Chefe de clima da ONU cobra ação mais rápida contra combustíveis fósseis e alerta para impacto energético da IA
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O secretário-executivo da ONU para Mudanças Climáticas, Simon Stiell, afirmou nesta segunda-feira (21) que o mundo precisa acelerar a redução das emissões de gases de efeito estufa e fortalecer a adaptação aos impactos da crise climática. Em discurso no Industry Acceleration Summit, do Industrial Transition Accelerator (ITA), durante a Climate Week NYC, em Nova York, Stiell também criticou o aumento do consumo de energia associado à inteligência artificial (IA) e cobrou maior responsabilidade das empresas de tecnologia.
Segundo ele, ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C de aquecimento global em relação aos níveis pré-industriais já é inevitável. A referência citada pelo secretário-executivo é um relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
A resposta, afirmou, deve combinar a construção de resiliência com cortes mais rápidos nas emissões, de modo a fazer com que o aumento da temperatura volte a ficar abaixo de 1,5°C “o mais rapidamente possível”.
“Isso exige cooperação internacional, com foco preciso na implementação, apoiando o cumprimento das metas, planos e compromissos acordados pelos países.”
Stiell destacou que os esforços internacionais já produziram resultados. Segundo ele, a cooperação articulada pela ONU e as iniciativas nacionais reduziram a projeção de aumento da temperatura global de mais de 4°C para 2,6°C.
Para o secretário-executivo, porém, o avanço ainda é insuficiente para evitar consequências graves da crise climática.
Renováveis e economia
Um dos principais argumentos apresentados por Stiell foi o avanço das energias renováveis. Ele citou dados que seriam divulgados pela Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) e afirmou que a expansão da capacidade renovável atingiu um recorde de 693 gigawatts (GW) no ano passado.
Segundo o discurso, o volume equivale a mais da metade de toda a capacidade instalada de geração de energia dos Estados Unidos. Stiell também afirmou que a expansão das renováveis evitou quase US$ 500 bilhões em custos com combustíveis fósseis.
“Quase meio trilhão — esse é um enorme dividendo da descarbonização — uma quantia superior ao PIB nacional de mais de três quartos dos países do planeta.”
O secretário-executivo acrescentou que a energia limpa recebeu mais de US$ 2 trilhões em investimentos no ano passado, segundo os dados apresentados no discurso, e relacionou esses investimentos à geração de empregos e ao crescimento econômico.
Para ele, destacar os avanços é importante também para combater a desinformação e demonstrar que a transição energética é possível.
“Este é o momento de mobilizar ainda mais esforços”, afirmou, defendendo uma redução da distância entre os compromissos assumidos pelos países e sua implementação prática.
COPs e implementação
Stiell afirmou que a implementação dos compromissos climáticos será um dos focos da COP31, que será realizada na Turquia, e da COP32, prevista para a Etiópia no ano seguinte. Ele defendeu também o fortalecimento da chamada Agenda de Ação das conferências climáticas da ONU, espaço que reúne empresas, investidores, governos, cidades e regiões para apresentar e implementar iniciativas na economia real.
Na avaliação apresentada no discurso, essa agenda pode funcionar como uma espécie de “via rápida” para acelerar a implementação dos planos climáticos nacionais, sem substituir o processo de negociação entre os países. “Fazer com que quase 200 países concordem com cada palavra é extremamente difícil, mas também extremamente importante”, disse.
Stiell também citou uma meta estabelecida pela Presidência turca da COP31, em colaboração com a Austrália: fazer com que a eletricidade corresponda a 35% do uso global de energia até 2035.
Ele pediu que governos, empresas e investidores apresentem soluções capazes de acelerar a implementação de projetos, especialmente nos países em desenvolvimento.
O secretário-executivo também defendeu o cumprimento dos compromissos financeiros existentes e a ampliação do acesso a recursos para a transição climática. Segundo ele, é necessário mobilizar diferentes fontes de capital, incluindo financiamento público e privado, fundos climáticos e bancos multilaterais de desenvolvimento.
