Cleitinho: quando a indignação seletiva vira cinismo
Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental
Apesar de dez anos na vida pública, candidato ao governo de Minas posa como paladino antissistema no estado que pode decidir a eleição no país. Simplista, mas viral, ataca o Estado e incentiva o desrespeito às leis, enquanto cerca-se de “inimigos do povo”
Por Jaqueline Morelo*, em Outras Palavras
Com forte presença digital e cerca de 7,2 milhões de seguidores nas redes sociais, o candidato ao governo de Minas pelo Republicanos, Cleiton de Azevedo, conhecido como Cleitinho, faz campanha focada no combate a injustiças fiscais e na redução do Estado.
Apesar de somar quase 10 anos de vida política institucional – dois como vereador em Divinópolis, quatro anos como deputado estadual e três anos e 9 meses no Senado, Cleitinho discursa como se não fizesse parte das instituições democráticas. Usando um tom carregado de revolta, se dirige aos eleitores como um cidadão comum.
Crítico do modelo de tributação do governo federal, recentemente afirmou em entrevista: “Hoje o Estado é inimigo do trabalhador, ele é inimigo do empresário.” Costuma classificar determinados impostos no Brasil como roubo legalizado.
Posando de “paladino da moralidade pública”, produziu dezenas de vídeos nos quais denuncia o que considera privilégios dentro de instituições como Câmara Federal, Senado, Supremo Tribunal Federal. Os vídeos têm apelo emocional negativo e narrativas polarizadoras (“nós contra eles” e “antissistema”). Dessa forma simplista, não toca nas verdadeiras causas dos problemas enfrentados pela sociedade; tampouco defende a justiça social, necessária para reforçar a vida democrática.
Há poucos meses, postou um vídeo ensinando condutores a desviarem de um pedágio que estava previsto para entrar em operação na BR-040, em Paracatu. Ele aparece em cima de um trator e diz que está criando um “desvio”, pois a rodovia pertence ao “governo”, enquanto o caminho alternativo seria “particular”.
Esse é o discurso do senador desde que entrou na vida pública. Basicamente, vocaliza sentimentos que o sociólogo François Dubet identificou como sintomas de sofrimento social em um regime de múltiplas desigualdades. Sentimentos reais dos cidadãos como cólera, humilhação, ressentimento, paixões tristes que, ao não encontrarem expressão política, alimentam o populismo.
No Plano de Governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, cujo título é “O povo primeiro”, o candidato promete melhorar a vida das pessoas. Em vídeos e entrevistas, repete o bordão “o meu partido é o povo”.
No entanto, é preciso examinar se o Plano de Governo dele traz propostas factíveis para melhorar a vida do mineiro e se, ao longo de sua trajetória na arena política, tem atuado efetivamente em prol dos interesses populares.
Nesse sentido, vale a pena refrescar a memória do eleitor sobre a atuação parlamentar do candidato nos últimos anos. Em pelo menos dois episódios de grande repercussão midiática, as escolhas do senador não favoreceram o povo. Pelo contrário, contribuíram para produzir efeitos nefastos na vida das pessoas.
O primeiro deles ocorreu em janeiro de 2025. Estudo que relaciona o impacto da disseminação de mentiras na Internet e do radicalismo na política sobre a formulação de políticas, publicado este ano, demonstra que Cleitinho desempenhou um papel central de amplificação política na controvérsia da suposta taxação do Pix, ao disseminar desinformação.
Em ordem cronológica, foram os seguintes os acontecimentos: no dia 6 de janeiro de 2025, ele gravou e publicou um vídeo reagindo a uma postagem anterior do advogado Dr. Amarildo 22. Embora o material original de Amarildo tratasse apenas de fiscalização da Receita Federal e não mencionasse cobranças, o senador o ressignificou publicamente, disseminando uma narrativa falsa.
No seu vídeo de reação, o senador afirmou explicitamente que as novas regras de monitoramento fiscal eram uma estratégia velada do governo federal para taxar o Pix. Ele declarou textualmente: “E o pior, gente, sabe para que é isso tudo? É para taxar o Pix! […] O Haddad queria taxar o Pix”.
Com esse vídeo, Cleitinho ativou o Ecossistema de Desinformação, ou seja, o vídeo atuou como um gatilho para o ciclo informacional mais agudo da crise. A postagem ajudou a inflar, nas redes sociais, uma onda de pânico moral e desconfiança institucional, que posteriormente escalou com a circulação de deepfakes e vídeos de outros parlamentares de oposição.
Conforme análise dos pesquisadores, Cleitinho atuou como mediador de “fatos afetivos”. Ele utilizou recursos narrativos e apelos afetivos para converter uma medida de controle fiscal (a Instrução Normativa nº 2.219/2024) em uma “ameaça existencial” percebida pelo senso comum e pela população de baixa renda.
O vídeo com informações falsas foi removido da plataforma TikTok graças à atuação da Advocacia-Geral da União (AGU), mas não apagou o fato de o candidato, que se apresenta como defensor da população de baixa renda, ter gerado uma crise ao ativar o ecossistema de desinformação e alimentar a radicalização política, provocando uma onda de pânico moral e desconfiança da população nas instituições e no governo.
Esse caso, explicam os autores do estudo, mostra como as redes sociais criaram um “mundo paralelo” de “informações”, contestando a ciência, a imprensa e as instituições do Estado democrático de direito.
O segundo exemplo refere-se à postura adotada pelo senador Cleitinho Azevedo durante depoimento da influenciadora digital Virginia Fonseca à CPI das Bets, em maio de 2025. A CPI foi criada para investigar o impacto que as apostas on-line causam no orçamento das famílias brasileiras, para apurar supostos vínculos com crime organizado e identificar possíveis delitos de influenciadores digitais que divulgam essas apostas.
