Colocar de pé um forte Movimento Estudantil que enfrente o imperialismo e a extrema direita e seja independente dos governos e da reitoria
Por Faísca Revolucionária UFPE — Esquerda Diário

Nos dias 22 e 23 de setembro ocorrerão as eleições para o Diretório Central dos Estudantes da UFPE. A eleição estará aberta a partir das 8 horas do dia 22 de setembro. Neste texto, desenvolvemos nossa posição como parte do Movimento Estudantil da UFPE, buscando dialogar com todes es estudantes que enxergam que precisamos reerguer nas nossas universidades um Movimento Estudantil forte e combativo, que enfrente a extrema direita de forma independente dos governos e da reitoria.
O Brasil atravessa uma conjuntura marcada por um momento de interferência do imperialismo no processo das eleições e uma crise profunda de todo o regime, em que instituições como o STF, que até ontem era ovacionado inclusive por setores da esquerda, estão totalmente questionadas. O caso do Banco Master deixou escancarado que vivemos em uma verdadeira república dos banqueiros, na qual políticos e juízes gozam dos maiores banquetes, whiskys, charutos e regalias infinitas, enquanto decidem descarregar sobre a população trabalhadora e pobre a conta, que cai sobre nós em formato de reforma trabalhista, de reforma da previdência, de lei que permite a terceirização irrestrita. Na universidade, sentimos o efeito dessa conta principalmente através dos cortes por causa do Arcabouço Fiscal, que determina que o orçamento público tem que ir para os bancos, e não para a educação, ao que se somam os trabalhos precários em escalas como a 6×1, que muitas vezes expulsam os estudantes da universidade.
A extrema direita é capacho de Trump e do imperialismo e tem na educação e nas universidades um alvo permanente. Por isso mesmo, a batalha por entidades estudantis que se baseiam na auto organização, no sentido de se organizar para lutar por cada uma de suas demandas e para enfrentar o imperialismo e a extrema direita de forma independente dos governos e da reitoria precisa ser parte central dos debates para as eleições do nosso Diretório Central que se aproxima na UFPE.
Vemos de forma cada vez mais nítida como a conciliação de classes é incapaz de derrotar a extrema direita. Para conciliar com a burguesia, o governo Lula manteve intacta a agenda do golpe institucional de 2016, entregou aos ruralistas o maior Plano Safra da história enquanto tentava privatizar os rios amazônicos atacando os direitos dos povos originários, ribeirinhos e quilombolas, passou o último período reivindicando sua “química” com Trump, apostando nas suas habilidades de “diplomata” na relação com Trump, que agora tenta interferir nas eleições brasileiras para garantir um governo ainda mais alinhado aos interesses imperialistas. O STF, que pela via de Alexandre de Moraes foi tido como o guardião da democracia, mostra a sua verdadeira face reacionária, com juízes que nenhum de nós elegemos e esbanjam regalias com banqueiros como Daniel Vorcaro. Além disso, a extrema direita não apenas segue dentro das instituições e ocupando ministérios no governo, como se sente fortalecida e tenta atacar diretamente nossos espaços, como vimos na UFRGS e na UNB, ataques esses contra os quais viemos nos organizando para expulsar essa escória e estamos encampando um abaixo-assinado contra esses ataques que você pode fortalecer assinando aqui. Na UFPE foram encontrados escrachos com provocações misóginas com apologia ao estupro e ao nazismo no CCSA. Chamamos todes a repudiar essas ações! Não toleramos nenhuma expressão dessa escória da extrema direita na nossa universidade!
Também vimos recentemente um vereador do PL destilar seu racismo ao chamar de “porcaria” um projeto de lei apresentado por Jô Cavalcanti do PSOL em homenagem à Jurema Sagrada, religião afroindígena muito presente em Pernambuco, deixando mais uma vez evidente o racismo destes setores contra negros, trabalhadores e o povo de terreiro.Todo nosso repúdio a esse ataque racista!
