Como as tecnologias levam o povo a votar contra os próprios interesses
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
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A lógica das redes amplifica conflitos, recompensa o extremismo e desloca o debate público para o terreno das emoções. Quem realmente decide?
A polarização tem corroído as relações pessoais e institucionais. Mas quem iniciou essa fissura que nos faz encontrar inimigos na própria sombra? Há pelo menos 15 anos, as tecnologias digitais têm sido uma poderosa ferramenta de uma guerra híbrida capaz de transformar qualquer cidadão comum em um robô letal.
Quando Isaac Asimov apresentou as três leis da robótica, em 1942, imaginava-se que os robôs poderiam aprender, com os humanos, regras destinadas a orientar seu comportamento. No entanto, se os próprios humanos, deliberada e irresponsavelmente, falham em sua capacidade de interpretação a ponto de considerar a defesa de direitos sociais um sinal de “esquerdismo” ou “comunismo”, como esperar que robôs dotados de superinteligência aprendam a não ser nocivos a ponto de representar uma ameaça à própria existência da “humanidade”?
Enquanto a guerra híbrida atua como um câncer, corroendo a sociedade por dentro, ela também reproduz ideias de uma Guerra Fria requentada, na qual até a bipolaridade entre “comunismo” e “capitalismo” — que, no contexto atual, já não faz sentido algum — (re)volta à cena. Com o auxílio das novas tecnologias, uma avalanche de ideias sem sentido ganha visibilidade e, consequentemente, seguidores.
A desinformação reflete um mundo em que o oportunismo e a esperteza são considerados sinais de inteligência. E aquilo que a IA aprende é justamente esse calculismo, no qual não são a verdade ou os fatos que importam, mas quem — ou o que — é capaz de gerar volume de dados suficiente para tornar o improvável verossímil.
Assim, quanto mais absurda for uma notícia, mais atenção ela tende a atrair. Jogadores de videogame norte-americanos tornam-se “influencers” a partir de qualquer tipo de afirmação, mesmo quando dizem que a Terra é plana. É assim que a tecnocracia premia aqueles que têm maior fluência e acesso aos meios tecnológicos.
A política antes das telas
Faço parte de um tempo em que a vida era 100% presencial. Tínhamos gravados na memória os números de telefone para os quais precisaríamos ligar. Naquela época, podíamos ser surpreendidos pela mágica das coincidências. Hoje, por genuínas razões, desconfiamos permanentemente das manipulações produzidas pelos algoritmos.
Somos a “Geração X”, que viu o Brasil sair de um longo período de ditadura e cresceu ouvindo histórias de pessoas que foram presas, torturadas ou obrigadas a fugir do País. Não por terem vandalizado o patrimônio público ou as sedes dos Três Poderes, como nos episódios ocorridos em Brasília em 8 de janeiro de 2023, mas, em muitos casos, apenas por participarem de reuniões estudantis em escolas, universidades e associações.
Testemunhamos a possibilidade de voltar a ter voz política depois de anos de silêncio. Orgulhávamo-nos de dizer verdades que haviam permanecido silenciadas por anos. Organizamos o movimento estudantil, apoiávamos as greves dos sindicatos e íamos às ruas, seja para participar de manifestações, seja para colar cartazes pela cidade e conversar com a população, com o objetivo de ampliar o engajamento político.
Reuníamo-nos na sede da UNE para debater pautas, reivindicações e estratégias que pudessem somar à luta por direitos sociais, educação, cultura, trabalho e saúde. E assim olhávamos para um futuro melhor: um futuro de democracia e prosperidade para a maioria, pautado pelo respeito à justiça e aos direitos fundamentais.
Será que tudo isso está hoje esquecido? Será que o povo está decidindo, como em um “Big Brother”, quem será a pessoa a ganhar o milhão — ou, no caso das eleições, quem terá o privilégio de decidir os rumos dos impostos pagos pela nação, além de ter acesso a recursos públicos que podem ser utilizados em benefício próprio?
Nesse caso, a preferência nem sempre diz respeito à confiança no caráter ou nas capacidades adquiridas por meio da experiência de vida ou dos estudos, mas à ilusão de exercer o poder de escolher, ainda que essa escolha seja movida pela contrariedade, pelo ressentimento ou pelo desejo de vingança. O jogo político é disputado por gladiadores sustentados por ideias invisíveis, que colocam o maniqueísmo e o niilismo de mãos dadas.
Quem escolhe por nós?
O mundo digital é um mundo guiado por um jogo cego, no qual não há presença sensorial entre corpos de carbono. Há apenas uma presença virtual, mediada por telas planas constituídas de silício. Não é preciso revelar a identidade, nem se responsabilizar por nada: ações, decisões, palavras. No caso das eleições, as más decisões são sentidas por todos, e alguns processos de perda de direitos conquistados podem deixar para trás qualquer utopia humanista e democrática.
Se o sonho de um convívio pacífico entre os povos está morrendo e a humanidade segue rumo à própria extinção, existem responsáveis. Primeiro, é preciso entender quem está por trás das “estratégias de marketing invisíveis”, pois elas podem ser elaboradas para desviar a atenção dos debates importantes no cenário político, deslocando o desejo de participar e ter voz para um lugar de raiva, ressentimento e medo.
Também é preciso compreender por que, se no Brasil a Lei nº 9.504/1997 proíbe propaganda eleitoral em bens de uso comum, incluindo templos e igrejas, na prática líderes religiosos se candidatam ou pedem votos para seus candidatos durante os cultos, e pouco se faz a respeito para evitar o abuso da boa-fé daqueles que buscam apoio espiritual.
Seria altruísmo pensar que, a despeito dos direitos individuais, trabalhistas, de cidadania e de outros mecanismos de promoção da justiça social, é mais importante “livrar a humanidade do mal” e acreditar em alguns poucos — de vida, histórico e práticas duvidosas — que apontam qual seria esse mal?
Às vezes, para “livrar a humanidade do mal”, é preciso primeiro criar esse mal.
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Fonte: Carta Capital