Carta aberta de Bolha para Goiânia em comemoração aos seus 93 anos

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Por Herbert Moraes — Jornal Opção

Carta aberta de Bolha para Goiânia em comemoração aos seus 93 anos

Faltam apenas 18 dias para seu 93° aniversário. Apesar do desconhecimento de quase todos que te habitam, você bem sabe que essa é apenas uma das três datas que marcam sua existência. É bom contar a todos que sua pedra fundamental só foi lançada em 24 de outubro, naquela missa sem arcebispo em Campinas, porque o seu fundador achou melhor lembrar quem lhe pariu: a Revolução de 1930 (que alguns tacham de golpe) e seu líder e mentor, Getúlio Vargas. Afinal, foi em 24 de outubro de 1930, três anos antes do seu nascimento, que as forças revolucionárias derrubaram a Velha República do café com leite. 

Daí veio aquele momento na Rua 12 com a Tocantins, lembra? Era 23 março de 1937, e seu inventor, agora praticamente um ditador, assinou o decreto que lhe fez de fato quem tu és: a capital do Estado de Goiás. Por fim, veio seu Batismo Cultural, quando para muitos você, de fato, você ganhou o status de cidade. Já tinha teatro, hotel, clube, aeroporto, hospital, uma sociedade, um palácio, prédios governamentais, praças, avenidas e ruas. Era 5 de julho de 1942. Foi uma festa esse dia, lembra?

Então, agora que deixamos claro que você é uma urbe de várias idades, vamos ao que interessa. Resolvi lhe escrever essa carta desde que, apesar da minha curta existência, passei a te observar de perto. Audaciosa que sou, assim como você, então vou estourar minha bolha pra te contar o que vejo e o que te desejo nesse seu aniversário de 93 anos e, claro, lhe falar umas verdades que precisa ouvir, se quiser, é claro. Mas, antes de iniciar, você sabe que perco a amiga, mas não a piada: tá ficando idosa, hein colega! rsrsrsrs.

Foto aérea da Praça Cívica. Goiânia, 1936. (Foto reprodução)

Agora sim, vou lhe falar. Pra mim, você, Goiânia, chega aos 93 anos como uma cidade que já sabe ser grande, mas não aprendeu a ser você mesma. Te falta audácia urbana de verdade, esse gesto quase insolente de reinventar o próprio futuro. Uma cidade que nasceu como projeto moderno não pode se acomodar numa perigosa zona de conforto. E a gente sabe que isso não é nada bom. Você cresceu para o carro, mas não para o encontro. Celebra o art déco, mas permite que outros prédios e memórias vão embora sem sequer se despedir.

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Residência da família Sabino, Rua 20, Centro. Erguida em 1938, demolida em 2013: patrimônio destruído. (Foto: Jornal Opção)

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O que te falta não é um cartão postal novo, é ambição cultural, espaço público vivo, memória tratada como assunto de agora e não decoração. Se te falo isso, não é porque quero consertar algo, mas cutucar, provocar, fazer aquelas perguntas que a sra. evita. Sou a mosca que pousou na sua sopa. E, como uma boa amiga que fala verdades ocultas e incômodas, vou atrás do que some em você, do que está prestes a sumir, do que nunca teve placa nem selfie, mas sustenta a sua identidade. 

Vou atrás da sua história, mas sem DR. Ok? Quero saber mesmo de você, Goiânia, se já acha que é uma metrópole? Talvez a resposta mais honesta seja: ainda não, e que bom. Porque isso significa que ainda há tempo de escolher que cidade você quer ser. E eu, Bolha, quero ser menos bússola e mais pergunta – dessas que não te deixam dormir em paz. No melhor sentido.

Aos 93 anos, Goiânia vive um paradoxo: uma cidade grande que ainda não se reconhece como uma grande cidade. (Foto reprodução)

Bom, agora que eu já disse tudo o que penso de você, como uma boa amiga, é hora de falar àqueles que te usam todos os dias em sua ainda breve existência. 

Bolha acha que Goiânia chegou aos 93 anos com um paradoxo muito interessante: ela já aprendeu a ser grande – apesar de não se reconhecer como uma grande cidade.

Goiânia tem arquitetura, parques, condomínios horizontais de luxo, shoppings, gastronomia, música, moda, universidades, produção artística, livrarias – uma história política extraordinária e uma identidade urbana que não se parece exatamente com nenhuma outra capital brasileira. E talvez esteja justamente aí o problema: a cidade produz muito mais cultura, memória e inteligência do que consegue transformar em inteligência de si mesma. 

O que falta por aqui começa pela memória. Goiânia derruba, reforma, descaracteriza e esquece com uma facilidade impressionante. É uma cidade de apenas 93 anos que já conseguiu perder edifícios, cinemas, casas, árvores, personagens, hábitos e pedaços inteiros de sua paisagem.