Esses episódios deixam claro que não são afagos diplomáticos que pararão a sanha imperialista por nossos bens naturais e pelo fruto do nosso trabalho, assim como não serão as vias institucionais ou as eleições aquelas que vão varrer a extrema direita para a lata de lixo da história; só conseguimos enfrentar estes setores a partir da nossa organização, em cada lugar de trabalho e estudo. Neste sentido, o exemplo dos estudantes do Centro de Estudantes da História da UFRGS (CHIST) pode ser um ponto de apoio para pensarmos nossa atuação, no qual os estudantes auto organizados expulsaram a extrema direita e construíram uma ampla atividade para organizar e preparar o movimento estudantil para se enfrentar contra esta escória chamando todos os demais setores dispostos a unir forças neste enfrentamento. Construíram o Alerta Antifascista como um espaço de frente única, ocupando os espaços da universidade com debates, atividades e buscando gerar mais forças no combate contra essa escória da extrema direita. Nós da Faísca somos parte majoritária da gestão do CHIST e acreditamos que são exemplos como esse que devem nos inspirar na construção do Movimento Estudantil que precisamos na UFPE.
A UFPE está sem gestão de DCE desde 2023. A gestão de 2022 a 2023, Todas as Vozes, era composta por correntes ligadas à majoritária da UNE – UJS, Levante, JPT, JPSB. Motivos para nos organizarmos havia muitos, mas foram raras as assembleias convocadas pela gestão: a começar pela própria derrubada do governo Bolsonaro, onde o movimento apareceu disperso nos atos de domingo, e não organizado, paralisando as universidades e instalando o debate sobre a necessidade da derrubada do Bolsonarismo pela força da nossa mobilização, algo que poderia contagiar a classe trabalhadora a cobrar também suas entidades sindicais.
Em maio de 2022 quando Todas as Vozes era gestão e ainda sob governo Bolsonaro, houve bloqueios em série do orçamento para educação, afetando fortemente as universidades federais. Nenhuma luta séria foi organizada pela base. No primeiro ano do governo de Frente Ampla, embora a PEC da transição anunciasse a recomposição do orçamento para a educação, essa foi minguada a partir dos contingenciamentos para atender as metas do Arcabouço Fiscal. Neste mesmo ano, novos cortes foram aplicados sob total silêncio do DCE, seguindo o tom de sua política na entidade nacional, a UNE. Isso se dava justamente porque são correntes políticas que não apenas apoiam o governo de Frente Ampla, como fazem parte do próprio governo e por isso terminam por defender os interesses dos governos, e não dos estudantes. Por essa razão, é tão necessária a batalha por construir entidades estudantis independentes dos governos de plantão e da reitoria, a única maneira de batalharmos consequentemente contra o avanço da extrema direita.
É nesse cenário que entramos no processo eleitoral para o Diretório Central dos Estudantes. O governismo se concentra junto à Chapa 1 (Experimenta UFPE), composta por correntes como UJS, Juventude do PT, Juventude do PSB, Levante e Fogo no Pavio do PSOL. São quase as mesmas correntes que estavam na gestão do DCE em 2022-2023, fomentaram e administraram a inércia no Movimento Estudantil e são diretamente responsáveis pelos anos subsequentes que ficamos sem entidade, vendo a universidade pública ser atacada, o Centro de Humanidades caindo aos pedaços, sem água potável, sem elevadores, vendo o LAHM (Laboratório de História e Memória) ser inundado e os trabalhadores terceirizados sendo tratados como de segunda categoria, vendo bolsas em atraso e com todo um setor da biblioteca interditado há vários meses, com o movimento estudantil desarticulado. Uma das principais figuras do Levante/MST, Rosa Amorim, aparece em eventos junto com a governadora Raquel Lyra, responsável pelo governo que recentemente jogou no desemprego milhares de professores contratados pelo estado, além de recentemente ter se mostrado favorável à laqueadura compulsória, um procedimento racista utilizado pelo Estado para esterilização de mulheres negras e indígenas. Também está dentro da Chapa 1, a juventude ligada aos oligarcas do PSB de João Campos, que governou o estado por quase duas décadas e manteve Pernambuco nos piores índices de precarização e informalidade. São os representantes diretos da Frente Ampla e do governo e seu papel é impedir as lutas dos estudantes sempre que elas incomodam o governo, e nossa luta sempre incomoda.
