Com Eduardo no Itamaraty, presidência de Flávio Bolsonaro fará ‘diplomacia bananinha’

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Por Vinicius Rodrigues VieiraJOTA

Tem gente que chama este 15 de setembro de “Dia D da democracia”, por conta da sessão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF) que definirá se um de seus ministros, Alexandre de Moraes, deve ser investigado ou até mesmo afastado de suas funções por conta do relacionamento mantido com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por crimes contra o sistema financeiro internacional.

Mais do que esse dia, porém, os brasileiros deveriam se preocupar com outro: 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições gerais. Esse será o dia “S”. Não é uma referência ao santo do dia, São Francisco de Assis, mas à soberania nacional e, por isso, à nossa sobrevivência.

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Isso porque, caso vire presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL) nomeará seu irmão Eduardo para o Itamaraty. Ou seja, teremos como chanceler alguém que, nos últimos dois anos, atuou explicitamente contra os interesses brasileiros, promovendo, junto ao governo americano, um tarifaço que afetou significativamente as exportações para os EUA e, portanto, o ganha-pão de milhares de famílias Brasil afora. Isso ocorreu inclusive em estados e regiões onde o bolsonarismo é forte, como a Serra Gaúcha e as áreas de Santa Catarina com participação expressiva da indústria madeireira.

Eduardo Bolsonaro como chanceler não seria apenas um desastre para o Itamaraty, cujas alas — não necessariamente de esquerda — agora morrem de medo de suas eventuais ações à frente do órgão. Ele ganhou do então vice-presidente Hamilton Mourão a alcunha de “bananinha” em 2020, quando o filho do então presidente golpista Jair Bolsonaro já era deputado federal e acusou a China — já com o status de principal parceiro econômico do Brasil — de propositalmente espalhar Covid-19 pelo mundo.

Por falar em Mourão, é interessante notar que um de seus colegas na reserva, Paulo Chagas, um general que foi o candidato de Bolsonaro ao governo do Distrito Federal em 2018 e depois rompeu com a família que lidera a extrema direita nacional, escreveu no X (antigo Twitter) que vai votar nulo num eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro caso o último insista em nomear o irmão fugitivo nos EUA como chanceler.

Diplomacia bananinha: eis um adjetivo apropriado para descrever a política externa de alguém que, caso a História não venha a ser falsificada no futuro, merece entrar na lista de traidores da pátria ao lado de Joaquim Silvério dos Reis e Domingos Fernandes Calabar. De fato, Eduardo Bolsonaro não tem a menor capacidade de cumprir o papel esperado de um chanceler, mesmo em um governo de extrema direita.

A nossa extrema direita, porém, tem uma peculiaridade: ela não é nacionalista no sentido clássico. Enxerga no trumpismo uma espécie de centro daquela que seria sua verdadeira pátria – uma nação cristã transnacional. Nem mesmo os capitalistas mais engajados na campanha de Flávio Bolsonaro serão beneficiados por essa escolha caso a candidatura seja vitoriosa.

Um dos traços fundamentais do Itamaraty é a execução de uma diplomacia que prioriza o desenvolvimento nacional. Isso ocorre pelo menos desde a década de 1930, depois de resolvidas as questões de fronteira da era do Barão do Rio Branco. Com o advento da lógica nacional-desenvolvimentista nos anos 1930, a questão econômica sempre esteve presente e foi ganhando cada vez mais espaço, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial.

Isso se expressou, por exemplo, na Política Externa Independente de Jânio Quadros e no Pragmatismo Responsável da ditadura sob Ernesto Geisel, que ajudaram a abrir mercados para os produtos brasileiros no então mundo pós-independência, em particular na África. Até mesmo na globalização houve preocupação com o desenvolvimento num contexto em que o país, nas palavras do chanceler Luiz Felipe Lampreia (1995-2001), devia se adaptar aos ventos do mundo.

A busca por autonomia estratégica é característica de potências médias como o Brasil. Portanto, não faz o menor sentido adotarmos uma lógica subserviente aos Estados Unidos, tal e qual pregada pelo bolsonarismo. Eduardo até escreveu com Marcos Degaut um artigo publicado na Gazeta do Povo diagnosticando que falta estratégia aos atuais negócios estrangeiros do país e, portanto, sinalizando que buscaria uma política externa pragmática. Mas, como toda palavra emitida por um Bolsonaro vale o mesmo que uma nota de R$ 3 – ou seja, nada, não existe — é muito arriscado pagar para ver.

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Assim, a burguesia nacional, ou o que resta dela, corre o risco de cometer um harakiri ao insistir em Flávio Bolsonaro como opção para derrotar Lula, que, diante da conjuntura internacional complexa, faz um governo equilibrado nas relações exteriores, fruto de sua experiência de quase 12 anos como chefe de Estado. Nada mais simbólico do que o fato de um dos grandes defensores do bolsonarismo ser hoje Paulo Skaf, ex-presidente da Fiesp: foi o lobby industrial aquele que mais se beneficiou historicamente da diplomacia para o desenvolvimento.

A industrialização no Brasil não teria ocorrido sem as iniciativas de política externa conduzidas, em particular, no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Se o 22 ganhar, poderemos dizer adeus a qualquer tentativa de agregar maior valor ao PIB. Harakiri é um gesto extremo no código de honra dos samurais: o suicídio por desonra. No caso da burguesia nacional, o corte autoinfligido é o ato final da perda de qualquer vergonha. Não haverá bons ventos se já tivermos queimado as velas do barco Brasil para viver a reboque do transatlântico decadente capitaneado por Donald Trump.

Fonte: JOTA

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