Cidinha da Silva discute liberdade artística e racismo no mercado editorial em lançamento em Goiânia
Por Giovanna Campos — Jornal Opção

A escritora e ensaísta Cidinha da Silva chega a Goiânia para discutir uma questão que atravessa sua própria trajetória: até que ponto mulheres negras têm liberdade para escrever sobre aquilo que desejam sem serem constantemente convocadas a explicar o racismo, a violência e a própria identidade? A reflexão está no centro de “Quando Borboletas Furiosas se tornam Mulheres Negras: Nós e os Livros”, livro que reúne 16 ensaios sobre literatura, mercado editorial, racismo e os espaços ocupados por escritoras negras.
O lançamento ocorreu no Clube de Leitura Malunga, no Ponto de Cultura Malunga, em Goiânia. A obra marca a estreia da autora pela editora Relicário e integra a coleção Nos.Otras, voltada à publicação de prosa de não ficção e pensamento crítico de mulheres latino-americanas.
Em entrevista ao Jornal Opção, Cidinha afirma que a cobrança para que escritoras negras assumam o papel de educadoras pode começar a limitar a liberdade artística quando deixa de ser uma escolha individual e passa a ser uma expectativa imposta pelo mercado, pela crítica ou pelo público. “É honesto dizer que muitas tomam para si essa missão, a de educadoras, e está tudo bem, se for um desejo ou intenção delas. O problema reside na imposição ou expectativa de que todas as escritoras negras performem dessa maneira”, afirma.
Para a autora, não há problema em uma escritora decidir produzir uma literatura diretamente voltada para o debate racial. O problema está em transformar essa escolha em uma espécie de obrigação vinculada à identidade de quem escreve.
Mercado ainda não consolidou presença negra
A expansão da presença de escritoras negras nas editoras, livrarias e espaços de debate literário nos últimos anos não significa, na avaliação de Cidinha, que tenha ocorrido uma mudança estrutural no mercado editorial brasileiro.
“As mudanças estruturais acontecem quando conseguimos enraizá-las nos tempos de longa duração”, afirma. Segundo ela, a presença numérica mais significativa de autoras negras no mercado ainda é recente e não possui raízes suficientemente profundas para garantir sua permanência.
“Somos galhos frágeis no ecossistema, qualquer mudança mais significativa dos ventos pode nos soprar para longe”, diz.
A escritora também rejeita a ideia de que o mercado editorial seja um espaço no qual os livros são escolhidos apenas pela qualidade literária. Para ela, a publicação e a circulação de uma obra estão inseridas em uma lógica de interesses comerciais.
“Não existe isso de ‘simplesmente ser reconhecida pela qualidade literária de sua obra’, isso é ilusão”, afirma.
Cidinha argumenta que, principalmente nas grandes editoras e conglomerados, existe uma preocupação com a capacidade de venda dos autores. Ela cita como exemplo o sistema MEC-Livros, que disponibiliza milhares de títulos gratuitamente em formato eletrônico. Na avaliação da escritora, os livros mais procurados coincidem com autores que possuem maior exposição nas mídias tradicionais.
Para ela, o dado não deve ser interpretado necessariamente como um problema, mas como uma indicação de que a divulgação é parte fundamental da disputa por leitores.
“Vejo pistas para pensar como divulgar outros títulos de maneira mais efetiva”, afirma.
“Não existe ocupação natural de espaço”
Com 24 livros publicados, Cidinha afirma que sua própria trajetória não deve ser usada como parâmetro para medir a situação das demais escritoras negras.
A autora faz questão de corrigir um dado sobre sua carreira: são 24 livros publicados, e não 22, como constava na apresentação do evento. Dois deles foram premiados, um foi semifinalista do Jabuti Acadêmico e outro foi finalista do Jabuti em 2025. Além disso, sete livros estão disponíveis em edições do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) Literário desde 2020. Três deles foram escolhidos no mesmo certame, o PNLD-Equidade, em 2026.
Apesar do reconhecimento, Cidinha afirma que sua trajetória é uma exceção e não pode ser utilizada para afirmar que o mercado já oferece condições semelhantes para outras autoras negras.
“Eu, particularmente, me construo como exceção, porém, não sou medida para nada, além de mim mesma”, afirma.
Na avaliação da escritora, também é equivocada a ideia de que escritoras negras passarão a ocupar naturalmente os espaços das editoras, livrarias e listas de leitura.
“Não existe ‘ocupação natural de espaço nas editoras’. Trata-se de um jogo de interesses e de poder, portanto, um jogo hierarquizado”, afirma.
Para ela, é necessário que as próprias escritoras desenvolvam estratégias para permanecer no mercado, ao mesmo tempo em que o sistema literário precisa modificar a maneira como lê e avalia a produção de autoras negras.
“Falta ler e ouvir as escritoras negras em sua singularidade, sem transformá-las num bloco monolítico”, diz.
Cidinha também cobra mudanças na crítica literária. Segundo ela, é necessário desenvolver ferramentas capazes de analisar obras cujas referências estéticas e linguísticas podem partir de premissas que parte da crítica tradicional desconhece.
“Falta analisar o texto para realizar certas escolhas, ao invés de alternar escritoras negras na ocupação das cotas raciais que o ecossistema literário tem determinado para elas”, afirma.
A “estética esperada” para mulheres negras
Outro ponto central do livro é a existência de uma espécie de expectativa sobre aquilo que uma mulher negra deveria escrever.
