. As duas passagens têm importância estratégica para a navegação e o transporte de energia na região.

A fase atual do conflito iemenita remonta à tomada de Sanaa pelos houthis em 2014, seguida por uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita. Os combates haviam diminuído consideravelmente após o cessar-fogo de 2022. A nova ofensiva e os ataques contra território saudita ocorrem após esse período de redução das hostilidades.

Fonte: Brasil 247

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