Stiell afirmou que esses recursos podem ajudar a tornar realidade o chamado Roteiro de Baku a Belém para US$ 1,3 trilhão, mencionado no discurso como uma das referências para o financiamento climático. “Juntos, eles podem fazer o capital fluir. E aproximar da realidade o Roteiro de Baku a Belém para US$ 1,3 trilhão.”
Remoção de carbono
Outro ponto abordado foi a remoção de dióxido de carbono da atmosfera, conhecida pela sigla CDR. Stiell afirmou que essas tecnologias e estratégias serão necessárias para trazer o aumento da temperatura global de volta a 1,5°C, mas ressaltou que elas não devem substituir a redução do uso de combustíveis fósseis.
“Absolutamente não como substituta da transição para abandonar todos os combustíveis fósseis, mas como algo adicional a ela.”
Ele também defendeu a proteção e o fortalecimento dos sumidouros naturais de carbono.
Segundo Stiell, ainda há receio de que a discussão sobre remoção de carbono seja usada como justificativa para que empresas e países mantenham seus modelos atuais de produção e consumo. Apesar disso, afirmou que ignorar a CDR não é mais viável.
Inteligência artificial
A inteligência artificial ocupou uma parte significativa do discurso. Stiell afirmou que o crescimento da tecnologia representa uma oportunidade para enfrentar desafios climáticos, mas também gera novos impactos ambientais. Ele citou, por exemplo, o potencial da IA para melhorar sistemas de alerta precoce para desastres climáticos e aumentar a eficiência das redes elétricas.
“Se a inteligência artificial pode resolver em dias um problema matemático de 90 anos, ela pode fazer mais para enfrentar os principais desafios climáticos.” Ao mesmo tempo, criticou o aumento do consumo de energia dos sistemas de IA e seus impactos sobre as emissões.
“A inteligência artificial, que consome enormes quantidades de energia, está aumentando a poluição que aquece o planeta proveniente de carvão, petróleo e gás, ao mesmo tempo em que eleva os custos de energia para famílias e empresas.”
Stiell também afirmou que a expansão da IA ocorre em meio a outros problemas, como desinformação, divisão social e desigualdade de riqueza. Para ele, as empresas de tecnologia precisam estabelecer metas climáticas confiáveis, investir em eficiência, divulgar seu consumo de energia e água e utilizar energia renovável para abastecer seus data centers.
O secretário-executivo citou ainda que data centers estão sendo colocados em espera em diferentes partes dos Estados Unidos, incluindo Nova York e Texas, e afirmou que há situações semelhantes em outras regiões do mundo.
Clima como questão econômica e de segurança
Na parte final do discurso, Stiell relacionou a crise climática a impactos econômicos, sociais e de segurança. Segundo ele, ondas de calor, eventos climáticos extremos e os efeitos associados ao El Niño estão aumentando as pressões sobre sociedades e economias. “A crise climática agora é uma emergência econômica e de segurança nacional para todas as nações.”
O secretário-executivo também afirmou que os eventos climáticos estão afetando a produção agrícola, pressionando os preços dos alimentos e contribuindo para a inflação. Lembriu da estimativa segundo a qual, desde o início do atual conflito no Oriente Médio, a dependência dos combustíveis fósseis teria acrescentado mais de US$ 100 bilhões em custos aos consumidores americanos, apenas considerando os preços mais elevados de gasolina e diesel.
Para Stiell, a transição energética deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a estar diretamente relacionada à economia. “Qualquer líder que leve a sério o combate à inflação, a construção de economias fortes e a proteção de seus cidadãos precisa levar a sério a redução dos combustíveis fósseis que aquecem o planeta e impulsionam esta crise climática, assim como a construção de resiliência.”
Ele também afirmou que países que resistem à transição para uma economia de baixo carbono podem acabar transferindo novas tecnologias, setores econômicos e empregos para outras economias.
Stiell encerrou o discurso defendendo o fortalecimento da cooperação internacional. “Agora é hora de redobrar os esforços pelo multilateralismo climático — a base de todo o progresso alcançado pelo mundo até agora.”
E concluiu: “Na COP30, todas as nações concordaram: o Acordo de Paris está funcionando, e nós vamos fazê-lo avançar ainda mais e mais rapidamente. Vamos ao trabalho.”
Fonte: umsoplaneta