Com mais de 10 milhões de votos, número de pessoas LGBT+ eleitas quase dobra em 2026
Por Leonardo Sobreira — Brasil 247
247 – As urnas das eleições de 2026 deixaram um recado claro: a representação LGBT+ cresceu, ganhou território e chegou mais longe. O número de pessoas LGBT+ eleitas quase dobrou, passando de 18, em 2022, para 35 neste ano. Juntas, essas candidaturas receberam 10.746.125 votos e conquistaram cadeiras no Senado Federal, na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e na Câmara Distrital. Além dos números, o resultado revela uma presença política que se consolida, se diversifica e se amplia. São mulheres, pessoas negras, pessoas trans e travestis, pessoas bissexuais e pansexuais ocupando espaços de decisão e levando para a política diferentes experiências, agendas e perspectivas. Em meio aos desafios que ainda permanecem, esse resultado aponta para uma democracia mais diversa e para novos caminhos de futuro.
O levantamento do Instituto Plena Cidadania (IPC), organização da sociedade civil dedicada ao desenvolvimento de infraestrutura democrática no Brasil e responsável pelo VoteLGBT, identificou 519 candidaturas LGBT+ concorrendo em 2026, contra 327 em 2022, crescimento de 58,7%. No Congresso Nacional, a representação LGBT+ na Câmara dos Deputados mais que triplicou, passando de quatro para 13 pessoas eleitas, enquanto o Senado manteve uma representante LGBT+. Nos legislativos estaduais e distrital, foram eleitas outras 21 pessoas.
O avanço também foi marcado pela diversidade de perfis entre as pessoas eleitas. Das 35 pessoas LGBT+ eleitas, 27 são mulheres (77,1%) e 22 são pessoas negras (62,9%). Sete mulheres trans e travestis também conquistaram cadeiras, o equivalente a uma em cada cinco lideranças LGBT+ eleitas em 2026. Os resultados ampliam a presença LGBT+ na política e a presença de grupos historicamente sub-representados nos espaços de decisão.
Uma presença mais distribuída pelo país
As candidaturas LGBT+ estiveram presentes nas 27 unidades da federação, e as pessoas eleitas passaram de oito estados, em 2022, para 14, ampliando a presença LGBT+ no mapa da representação política brasileira. O Sudeste concentra 20 das 35 cadeiras, mas sua participação caiu de 72,2% para 57,1%. O Nordeste passou de duas para sete eleitas, enquanto Centro-Oeste e Sul passaram de uma para quatro cada. No Norte, não houve eleitas. Seis estados elegeram pessoas LGBT+ pela primeira vez: Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Santa Catarina.
A representação partidária permanece concentrada no campo progressista. Todas as 35 pessoas LGBT+ eleitas concorreram por partidos de esquerda (PT e PSOL reúnem 31 das cadeiras, com 17 e 14 eleitas, respectivamente, seguidos pelo PCdoB, com três, e pelo PV, com uma). Essa concentração reflete a estrutura de financiamento de campanha: no levantamento do IPC sobre financiamento das campanhas de 2024, menos da metade das eleitas LGBT de partidos de centro e direita contaram com financiamento de campanha vindo de seus partidos. Entre as eleitas filiadas a partidos de esquerda, mais de 80% obtiveram repasse. Em 2026, a falta de recursos e o acesso desigual ao financiamento foi apontado por 76% das candidaturas como a principal barreira da disputa.
O avanço eleitoral aconteceu apesar da violência política
O mesmo processo eleitoral que ampliou a representação LGBT+ também foi marcado pela violência política. Em pesquisa do Instituto Plena Cidadania com 197 candidaturas, 94% relataram ter sofrido algum episódio de violência política durante a disputa eleitoral, e 81,8% relataram episódios considerados graves. Os dados revelam o tamanho do desafio, mas também ajudam a dimensionar a força da conquista de 2026: mesmo diante desse cenário, 35 pessoas LGBT+ chegaram às urnas e aos espaços de poder.
Os ataques, campanhas de ódio e assédio nas redes sociais foram relatados por 68% das candidaturas e aparecem entre as formas mais frequentes de violência. Em média, cada pessoa respondente relatou aproximadamente seis situações de violência política, enquanto 48% disseram ter passado por sete ou mais episódios.
A violência também se intensifica entre as lideranças que chegaram aos espaços de poder. Entre as 35 pessoas LGBT+ eleitas, 11 responderam ao questionário de pesquisa, e todas relataram ter sofrido ao menos um episódio de violência política grave. Ataques nas redes sociais e silenciamento foram relatados por todas as respondentes, enquanto 90,9% relataram ataques verbais, ofensas ou discursos LGBTfóbicos.
Entre as eleitas respondentes que sofreram violência, 72,7% afirmaram ter denunciado ao menos um dos episódios.
Mais votos, mais representação
O relatório também mostra que a cidadania LGBT+ aparece entre as prioridades de 87,9% das pessoas eleitas, acompanhada por temas como luta antirracista, direitos das mulheres, educação, meio ambiente, direitos trabalhistas, moradia e combate à fome.
Em 2026, candidaturas bissexuais e pansexuais também tiveram crescimento expressivo: passaram de 103 para 207 candidaturas, enquanto o número de eleitas subiu de sete para 16, quase metade das cadeiras LGBT+ conquistadas.
Os números deste ano contam uma história de crescimento eleitoral, mas também de mudança: pessoas que antes estavam à margem dos espaços de decisão agora ocupam esses lugares, disputam projetos, constroem agendas e participam das decisões sobre o país que queremos construir. Se o futuro exige novas respostas para velhos desafios, a presença LGBT+ na política brasileira mostra que parte dessas respostas já está em movimento.
“Os resultados dessas eleições mostram que a violência não foi capaz de impedir o avanço da representação LGBT+ na política brasileira. Pelo contrário: temos mais pessoas LGBT+ eleitas, mais diversidade nos espaços de poder e milhões de brasileiros e brasileiras dizendo, pelo voto, que querem essa presença na democracia. Isso é uma conquista que precisa ser celebrada. As lideranças LGBT+ estão resistindo, chegando, ocupando, construindo e apontando caminhos. Talvez seja justamente isso que a gente precisa reconhecer agora: quando o mundo parece procurar novas respostas para velhos problemas, a experiência, a diversidade e a capacidade de transformação das pessoas LGBT+ são parte das respostas possíveis. A esperança insiste porque ela já está acontecendo: nas urnas, na cidadania e nos espaços de decisão”, afirma Gui Mohallem, da direção executiva do Instituto Plena Cidadania.
O relatório “A esperança que insiste: um retrato LGBT+ nas Eleições de 2026“, do Instituto Plena Cidadania, combina o mapeamento ativo realizado pelo VoteLGBT com dados oficiais da Justiça Eleitoral. O levantamento considerou candidaturas LGBT+ identificadas a partir de autodeclaração e registros eleitorais e reuniu informações sobre perfil, distribuição territorial, pautas, resultados eleitorais e violência política.
Ao todo, 197 candidaturas responderam ao questionário utilizado para analisar a Violência Política de Gênero, Raça e LGBTfóbica (VPGR LGBTfóbica). O relatório completo apresenta ainda a metodologia de mapeamento e os dados consolidados das eleições de 2026. Clique aqui para acessar.
Fonte: Brasil 247