Como o voto pode mudar a vida de quem mais precisa: salário mínimo, Bolsa Família e Pé-de-Meia
Por rosesilva — Fundação Perseu Abramo
O Brasil chega à reta final das eleições de 2026 fora do Mapa da Fome da ONU. O país deixou essa classificação em 2025 e permaneceu fora dela no levantamento mais recente. Isso não significa que a fome tenha acabado. Significa que a proporção de pessoas em situação de subnutrição caiu abaixo do limite de 2,5% usado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Preservar esse avanço exige decisões sobre renda, serviços públicos e investimento.
É para aproximar essas decisões da vida cotidiana que mais de 100 economistas e 60 organizações da sociedade civil lançaram a Vida em Conta. Articulada pela Plataforma Cipó e pelo Transforma, a iniciativa reconhece a retomada de políticas públicas desde 2023 e alerta que sua continuidade não está assegurada.
“Há o risco de retorno a uma agenda que combine restrições permanentes ao investimento público, enfraquecimento dos serviços e das instituições públicas e desonerações tributárias sem contrapartidas claras para o desenvolvimento, comprometendo a proteção social e ambiental, prejudicando o crescimento econômico”, dizem as entidades participantes.
Para a diretora-executiva da Plataforma Cipó, Maiara Folly, os indicadores econômicos precisam ser lidos à luz de seus efeitos sobre a população. “O crescimento econômico é fundamental, mas também importa como seus benefícios são distribuídos. Uma economia bem-sucedida é aquela que reduz desigualdades e transforma as capacidades e riquezas do país em avanços tecnológicos, empregos de qualidade e melhores condições de vida para a população”, afirma.
A Vida em Conta propõe reduzir desigualdades de renda, riqueza, gênero, raça e território; enfrentar o custo de vida; fortalecer serviços essenciais; ampliar a capacidade tecnológica do país; gerar empregos de qualidade; e orientar a tributação e o orçamento para essas prioridades. O debate, portanto, vai além da preservação dos programas existentes: trata também do que ainda falta chegar à vida das famílias.
“O Brasil precisa ter a ambição de definir uma agenda de transformação social diante do novo cenário global. Não podemos ficar presos apenas às discussões fiscais de curto prazo frente às mudanças climáticas, tecnológicas e nos processos de trabalho. Precisamos avançar em uma agenda que nos livre dos retrocessos e garanta oportunidades econômicas e direitos sociais”, destaca o diretor-executivo do Transforma, Marco Antonio Rocha.
Salário mínimo: reajuste que alcança milhões
A política de valorização do salário mínimo procura garantir aumentos acima da inflação. A diferença é decisiva: um valor maior no contracheque só representa ganho real quando também permite comprar mais.
O piso era de R$ 1.302 no início de 2023 e passou a R$ 1.320 em maio daquele ano. Chegou a R$ 1.412 em 2024, a R$ 1.518 em 2025 e a R$ 1.621 em 2026. O projeto de Orçamento de 2027 estima R$ 1.741, valor que ainda poderá mudar conforme o índice de inflação usado no cálculo final. Se confirmado, serão R$ 439 a mais que no início de 2023, uma alta nominal de aproximadamente 33,7%.
O alcance dessa decisão vai além dos trabalhadores que recebem o piso. Ele serve de referência para aposentadorias, pensões, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e outros pagamentos. Estimativas oficiais apontam que cerca de 60 milhões de brasileiros são diretamente afetados pelo valor do salário mínimo.
Bolsa Família: recomposição do poder de compra
O Bolsa Família atende famílias em situação de pobreza com renda mensal de até R$ 218 por pessoa. A partir da folha de outubro, seus benefícios terão reajuste de 15,04%, correspondente à inflação medida pelo INPC entre março de 2023 e agosto de 2026.
Com a recomposição, o mínimo garantido por família passa de R$ 600 para R$ 691. O benefício médio estimado sobe de R$ 675 para R$ 777. O pagamento efetivo varia conforme a composição familiar; R$ 691 é o piso, não um valor igual para todos. O reajuste já foi definido, mas a preservação do poder de compra do programa nos próximos anos seguirá dependendo das decisões de governo e de orçamento.
BPC: renda para idosos e pessoas com deficiência
O BPC garante um salário mínimo mensal a pessoas com 65 anos ou mais e a pessoas com deficiência de qualquer idade que atendam aos critérios de baixa renda. A renda familiar por pessoa deve ser de até um quarto do salário mínimo. Como se trata de um benefício assistencial, não é necessário ter contribuído para o INSS; a manutenção do pagamento depende da continuidade do atendimento às regras.
As informações complementares ao projeto de Orçamento de 2027 projetam cerca de 6,45 milhões de beneficiários em dezembro daquele ano. O BPC é um direito previsto em lei: seu pagamento não depende apenas da vontade de um governante. Já as condições de acesso, a gestão e os recursos necessários para atender quem tem direito integram as escolhas feitas pelo poder público.
Gás do Povo: o botijão no orçamento doméstico
O Gás do Povo oferece a famílias de baixa renda um vale para a recarga gratuita do botijão de 13 quilos em revendas credenciadas. Para participar, é preciso estar no Cadastro Único, com os dados atualizados, e ter renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa. A política alcança cerca de 15 milhões de famílias, aproximadamente 50 milhões de pessoas. Além de aliviar uma despesa essencial, o acesso ao gás reduz a necessidade de cozinhar com lenha ou carvão, prática associada a riscos à saúde e a acidentes domésticos.
Pé-de-Meia: permanecer na escola também custa
Criado para estimular a permanência e a conclusão do ensino médio público, o Pé-de-Meia paga incentivos a estudantes de famílias inscritas no Cadastro Único, inclusive da educação de jovens e adultos. O programa atende mais de 4 milhões de estudantes. O governo estuda estendê-lo a todos os alunos do ensino médio público em 2027, medida que exigiria recursos adicionais e ainda depende de definição orçamentária.
Um estudo do Núcleo de Estudos Raciais do Insper estima, a partir dos efeitos esperados do programa sobre a permanência escolar, cerca de 372 mil conclusões adicionais do ensino médio por ano. Os pesquisadores projetam R$ 184,6 bilhões em benefícios econômicos e sociais associados à maior escolaridade ao longo da vida desses jovens. São resultados potenciais calculados pelo estudo, não formaturas ou ganhos financeiros já registrados.
Salário, comida, gás e a possibilidade de concluir os estudos dão dimensão concreta ao debate sobre as contas públicas. A eleição não extingue automaticamente direitos nem assegura, por si só, a continuidade de cada programa. Mas o voto ajuda a definir quem conduzirá o governo e quem decidirá, no Congresso, os recursos, os reajustes e o alcance dessas políticas nos próximos anos.
Fonte: Fundação Perseu Abramo