Como os aterros sanitários transformaram um problema ambiental em oportunidade de negócio
umsoplaneta

Todos os dias, milhares de toneladas de resíduos chegam aos aterros sanitários. O que até pouco tempo era apenas uma fonte de gastos para as empresas e prefeituras, que “resolviam” o problema do lixo contratando uma empresa para enterrá-lo, agora está se tornando uma fonte de receita relevante, adotando um conceito de economia circular do lixo. De um lado, o chorume proveniente da decomposição do lixo enterrado é transformado em lodo e, então, biofertilizante, usado na agricultura. De outro, a partir do biogás capturado em canos dispersos pelos milhares de metros quadrados de um aterro sanitário, é filtrado o biometano, que pode ser utilizado em transportes e como fonte-combustível em operações industriais.
“Se pensarmos que o Brasil gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, a oportunidade é grande”, comenta Diogo Arantes, superintendente de operações da Orizon Valorização de Resíduos. A Orizon opera diversos aterros sanitários, como o da Grande Recife (PE), Jaboatão de Guararapes (PE), Nova Iguaçu (RJ), Sabará (MG), Presidente Prudente (SP) e o ecoparque de Paulínia (SP), um dos mais avançados do país em práticas de economia circular.
Por dia, o Ecoparque da Orizon em Paulínia recebe cerca de 4,5 mil toneladas de resíduos de mais de 26 cidades da região, onde vivem mais de 3 milhões de pessoas. Dentro dos 2,5 milhões de metros quadrados, a empresa foca em reaproveitar os resíduos em diversas frentes. A triagem inicial, por exemplo, permite identificar itens que podem ser enviados à reciclagem, como vidros, plásticos, papelão e alumínio.
Já o chorume, é tratado em uma estação dentro do ecoparque, com a água sendo reutilizada na irrigação da grama do aterro, e seu subproduto, o lodo, é transformado em biofertilizante em parceria com a Tera Ambiental. A produção de biofertilizante orgânico, feita em uma área dedicada dentro do ecoparque, chega a cerca de 1.600 toneladas por mês, comercializada a produtores rurais.
Mas é o biogás que apresenta o maior potencial econômico. Estudos da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA) indicam que apenas direcionar resíduos de cidades com mais de 320 mil habitantes para aterros com plantas de biometano permitiria produzir 2,86 milhões de metros cúbicos por dia do biocombustível.
O Brasil produz cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. Desse volume, apenas 58,5% chega a aterros sanitários, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Isso significa que, além do desafio de ampliar a destinação adequada do lixo, existe uma oportunidade de aproveitar melhor o gás produzido nos aterros que já operam.
Unidade da OneBio no Ecoparque da Orizon em Paulínia (SP) tem capacidade de produção de 225 mil m³ por dia de biometano a partir de resíduos sólidos urbanos
Naiara Bertão/ Um Só Planeta
Lançada em março de 2026, a OneBio, produtora de biogás criada a partir de uma joint venture da Orizon com a Edge, empresa de gás do grupo Cosan, é hoje a maior planta de biometano do Brasil e a terceira maior do mundo em capacidade de produção, de até 225 mil metros cúbicos (m³) de biometano por dia. O investimento, de R$ 450 milhões, foi financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), incluindo R$ 360 milhões do Fundo Clima.
“Adotamos o conceito de Waste-to-Energy (WtE), tecnologia que transforma resíduos sólidos urbanos em formas úteis de energia, como eletricidade, calor e combustíveis alternativos e é uma das principais tendências para o setor”, comenta Diogo Arantes.
Ele destacou que o segmento de destinação de resíduos vêm se transformando na última década, principalmente buscando soluções em economia circular que, na linha final, também é uma estratégia econômica bem sucedida.
“Um aterro hoje não se parece com nada do que está no imaginário das pessoas”, aponta, citando a limpeza do parque, a cobertura vegetal dos montes de lixo, a ausência de cheiro característico em boa parte do tempo e o desenvolvimento, cada vez maior, de ecossistemas de negócios circulares dentro da propriedade.
No caso do biometano, sua produção resolve um problema ambiental histórico, que é a liberação de metano à atmosfera por meio da captura e do aproveitamento energético do biogás gerado pela decomposição dos resíduos, e ainda gera renda. Segundo a Edge, a operação evita a emissão de mais de 100 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) por ano. O investimento em economia circular também permite que a Orizon certifique e venda créditos de carbono gerados no aterro de Paulínia.
Além de possibilitar o aproveitamento energético dos resíduos e , o WtE (Waste-to-Energy), reforça Arantes, contribui para a redução do volume de lixo destinado aos aterros sanitários. No entanto, para minimizar impactos ambientais, é fundamental utilizar sistemas adequados de controle e tratamento das emissões geradas durante o processo.
A lógica por trás do negócio é relativamente simples. Dado o volume alto de lixo descartado pela população e que chega ao aterro todos os dias – ou melhor, todas as horas, é possível ter abundante matéria-prima para produzir biogás a partir da decomposição do material. O biogás é, então, captado e posteriormente purificado. O resultado é um combustível que pode substituir, total ou parcialmente, o gás natural em diferentes usos, o biometano.
