Coletores de lixo em Goiânia enfrentam rotina marcada por riscos ligados ao descarte irregular e à violência física
Por Raunner Vinícius Soares — Jornal Opção

A rotina de quem cuida da limpeza urbana em Goiânia vai muito além do esforço físico, revelando desafios que ganham destaque nesta terça-feira, 20, Dia do Coletor de Lixo.
Os trabalhadores que recolhem o lixo enfrentam desafios diários nas ruas, como a falta de cuidado da população ao descartar o lixo, a chuva e o calor forte, a impaciência de motoristas no trânsito e até episódios de xingamentos e agressões físicas. Os relatos desses profissionais ouvidos pelo Jornal Opção mostram não só as dificuldades da rotina, mas também o quanto o trabalho deles é essencial para toda a cidade.
Em quase três anos de atuação no serviço de limpeza urbana em Goiânia, Jackson Santos da Cruz, de 29 anos, relata ao Jornal Opção que um dos maiores riscos enfrentados pelos coletores no dia a dia é o manuseio de resíduos pontiagudos ou cortantes embalados de forma inadequada.
No dia a dia assim mesmo, quando a gente tá fazendo a coleta, acontece de ter caco de vidro dentro do saco. Às vezes desce na correria, não tem como você conferir o saco por dentro. Você desce na correria para pegar, você pode cortar a mão com caco de vidro, furar a mão com seringa que é descartada de forma irregular
Um obstáculo frequente destacado por Jackson envolve a logística de recolhimento e o comportamento dos próprios moradores. “Acontece também de o morador não colocar o lixo no dia ou horário certo. Nós já passamos pela rua e depois precisamos voltar para recolher. Quando isso acontece, fica parecendo que não fizemos o serviço antes”, expõe.
Ele lembra que o ritmo de trabalho é contínuo, cobrindo turnos ao longo das 24 horas do dia, e que a meta das equipes é finalizar completamente o trecho determinado para cada setor. “O horário é se acabar o trecho. Por isso que às vezes, estamos numa correria mais rápida para conseguir terminar um pouco mais rápido. E aqui mesmo são 24 horas que nós rodamos, tem três turnos, da manhã, tarde e noite. Mas o horário é acabar, finalizar o trecho, atender o setor completamente”, complementa.

A convivência com os motoristas no trânsito também exige jogo de cintura e calma dos trabalhadores. “Essa questão aí, você tem que ter paciência, porque você tá lá na correria, tá trabalhando, às vezes acontece de você travar o trânsito um pouco por um tempinho, mas tem gente que não tem paciência, passa, fica buzinando, grita com a gente, xinga. Já fui xingado demais na rua, mas acontece. Você tem que ter paciência, tem que saber lidar”, conta.
Jackson destaca que a preparação física e os cuidados com a saúde são fundamentais para suportar as variações do clima na capital goiana.
Você tem que ter preparação, tem que ter uma saúde boa, porque mesmo dia que nós pegamos um sol o dia inteiro, chega no finalzinho do dia às vezes pegamos uma chuva do nada. Aí é dois climas assim que você pega no mesmo dia, às vezes acontece de você ficar doente. Você tem que ter uma preparação boa, preparação física boa
Para ele, o principal problema enfrentado no cotidiano é a falta de compreensão da população em relação às dificuldades enfrentadas pela categoria. “Há uma falta de paciência de quem está na rua, de não entender o nosso serviço e a dificuldade que enfrentamos. Passamos por muitos problemas, como a falta de separação correta do lixo, o que causa acidentes. Se nos machucamos, ficamos impedidos de trabalhar, o que prejudica a execução do serviço e o sustento da nossa família”, desabafa.
Sobre os episódios de violência, o coletor faz um apelo por mais empatia. “Pensamos no que aconteceria se fosse conosco, se o pior ocorresse. Afinal, quem sai de casa para trabalhar quer voltar para a família. A mensagem que deixo é para que as pessoas tenham empatia, consciência e se coloquem no lugar de quem faz esse serviço. Se ficarmos sem passar na sua rua por uma semana, você com certeza vai sentir a nossa falta”, conclui Jackson, que é cearense, criado em Goiânia desde pequeno e atua em áreas como remoção, cata-treco, seletiva e orgânica.
Os desafios de ser uma mulher em um ambiente majoritariamente masculino
Atuando no setor de remoção, Ana Paula Alves, de 20 anos, prestes a completar um ano de contrato em novembro, relata ao Jornal Oção como é a experiência feminina em uma atividade historicamente associada aos homens. “Além do assédio na rua, o serviço é um pouco pesado, mas fico na parte da remoção. Essa função não é tão pesada, embora às vezes seja necessário usar a pá, o que exige mais esforço, ou carregar sacos de lixo muito pesados. Como uma vez em que pegamos um com cimento, que uma mulher não consegue carregar sozinha. Mas, como os operadores sempre nos ajudam, essa parte acaba sendo tranquila”, explica.

