China pode ser um amortecedor, e não um choque, para a economia mundial

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Por Redação Brasil 247Brasil 247

247 – A ascensão econômica da China costuma ser apresentada no Ocidente por meio de expressões como “China Shock” ou “China Squeeze”, que associam a expansão industrial chinesa à perda de empregos, mercados e capacidade produtiva em outras economias. Uma análise publicada nesta sexta-feira pelo Peking Ensight propõe uma perspectiva diferente: a China também pode funcionar como um “China Buffer”, ou seja, um amortecedor de choques e uma fonte de resiliência para a economia mundial.

O texto reúne três análises recentes da agência Xinhua para sustentar que a presença econômica chinesa precisa ser examinada para além da competição comercial. A China é simultaneamente um enorme mercado consumidor, uma potência industrial, uma fornecedora de máquinas e insumos, uma fonte de investimentos e tecnologia e uma das principais forças da transição energética global.

A questão central é saber se o crescimento chinês necessariamente reduz o espaço disponível para outros países ou se, em determinadas circunstâncias, pode contribuir para aumentar a própria dimensão da economia global.

China como amortecedor de crises

A primeira análise apresentada pelo Peking Ensight desenvolve o conceito de “China Buffer”.

Um dos exemplos citados é o mercado de petróleo. Diante das recentes pressões sobre os fluxos de petróleo pelo Estreito de Ormuz, a China reduziu suas importações de petróleo bruto, recorrendo a estoques, menor utilização das refinarias e mudanças em sua matriz energética. Segundo o texto, citando a Agência Internacional de Energia, esse movimento contribuiu para aliviar a pressão sobre o mercado mundial de petróleo.

O argumento é que não se trata de um episódio isolado.

Durante a crise financeira de 2008, a demanda chinesa ajudou a sustentar a atividade econômica quando grande parte do mundo enfrentava recessão. Na pandemia de Covid-19, a rápida recuperação da produção industrial chinesa contribuiu para abastecer outros países com produtos médicos e bens de consumo.

Mais recentemente, a escala da indústria chinesa tem ajudado a reduzir custos de painéis solares, baterias, turbinas eólicas e veículos elétricos, tornando tecnologias relacionadas à transição energética mais acessíveis.

Sob essa perspectiva, a China não seria apenas uma fonte potencial de choques competitivos. Em momentos críticos, sua escala econômica também poderia funcionar como amortecedor.

Uma fábrica para as fábricas

A segunda análise contesta a ideia de que o avanço industrial chinês inevitavelmente deixa menos espaço para os demais países em desenvolvimento.

A tese parte de uma crítica à visão da economia mundial como um bolo de tamanho fixo, no qual o crescimento de uma nação necessariamente ocorre às custas das demais.

O Peking Ensight destaca que, na última década, economias como Vietnã, Camboja e Laos aumentaram significativamente sua participação nas exportações mundiais mesmo enquanto a China permaneceu como grande potência manufatureira.

Ao mesmo tempo, o mercado chinês tornou-se cada vez mais relevante para o Sul Global, enquanto a indústria do país passou a fornecer máquinas, equipamentos, bens intermediários e capital necessários à expansão produtiva de outras economias.

A expressão utilizada é particularmente significativa: a China estaria se transformando em uma “fábrica para as fábricas”.

Máquinas têxteis chinesas, por exemplo, podem contribuir para que países em desenvolvimento construam suas próprias capacidades industriais. Empresas chinesas que investem no exterior podem gerar empregos locais, transferir tecnologia e integrar os países receptores às cadeias globais de produção.

Tecnologias como inteligência artificial e manufatura inteligente acrescentam uma nova dimensão a esse processo.

A maré e a escada

Duas imagens são utilizadas para explicar essa relação.

A primeira é a da maré crescente. O crescimento chinês amplia a demanda e pode criar novos mercados para outros países.

A segunda é a da escada. Equipamentos, tecnologia, capital e conhecimento chineses podem oferecer instrumentos para que economias em desenvolvimento subam degraus na cadeia industrial.

A pergunta, portanto, deixa de ser apenas quem consegue a maior fatia do bolo existente.

Passa a ser como aumentar o próprio bolo.

Carros chineses mostram mudança de modelo

A terceira análise examina uma das indústrias em que a expansão chinesa é mais visível: os veículos de nova energia.

As exportações chinesas de automóveis elétricos crescem rapidamente, provocando reações protecionistas e preocupações com a concorrência em diversos países.

Mas o texto chama atenção para uma transformação importante: algumas empresas chinesas estão deixando de simplesmente produzir na China e exportar para passar a produzir nos próprios mercados externos.

Na Espanha, a cooperação entre a Chery e a EV Motors contribuiu para recuperar a histórica marca Ebro e retomar a produção em instalações industriais.

Na África do Sul, segundo o texto, a Chery manteve os 692 funcionários da fábrica de Rosslyn adquirida pela companhia e espera gerar milhares de empregos ao longo da cadeia produtiva.

No Brasil, a BYD está construindo uma estrutura local envolvendo produção de veículos, pesquisa e desenvolvimento, empregos e fornecedores.

A mudança pode ser resumida numa expressão: sair do modelo “feito na China e vendido no exterior” para o modelo “feito com as economias locais”.

O desafio para o Brasil

A discussão tem relevância especial para países como o Brasil.

A expansão chinesa pode representar forte competição para determinados segmentos da indústria brasileira, sobretudo quando empresas nacionais precisam enfrentar produtores chineses que operam com escala muito superior, cadeias produtivas integradas e grande capacidade tecnológica.

Mas existe outra possibilidade: transformar a relação econômica com a China em instrumento de reindustrialização.

Nesse modelo, o objetivo não seria apenas importar produtos chineses, mas atrair fábricas, centros de pesquisa, fornecedores, tecnologia e investimentos capazes de ampliar a capacidade produtiva brasileira.

A experiência da BYD citada pelo Peking Ensight aponta justamente nessa direção.

A questão estratégica para o Brasil passa a ser, portanto, como estruturar políticas industriais e comerciais capazes de maximizar os benefícios dessa relação e, ao mesmo tempo, administrar os efeitos da competição sobre setores nacionais.

Além da lógica de soma zero

As três análises convergem para uma mesma conclusão: a ascensão chinesa produz competição e exige ajustes, mas esses são apenas parte da história.

A China também é um enorme mercado consumidor, uma plataforma industrial, uma fornecedora de bens de capital e insumos intermediários, uma fonte de investimentos e tecnologia e uma protagonista da transição energética.

A diferença entre enxergar um “China Shock” ou um “China Buffer” depende, em grande medida, da maneira como se compreende o desenvolvimento econômico.

Se a economia mundial for vista como uma disputa de soma zero por uma quantidade fixa de produção, todo crescimento chinês poderá ser interpretado como perda para algum outro país.

Se o desenvolvimento também for entendido como criação de mercados, disseminação de tecnologia, redução de custos e construção de novas capacidades produtivas, surge uma interpretação diferente.

Nesse segundo cenário, a China não estaria simplesmente disputando uma fatia maior do bolo econômico mundial.

Em diversas áreas, estaria ajudando a aumentar o tamanho do próprio bolo.

Fonte: Brasil 247

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