Estação Ferroviária de Goiânia: último prédio no estilo art déco construído na cidade, 1952. (Foto: Herbert Moraes)

O patrimônio art déco é celebrado como marca turística, mas isso não pode ser apenas aquilo que fica bonito no folder. Patrimônio é também a casa aparentemente banal onde alguma coisa aconteceu, o comércio antigo de Campinas, uma calçada, um bar, um cinema desaparecido, uma história que ninguém mais sabe contar. E uma cidade que desconhece o que já perdeu de si mesma corre o risco de não perceber o que está perdendo neste exato momento.

Por aqui também falta ousadia urbana. Goiânia nasceu de um gesto radical: inventar uma capital no meio do Cerrado nos anos 1930. Era uma cidade que pretendia antecipar o futuro. Curiosamente, envelheceu tornando-se muitas vezes conservadora em suas escolhas urbanas. Cresceu para o automóvel, espalhou-se, verticalizou-se, criou enclaves de excelência e deixou grandes áreas públicas perderem vitalidade. 

Aos 93 anos, segundo a ONU, Goiânia é a cidade mais arborizada do mundo. (Foto reprodução)

Uma cidade contemporânea precisa devolver espaço ao pedestre, recuperar o Centro como lugar de desejo – não apenas como problema administrativo –, integrar transporte, arborização, habitação, cultura e comércio e tratar seu início não como apêndice histórico, mas como matriz de sua identidade.

E falta uma coisa menos concreta e talvez mais importante: autoestima sem provincianismo. Duas coisas bem diferentes. Autoestima é reconhecer a própria importância. Provincianismo é precisar permanentemente que alguém de fora confirme isso. Goiânia ainda olha demais para São Paulo, Rio, Brasília e tendências importadas para decidir o que é sofisticado, contemporâneo ou relevante em si mesma. (Por sinal, você tem ideia de que conta com um edifício pensado pelo arquiteto Sérgio Bernardes… ali na Rua 4?) Uma cidade realmente madura não pergunta o tempo inteiro se já virou metrópole. Ela simplesmente produz aquilo que faz outras cidades olharem para ela como tal.

Edifício 28 de Agosto, região Central de Goiânia, obra do arquiteto Sérgio Bernardes: joia da arquitetura modernista. (Foto: Herbert Moraes)

Há ainda uma fratura que nenhuma comemoração de aniversário deveria esconder: existem várias Goiânias dentro de Goiânia. A GYN dos parques, restaurantes, edifícios sofisticados e metros quadrados caríssimos convive com outra, muito menos fotografada, onde calçada, transporte, sombra, equipamentos culturais e espaço público continuam sendo luxo. 

O salto dos próximos anos talvez não esteja em construir algo monumental, mas em fazer com que a qualidade urbana possa atravessar a cidade inteira.

Em Goiânia ainda falta ousadia urbana para se livrar do provincianismo. (Foto reprodução)

A Bolha não precisa – nem quer – consertar Goiânia. Seria uma pretensão enorme e um projeto editorial péssimo. Viemos para incomodar para que ela possa ver aquilo que deixou de enxergar. Contar quem morou naquela casa antes que vire um estacionamento. Descobrir por que aquele prédio desapareceu. Entrar num arquivo e encontrar uma Goiânia que contradiga a versão oficial. Mostrar um artista extraordinário que vive por aqui, mas que a cidade desconhece. Perguntar por que determinado espaço público está abandonado. Fotografar o belo, mas também investigar o absurdo. Colocar lado a lado a Goiânia planejada de Attílio Corrêa Lima e o que foi construída depois dele.

A Bolha quer oferecer a Goiânia a arqueologia do presente: história sem virar almanaque, urbanismo sem virar palestra, gastronomia sem virar publicidade, cultura sem reverência automática, comportamento sem superficialidade. Queremos ajudar a recuperar seus personagens esquecidos, provocar discussões sobre arquitetura, patrimônio, mobilidade, design, árvores, ruas, livros, comida, música e maneiras de viver essa cidade. Este é nosso presente de aniversário pra você, Goiânia. 

Bolha pergunta: que Goiânia queremos encontrar quando ela fizer 100 anos? (Foto: Herbert Moraes)

São apenas sete anos para que se torne uma cidade centenária. E é a partir daí que Bolha lança uma proposta. Escolhemos sete obsessões para os sete anos que faltam: memória, Centro, patrimônio, árvores, mobilidade, cultura, espaço público – vamos acompanhar de perto as histórias, avanços, destruições e promessas até 2033 quando chegar aos 100 anos.

Porque talvez o que esteja faltando em Goiânia não seja exatamente algo que precise ser construído, mas olhar para o que já temos com inteligência e sensibilidade suficiente e preservar o que importa, coragem para mudar o que não funciona e ambição para imaginar e tornar realidade o que ainda não existe.

Bolha quer que Goiânia pense sobre aquilo que está se transformando, olhe pra dentro e observe se está satisfeita com o que vê.

Um abraço, Goiânia. Parabéns.

Ao se aproximar dos 100 anos, Goiânia precisa pensar sobre aquilo que está se transformando. (Foto: Herbert Moraes)

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Fonte: Jornal Opção

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