Cidinha afirma que essa expectativa existe e está relacionada à própria estrutura do racismo. Segundo ela, escritoras negras são frequentemente associadas a temas como racismo, violência, identidade e desigualdade, como se sua experiência racial determinasse necessariamente os assuntos de sua literatura.
“O racismo, sua estrutura e seus tentáculos, procuram definir ‘o que, quando e como’, as pessoas-alvo do racismo devem falar”, afirma.
Para a escritora, essa imposição também é uma forma de manutenção de poder, porque reduz as possibilidades de criação e limita a capacidade de insurgência dessas autoras.
É justamente a partir dessa discussão que o livro utiliza as imagens do casulo, da lagarta e da borboleta.
No primeiro eixo, o casulo representa o cerceamento da liberdade criativa e a expectativa de que escritoras negras estejam permanentemente ocupando o lugar de educadoras e responsáveis pelo letramento racial.
A lagarta aparece associada às armadilhas que fazem com que essas autoras sejam constantemente chamadas a explicar suas obras e experiências, enquanto aspectos relacionados à estética, à técnica e às escolhas literárias acabam ficando em segundo plano.
Já a borboleta simboliza a insurgência e a transformação da ira em enfrentamento político e estético diante das desigualdades que atravessam o mercado editorial.
Estratégia para sobreviver no mercado
A experiência de Cidinha também mostra como sua relação com o mercado editorial mudou ao longo dos anos. Ela afirma que as dificuldades do mercado não modificaram seu projeto literário, mas fizeram com que desenvolvesse uma estratégia mais cuidadosa para publicar seus livros.
“O mercado editorial não mudou em nada minha forma de escrever”, afirma. Segundo ela, as transformações em sua escrita são resultado do amadurecimento como autora e do desenvolvimento de uma técnica que procura aprimorar continuamente.
Já a relação com as editoras passou por uma mudança significativa.
No início da carreira, Cidinha conta que aceitava praticamente qualquer oportunidade de publicação. Com o tempo, experiências negativas fizeram com que passasse a analisar com mais cuidado as editoras e os projetos aos quais vincularia sua produção.
Ela cita duas experiências. A editora Conversê, de Porto Alegre, publicou “Racismo no Brasil e afetos correlatos”, em 2013, mas encerrou as atividades posteriormente. A editora Ijumaa, de São Paulo, publicou a primeira edição de “#Parem de nos matar!”, em 2016, e também encerrou as atividades, segundo a escritora.
Cidinha chegou ainda a criar sua própria iniciativa editorial, a Kuanza Edições, pela qual publicou dois volumes de uma planejada quintologia de crônicas. O projeto, no entanto, foi interrompido.
“Compreendi também que publicar outras pessoas roubaria minha atenção e recursos da construção e fortalecimento da minha própria carreira e decidi fechar as portas também”, relata.
Hoje, a estratégia é diferente. A escritora afirma que escolhe as editoras de acordo com cada projeto e avalia cuidadosamente as possibilidades de publicação.
“As editoras se interessam por autoras que vendem e eu vendo muito”, afirma.
Manter o espaço também é uma batalha
Depois de consolidar uma carreira com dezenas de livros publicados e presença em políticas públicas de formação de acervo, Cidinha identifica outro desafio: permanecer no espaço conquistado sem abrir mão da independência.
“A principal dificuldade do estágio de carreira em que me encontro é me manter no bom lugar que conquistei, alimentando-o como uma construção cotidiana”, afirma.
A autora diz que isso exige uma estratégia permanente para preservar sua autonomia.
“Isso dá muito trabalho”, resume.
A trajetória que Cidinha descreve ajuda a deslocar a discussão sobre mulheres negras na literatura de uma perspectiva exclusivamente relacionada à conquista de espaço para outra questão: o que é necessário fazer para permanecer nesse espaço e ter liberdade para decidir o que escrever, como publicar e de que maneira se relacionar com o mercado?
É essa discussão que “Quando Borboletas Furiosas se tornam Mulheres Negras: Nós e os Livros” leva para o Clube de Leitura Malunga. Mais do que apresentar uma nova obra, o encontro propõe discutir os mecanismos que determinam quem é publicado, quem ganha visibilidade e quais expectativas recaem sobre escritoras negras.
Clube de Leitura Malunga
Criado em 2026 pelo Grupo de Mulheres Negras Malunga, o Clube de Leitura dá continuidade ao trabalho desenvolvido pela organização, que há 26 anos atua com formação e letramento racial por meio da leitura.
A iniciativa ganhou novo impulso após o reconhecimento do Malunga como Ponto de Cultura e busca ampliar o acesso à literatura, à produção intelectual e ao conhecimento produzido por mulheres negras.
O lançamento de “Quando Borboletas Furiosas se tornam Mulheres Negras: Nós e os Livros” ocorre no dia 12 de setembro, sábado, às 19h, no Ponto de Cultura Malunga, em Goiânia. A entrada é gratuita.
Cidinha da Silva é escritora, ensaísta e dramaturga. Entre suas obras estão “Um Exu em Nova York”, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional em 2019, e “O mar de Manu”, vencedor do Prêmio APCA em 2022. Seus textos foram traduzidos para catalão, espanhol, francês, inglês e italiano. É também cronista do jornal literário Rascunho.
O próximo livro da autora a ser trabalhado pelo Clube de Leitura Malunga será “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior – 81 lições do método Sueli Carneiro”, lançado em 2025.
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Fonte: Jornal Opção