A Chapa 2 (Nada será como antes) é composta por correntes que se colocam no campo da oposição de esquerda à majoritária da UNE – Correnteza/UP e PCBR – e há alguns pontos do que estão defendendo de programa com o qual temos acordo e sobre os quais achamos que é possível e necessário construir unidade de ação, como a luta contra o Arcabouço Fiscal e pela recomposição do orçamento para a educação, reestatização do Restaurante Universitário (a qual desde nossa concepção deve ser sob gestão dos seus trabalhadores e controle da comunidade universitária com efetivação dos terceirizados sem necessidade de concurso público), por bolsas de 1 salário mínimo, e principalmente o elemento de colocarem no programa a necessidade de uma gestão com independência da reitoria e dos governos. Consideramos que para enfrentar o burocratismo das correntes majoritárias da UNE nas nossas entidades precisamos construir a mais ampla unidade para a luta e, nesse processo, fortalecer um programa que possa reerguer um movimento estudantil combativo e independente. Por estes elementos, nós da Faísca Revolucionária declaramos nessas eleições nosso apoio crítico à chapa 2 (Nada será como antes), e aqui queremos também debater tanto com os companheiros da chapa 2 quanto com o conjunto dos estudantes as razões pelas quais esse apoio é crítico.
Das correntes que fazem parte da Chapa 2, duas delas – Correnteza/UP e PCBR – foram parte de gestões anteriores da entidade, tendo o PCBR (então UJC/PCB) abandonado a gestão em plena pandemia e a Correnteza/UP mantido uma gestão meramente testimonial. No retorno ao ensino presencial em 2022, se realizaram novas eleições e, se alçando sobre o abandono do DCE pela gestão anterior, o Todas as Vozes venceu as eleições em 2022. Até o momento, não vimos um balanço crítico desses companheiros ao terem praticamente entregado a entidade ao governismo. Além disso, a Correnteza/UP é parte da direção de importantes entidades estudantis pelo país, como o DCE da UFRJ e da USP, mas não tem exemplo de luta onde tenha atuado como um contraponto à paralisia da direção majoritária, negando-se sobretudo a exigir que a UNE encampe nossas lutas.
Outro elemento importante é que a Chapa 2 fala de maneira generalizada do “governo federal” sem nomear os agentes dos cortes na educação e do Arcabouço Fiscal, que é o governo de Frente Ampla de Lula e Alckmin. Ao não nomear os agentes dos ataques colabora para a manutenção de ilusões alimentadas pelo próprio petismo de que Lula é uma vítima de um congresso reacionário. Mas não podemos esquecer que o Arcabouço Fiscal foi política direta de seu governo, assim como os projetos de privatização, como dos rios amazônicos.
Fazemos este apoio crítico chamando o movimento estudantil a exigir da nova gestão que coloque o corpo no enfrentamento contra a ingerência do imperialismo e a extrema direita, de forma independente da frente ampla e da institucionalidade e apostem na auto organização dos estudantes junto aos trabalhadores, não simplesmente em reuniões de gabinete. Com nossa força organizada podemos fortalecer, por exemplo, a atual greve dos bancários e dos correios que pode ser um ponto de apoio para os trabalhadores entrarem em cena na política nacional, mostrando que é a mobilização da nossa classe e não as instituições podres do regime que pode dar uma resposta contra a república dos banqueiros.
Para poder cumprir de fato este papel de oposição e fortalecer as lutas que temos e teremos adiante, chamamos os companheiros a batalharem cotidianamente pela maior unidade na luta desde as bases e não por meio de reuniões a portas fechadas entre os grupos políticos, nas quais o rumo das mobilizações e atuações políticas são definidos sem os estudantes.
Nosso apoio crítico à chapa 2 nestas eleições não reduz as nossas profundas diferenças com as organizações que reivindicam o stalinismo, como o Correnteza e setores do PCBR, um legado sangrento e reacionário de perseguição e assassinato de revolucionários, de retrocesso nas conquistas das mulheres e LGBTs e da traição da revolução internacional. Nós da Faísca Revolucionária chamamos a todes que veem a necessidade de reerguer um movimento de estudantes independente e combativo e a todos os setores que querem se colocar nesta perspectiva, de forma independente da Frente Ampla e da reitoria e para muito além dos processos eleitorais, que construamos uma verdadeira unidade de ação, esta sim capaz de varrer com a extrema direita das nossas universidades.
Fonte: Esquerda Diário