É importante frisar que, das 17 reuniões realizadas até então, essa foi a única que contou com a presença do parlamentar. Cleitinho não era membro titular nem suplente da comissão, mas interrompeu a oitiva, se levantou, foi até a mesa e alegremente começou a gravar uma saudação para a família ao lado da influenciadora.
De forma totalmente inadequada, o senador demonstrou admiração e exaltou uma investigada por promover uma prática duvidosa que estava sob investigação da CPI.
Depois de oito meses de funcionamento, a CPI das Bets foi encerrada em junho de 2025, após ter seu relatório final rejeitado. O documento pedia o indiciamento de 16 pessoas, incluindo Virginia Fonseca, por estelionato e propaganda enganosa.
Sem a aprovação do relatório final, que continha 20 projetos de lei para conter os danos provocados pelas apostas virtuais, milhões de pessoas no país padecem com o superendividamento, aliado a uma grave crise de saúde pública e mental.
Pretenso defensor da moralidade pública, Cleitinho parece não estar incomodado com o indiciamento do presidente do Republicanos em Minas, Euclydes Pettersen, por organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva na Operação Sem Desconto.
A Operação é uma investigação conjunta da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU). A PF aponta que Pettersen recebeu pelo menos R$ 14,7 milhões da organização criminosa ligada à Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer).
O parlamentar é acusado de atuar como protetor político do esquema no INSS, ajudando a evitar fiscalizações e mantendo apoio institucional à entidade em troca de repasses financeiros fracionados.
Questionado sobre o assunto, Cleitinho limitou-se a comentar: “se forem condenados, aliados investigados vão ter que pagar”. Nada de tapa na mesa, nenhuma demonstração de indignação ou revolta perante uma das maiores injustiças cometidas contra aposentados e pensionistas brasileiros.
O Plano de Governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral pelos candidatos Cleitinho e Falcão propõe diversas ações ambiciosas, como expansão de hospitais, investimentos em infraestrutura e ampliação de programas sociais, mas não apresenta como serão financiadas.
O Plano não apresenta projeções orçamentárias, estimativas de impacto financeiro e estratégias para garantir a implantação das propostas. A necessidade de renegociação da dívida com a União é citada, mas não existe plano B caso não seja bem-sucedida, considerando o grave quadro fiscal do Estado.
Um setor que merece atenção é o da indústria mineral. Estado líder em extração de minério, Minas responde por 39,9% de toda a produção anual do país. A atividade deve manter seu papel estratégico na economia mineira, apoiada na extração do minério de ferro, na valorização do ouro e na demanda por minerais associados à transição energética e tecnológica.
Apesar disso, o Plano nãodetalha políticas de reparação, prevenção e apoio às comunidades afetadas por tragédias como Brumadinho e Mariana, nem mecanismos de responsabilização das mineradoras. Faltam propostas para a diversificação econômica das regiões mineradoras e para o fortalecimento da defesa civil em situações de desastre.
Embora mencione a busca ativa e programas de primeiro emprego, faltam propostas mais consistentes para o enfrentamento da evasão escolar, da violência juvenil, do acesso à cultura e lazer, e políticas de prevenção à criminalidade entre jovens.
O Plano não menciona políticas para povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que enfrentam desafios próprios em Minas Gerais. Também não menciona os termos direitos humanos, combate à pobreza, prevenção à criminalidade ou políticas sociais, somente para ficarmos em alguns exemplos que poderiam traduzir preocupação em relação à defesa de direitos e combate às desigualdades.
Apesar de reconhecer a diversidade regional, também não detalha políticas de desenvolvimento para o Norte de Minas, Jequitinhonha, Mucuri e outras regiões historicamente desfavorecidas.
O Plano de Governo Cleitinho e Falcão omite questões importantes, como desigualdades regionais e ignora problemas reais como a insegurança da população que vive em áreas de mineração. Enfim, carece de maior detalhamento sobre viabilidade financeira, metas mensuráveis, políticas para populações específicas e soluções inovadoras para desafios urbanos, ambientais e sociais. Em resumo, não explica como vai melhorar a vida dos mineiros.
É inegável o desempenho do candidato nas redes sociais, pois consegue engajamento orgânico massivo e viraliza conteúdos. A eficácia da comunicação do parlamentar se encontra na capacidade de explorar emoções, reforçar identidades grupais e instrumentalizar o ambiente algorítmico das plataformas digitais.
Mas, conforme visto, ao vocalizar sentimentos da sociedade com um discurso antissistema, além de disseminar desinformação, Cleitinho está assolando a confiança nas instituições democráticas, abrindo espaço para o enfraquecimento gradual da democracia e afirmando posições autoritárias.
Na obra “Como as democracias morrem”, os pesquisadores Levitsky e Ziblatt explicam o colapso das democracias pela ascensão de líderes políticos e partidos que exploram as instituições democráticas para minar a própria democracia.
Segundo eles, essas lideranças costumam ganhar notoriedade pela via eleitoral, explorando as fraquezas do sistema democrático para miná-lo gradualmente e consolidar seu poder político. Assim, a democracia é subvertida por dentro de sua própria dinâmica institucional, sendo transformada num regime que é a sua própria negação.
*Jornalista e mestra em ciência política. Atuou em emissoras de rádio e televisão, assessorias de comunicação e ONGs. Durante muitos anos, lecionou no Ensino Superior.
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Fonte: Combate Racismo Ambiental