Esse processo pode ocorrer por diferentes métodos, como a combustão, que utiliza o calor da queima dos resíduos para produzir vapor e gerar eletricidade; a biodigestão anaeróbia, que converte resíduos orgânicos em biogás e biofertilizantes; e a pirólise, que transforma determinados materiais, como plásticos, em combustíveis.
A vantagem dessa matéria-prima é a continuidade. Diferentemente de fontes de biogás associadas à produção agrícola, cuja disponibilidade pode acompanhar ciclos de safra, os resíduos urbanos chegam aos aterros diariamente. Para a Edge, essa regularidade ajuda a dar previsibilidade à produção de combustível.
“Como o aterro recebe resíduos continuamente, a produção não está diretamente vinculada a ciclos agrícolas ou períodos de safra, como ocorre com algumas outras matérias-primas utilizadas na produção de biometano”, afirma Catarina Amaral, diretora de Operações, Logística e Tecnologia da Edge.
Arantes, da Orizon, explica que um aterro leva entre dois a quatro anos recebendo resíduos para ter volume suficiente de biogás para a produção do biometano em escala – e justificar o investimento da instalação de um parque de energia.
Na OneBio em Paulínia, a Orizon opera o aterro e capta o biogás, enquanto a Edge cuida da purificação, da produção e da comercialização do biometano.
O biometano já começa a deixar de ser apenas uma possibilidade tecnológica e passa a fazer parte da matriz energética de empresas. A indústria aparece entre os principais mercados interessados, especialmente porque a substituição pode ocorrer sem grandes mudanças nos equipamentos.
Na prática, o biometano tem a mesma molécula do gás natural. Quando injetado na rede de distribuição, pode chegar aos consumidores pela infraestrutura existente e ser utilizado nos mesmos equipamentos. Também é possível misturar as duas fontes, permitindo uma substituição gradual.
“Na prática, isso permite que o cliente tenha acesso a uma fonte renovável sem precisar alterar sua operação”, diz Catarina, da Edge.
Um estudo de avaliação de ciclo de vida citado pela Edge indica que um caminhão pesado abastecido exclusivamente com biometano, por exemplo, pode emitir 87% menos gases de efeito estufa do que um equivalente movido a diesel. Com uma mistura de 50% de biometano e 50% de gás natural, a redução estimada é de 56%.
O avanço do biometano a partir de resíduos de aterros acontece em um momento de expansão da produção em São Paulo. O Estado concentra nove das 21 plantas de biometano em operação no Brasil. Outras 12 unidades paulistas estão em processo de autorização na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A capacidade instalada paulista passou de cerca de 5 mil metros cúbicos por dia no fim de 2022 para mais de 700 mil metros cúbicos por dia, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). A meta do Estado é alcançar 1 milhão de metros cúbicos diários entre 2026 e 2027. O número de licenças ambientais emitidas pela Cetesb para projetos de biogás e biometano passou de 26 em 2024 para 87 em 2025.
Para a Secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Governo de São Paulo, Natália Resende, o avanço se explica pela previsibilidade regulatória. “Aumenta muito os investimentos, porque há estabilidade maior para investir. São setores que estão avançando, inovadores, e precisam dessa segurança para se desenvolver”, afirmou.
Em dezembro de 2025, a Arsesp publicou norma que criou a TUSD-Verde, pela qual os custos de conexão das plantas à rede de gás canalizado são pagos exclusivamente pelos fornecedores de biometano, sem impacto para os demais usuários, evitando subsídios cruzados para os consumidores convencionais de gás encanado.
O Aterro Sanitário de Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, deverá se tornar um dos principais polos de produção de biometano do país nos próximos anos. A unidade, operada pela Solví em parceria com a MDC Energia, produz atualmente cerca de 67 mil a 70 mil metros cúbicos de biometano por dia, a partir do biogás gerado pela decomposição dos resíduos. O aterro recebe aproximadamente 10,5 mil toneladas de resíduos diariamente e é considerado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) o maior aterro sanitário da América Latina.
A produção deve crescer de forma escalonada, até chegar a 400 mil m³/dia em 2030. O avanço será acompanhado pela conexão da planta à rede da Comgás, aprovada pela Arsesp em maio de 2026. Para isso, estão previstos cerca de 5,3 quilômetros de rede e uma estação de transferência de custódia (Bio-Citygate), permitindo que o combustível renovável deixe de depender exclusivamente do transporte em carretas de gás natural comprimido e passe a ser distribuído pela infraestrutura canalizada.
Os aterros são apenas uma das fontes possíveis. Um estudo contratado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp ) estima que São Paulo tenha potencial para produzir 6,4 milhões de metros cúbicos de biometano por dia. Mais de 80% desse potencial estaria no setor sucroenergético, a partir de resíduos como vinhaça, torta de filtro, bagaço e palha. Segundo o mesmo estudo, a cadeia pode gerar até 20 mil empregos diretos, indiretos e induzidos.
Mais Lidas
Fonte: umsoplaneta