Os perigos no trânsito e o desrespeito de condutores também são pontos enfatizados por Ana Paula. “Perigo sempre existe. Quando estamos em uma avenida, os carros não querem esperar a gente trabalhar. Fica aquele medo de sofrer um atropelamento, mas acho que quem trabalha na remoção passa por isso em qualquer lugar”, detalha a coletora.
Ela relata episódios inusitados e constrangedores provocados pela falta de paciência de motoristas. “Estávamos trabalhando perto de uma avenida, limpando o local, e os carros queriam passar. A máquina libera a passagem, mas precisa de um tempo enquanto recolhe o lixo. Tinha um sofá que caiu no meio da rua e uma motorista não quis esperar: ela passou por cima do sofá e saiu empurrando. É uma situação constrangedora, mas que acaba sendo pior para os próprios condutores”, relembra.
Ana Paula reforça a importância da proteção individual e do cuidado com o descarte de materiais perigosos por parte da população. “Aqui em Goiânia, as pessoas já não têm muita paciência para dirigir. Não há muito o que fazer, mas tentamos trabalhar o mais rápido possível para não atrapalhar o trânsito, embora nosso trabalho esteja ajudando a cidade, e não atrapalhando. Já enfrentamos muita chuva e a capa fornecida não protege tanto, mas nós a usamos. Para o sol, recorremos ao boné e ao protetor solar. Às vezes é difícil, mas é tudo uma questão de se acostumar”, comenta.
A profissional pede mais respeito e atenção dos moradores no momento do descarte. “Eu queria dizer para as pessoas terem mais empatia, mais respeito, que nós estamos ali só fazendo o nosso serviço e limpando também a cidade para eles, porque acaba que quando chove alaga tudo, a Perimetral mesmo alaga todinha quando chove. Ter mais consciência, separar os lixos direitinho para não machucar, aquelas agulhas de postinho que machuca a gente, vidro, colocar dentro da caixa. Eu acho que ser coletor é difícil, mas também é muito bom, é um serviço que o povo olha e discrimina muito, mas é um serviço bom, tranquilo”, pontua Ana Paula.
A falta de conscientização e empatia por parte do público
Em um ano e dois meses de contrato, Yuri Moreira, de 19 anos, avalia que o principal desafio enfrentado pela categoria é a falta de conscientização do público sobre a separação correta dos resíduos. “Um dos principais desafios, no meu ponto de vista, é a falta de compreensão do público. As pessoas muitas vezes não fazem a separação correta dos resíduos, misturando material reciclável, orgânico e entulho de remoção. Também enfrentamos sérios problemas na porta de clínicas, com o descarte irregular de materiais contaminantes. Isso nos prejudica demais, ainda mais trabalhando expostos ao sol e à chuva”, relata.
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Foto: Divulgação


Yuri aponta que as agressões verbais e a impaciência no trânsito costumam se intensificar em bairros e setores de maior poder aquisitivo.
A questão da violência acontece muito nesses setores nobres. A galera lá acha que eles são donos do mundo. E lá as ruas são bem estreitas, aí a gente acaba fechando a rua para realizar a coleta e eles perde a paciência e acaba querendo vir para agressão. Não entende que a gente tá trabalhando, tá limpando ali o setor deles e eles acha ruim. Nós estamos ajudando eles
Ele pede mais consideração por parte da população. “Que tivessem mais empatia com a gente, mais paciência, porque nós estamos ali trabalhando e também somos ser humano”, apela.
Apesar das adversidades climáticas e de saúde, Yuri vê na rotina intensa de movimentação física um aspecto positivo para o próprio corpo. “Nós, querendo ou não, corre bastante, faz algum exercício físico, é bom para a nossa saúde. A gente acaba se ajudando e ajudando a cidade, porque nós limpamos a cidade e acaba ajudando o nosso corpo. Nos dias de sol é muito tenso, mas a empresa sempre fornece o apoio necessário, fornecendo protetor solar, luva, chapéu, os uniformes, e nos dias de chuva fornece capa de chuva. A dificuldade mesmo é só suportar, é só ser forte”, destaca.
O coletor relembra ferimentos ocorridos no exercício da função e defende o valor social desempenhado pelos trabalhadores que garantem a limpeza das ruas todos os dias. “Já aconteceu de uma porta de vidro estourar. Eu sou do cata-treco, nós fomos pegar uma porta de vidro, ela acabou estourando e machucou meu braço. Mas isso acontece, é imprevisível. Ao mesmo tempo que você tem que ser rápido, você tem que ser cauteloso”, reflete.
Ele finaliza destacando o orgulho de sua profissão. “Coletor é uma profissão digna, assim como todas as outras. É um serviço bem importante, eu falo que nós somos a polícia do lixo, nós somos os policiais do lixo”, conclui o trabalhador.
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Fonte: Jornal Opção