Campanha de Lula vai apostar no medo do fim de programas sociais para aumentar rejeição a Flávio Bolsonaro
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma ofensiva para associar uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao risco de redução de programas sociais e mudanças prejudiciais aos aposentados. A estratégia faz parte da reorganização do segundo turno, depois de Lula terminar a primeira etapa da eleição atrás do adversário.
Segundo a Folha de São Paulo, Lula orientou aliados a mostrar aos beneficiários de políticas sociais que a manutenção dos programas não deve ser considerada automática. A campanha pretende sustentar que compromissos econômicos assumidos pelo adversário poderiam exigir cortes de gastos com impacto sobre ações destinadas à população de menor renda.
O alerta também será direcionado aos aposentados. A campanha pretende destacar o risco de desvinculação das aposentadorias dos reajustes do salário mínimo e lembrar aos trabalhadores que, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), não houve ganho real do mínimo.
A avaliação entre integrantes da campanha é que parte do eleitorado considera os benefícios sociais consolidados e, por isso, já não associa necessariamente sua existência aos governos petistas. A estratégia para o segundo turno será argumentar que essas políticas podem sofrer alterações dependendo do resultado da eleição.
A orientação foi discutida na segunda-feira (5), durante reunião de Lula com dezenas de aliados convocada para reorganizar a campanha. O encontro ocorreu após Flávio Bolsonaro encerrar o primeiro turno com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula.
Questionados sobre o uso de uma “campanha do medo”, aliados do presidente afirmam, segundo a Folha, que a possibilidade de redução de benefícios é concreta. Ex-governadores presentes à reunião teriam citado medidas adotadas durante a gestão de Jair Bolsonaro para fundamentar o argumento.
Em trecho do encontro transmitido pela internet, Lula relacionou diretamente propostas de ajuste fiscal ao risco de cortes em políticas sociais.
“Nós temos que ter muito cuidado, porque toda vez, nesse país, que se fala em dureza fiscal, o que está em jogo é a política de inclusão social. Não é tirar o benefício dos ricos, é tirar o benefício dos pobres”, declarou o presidente.
Segurança pública ganha espaço
Além da defesa dos programas sociais, aliados cobraram uma mudança na abordagem da campanha sobre segurança pública. Governadores petistas defenderam que Lula seja mais incisivo no tema diante das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro para endurecer penas e modificar a legislação.
A estratégia discutida no encontro é confrontar o discurso do candidato do PL com o histórico do governo de Jair Bolsonaro. A campanha pretende argumentar que a gestão anterior não priorizou investimentos nas forças policiais e deu maior ênfase à segurança privada e à flexibilização do acesso às armas.
Lula concordou com a necessidade de reformular sua comunicação nessa área. Segundo relatos citados pela Folha, o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), dirigiu críticas diretamente ao ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, um dos principais responsáveis pela estratégia de comunicação do governo.
O presidente também reconheceu problemas na comunicação eleitoral. Lula afirmou que não havia acompanhado os programas produzidos durante o primeiro turno e decidiu que, nesta nova fase, pretende assistir previamente às peças eleitorais e opinar antes de sua veiculação.
A presença do presidente nas rádios e nas redes sociais também deverá crescer. Apesar das sugestões para ampliar a realização de transmissões direcionadas a públicos regionais, Lula afirmou que pretende preservar o contato direto com eleitores nas ruas.
Campanha tenta reorganizar comando
A reunião também expôs críticas à coordenação nacional da campanha, comandada pelo presidente do PT, Edinho Silva. A ex-ministra Simone Tebet (PSB), derrotada na eleição para o Senado por São Paulo, afirmou que ainda aguardava orientações sobre sua participação na campanha no estado, considerado estratégico para a recuperação de Lula.
A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), defendeu que o momento não fosse usado para procurar culpados, mas avaliou ser necessário melhorar a articulação entre a coordenação nacional e os comandos estaduais.
Aliados já vinham cobrando maior centralização das decisões. Durante o primeiro turno, a comunicação da campanha chegou a funcionar com três ou quatro núcleos diferentes, cada um adotando métodos próprios.
Ao mesmo tempo, Lula buscou recuperar o ânimo dos aliados depois do resultado das urnas. O encontro reuniu políticos lulistas que conseguiram se eleger ou se reeleger, em contraste com o ambiente da noite da apuração, quando o presidente acompanhou os resultados em São Paulo ao lado de aliados que haviam sofrido derrotas eleitorais.
Nordeste e abstenção entram no centro da estratégia
Outro eixo considerado decisivo para a virada é reduzir a abstenção, sobretudo no Nordeste. A região foi o principal reduto eleitoral de Lula no primeiro turno e é vista pela campanha como uma das áreas onde ainda existe espaço significativo para ampliar a votação do presidente.
O esforço deverá incluir atenção especial aos idosos. A campanha quer estimular eleitores com mais de 70 anos — para quem o voto é facultativo — a comparecer às urnas no segundo turno.
Durante a reunião, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), derrotada na disputa pelo Senado, relatou dificuldades enfrentadas por idosos para votar no Rio de Janeiro. Segundo ela, alterações em locais e seções eleitorais provocaram longas filas e fizeram parte dos eleitores desistir de votar.
As coordenações estaduais também deverão adotar estratégias específicas para cada região, aproveitando métodos considerados bem-sucedidos nas campanhas locais.
Outra mudança será a disposição de Lula para participar de debates na televisão. No primeiro turno, aliados já defendiam sua presença em pelo menos um confronto direto. Agora, a avaliação é de que o presidente precisará enfrentar Flávio Bolsonaro cara a cara para tentar reverter a vantagem de dois pontos percentuais registrada no primeiro turno.
Um aliado resumiu à Folha a nova fase da eleição como uma “disputa de CPFs”, numa referência à intenção de tornar o confronto mais diretamente centrado nos dois candidatos.
Fonte: Brasil 247