Caminhos do “voto útil” no primeiro turno das eleições

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Por Evelize Pacheco — Fundação Perseu Abramo

O artigo “A eleição polarizada começa a se fechar” de Felipe Nunes – professor da FGV e fundador da Quaest – publicado pelo jornal O Globo no dia 28 de setembro apresenta que parte significativa do eleitorado brasileiro está decidido quanto à escolha de candidato para o primeiro turno das eleições. Com base nas quatro últimas rodadas de pesquisa aplicadas nacionalmente pela Quaest, o cientista político destaca uma queda de 5 pontos percentuais entre os indecisos, atribuindo tal diminuição ao esvaziamento das intenções de voto em candidaturas alternativas. As estatísticas indicam, assim, que metade do público “indeciso” escolheu seu candidato para o primeiro turno. Diante disso, torna-se relevante questionar quais os caminhos percorridos por essa parcela de respondentes e identificar potenciais transferências de votos.

Onde cai e onde cresce?

Analisando em perspectiva os relatórios das rodadas de 14 e 21 de setembro aplicados pela Quaest, a certeza sobre o voto para o primeiro turno das eleições presidenciais cresceu 6 p.p. no intervalo de uma semana, passando de 73% para 79%. Quando analisadas as certezas e as possíveis mudanças de voto das cinco candidaturas mais competitivas – Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos – identificamos que para o primeiro turno, a transferência de voto pode estar concentrada em um dos candidatos da chamada “terceira via”.

Fora do eixo da polarização, as candidaturas da chamada “terceira via” apresentam diferentes graus de estabilidade na reta final. Os eleitores de Ronaldo Caiado são os que registram maior crescimento da incerteza em relação ao voto, com aumento de 10 p.p. entre aqueles que afirmam que ainda podem mudar de candidato. Esse movimento ocorre com menor intensidade entre os potenciais eleitores de Renan Santos, cuja possibilidade de mudança cresce 4 p.p., enquanto a candidatura de Augusto Cury apresenta maior estabilidade, com aumento de apenas 1 p.p. na parcela que admite mudar de voto.

A diferença indica que a “terceira via” não constitui um bloco homogêneo: enquanto parte do eleitorado de Caiado demonstra maior abertura para reconsiderar sua escolha, os eleitores de Renan e, sobretudo, de Cury apresentam maior resistência à mudança. Diante disso, a questão passa a ser para onde podem se deslocar os votos daqueles que reconsideram sua escolha e em que medida os posicionamentos e alinhamentos políticos de cada candidatura podem contribuir para compreender sua aproximação com os dois principais polos da disputa.

Para onde podem ir os votos de Caiado?

Com base nas propostas apresentadas nos programas eleitorais, a segurança pública aparece como um dos principais pontos de aproximação entre Ronaldo Caiado e Flávio Bolsonaro. Essa convergência ajuda a formular uma hipótese sobre o possível destino de parte do eleitorado de Caiado que, como demonstrado anteriormente, indicam maior abertura para mudar de voto na reta final do primeiro turno.

A hipótese ganha força quando observamos as motivações dos eleitores para a escolha do candidato. A pergunta “vota pelas propostas ou para evitar que outro candidato ganhe?” aplicada pelo Datafolha evidencia que 31% dos potenciais eleitores de Caiado afirmam votar com o objetivo de impedir a vitória de outro candidato. Esse dado nos sugere que uma parcela desse eleitorado poderá prezar pelo “voto útil” no primeiro turno, aderindo, por consequência, à candidatura de Flávio Bolsonaro.

A aproximação entre as duas candidaturas no tema da segurança pública pode favorecer a migração de eleitores de Caiado para Flávio Bolsonaro diante do acirramento da disputa entre Flávio e Lula, permitindo analisar uma dinâmica de “voto útil” no primeiro turno. Os dados disponíveis, contudo, não permitem afirmar que todos os votos indecisos de Caiado migrem para Flávio já no primeiro turno, mas indicam condições que tornam essa uma das possíveis hipóteses, especialmente quando se observa seu crescimento repentino de 5 p.p.  

No mais, é importante reiterar o dado trazido por Felipe Nunes em seu artigo: um cenário de segundo turno entre os dois campos da população, os votos inválidos atingem 14%. O aumento dos votos brancos e nulos pode ter relação do distanciamento das outras duas opções da terceira via: Renan Santos e Augusto Cury.

Aqui, torna-se relevante retomar o quanto as declarações feitas e o alinhamento ideológico interferem na escolha do eleitorado. Se o perfil de eleitores de Renan e Cury seguirem o posicionamento de seus candidatos, a probabilidade de que ocorra uma mobilização para os inválidos é grande. Renan se posiciona abertamente como uma figura anti-sistema, “anti-Lula” e “anti-Bolsonaro”, já tendo declarado publicamente que não pretende declarar apoio a nenhum dos dois concorrentes caso não vá para o segundo turno

Já Augusto Cury, menos previsível, preza por uma postura moderada que combina propostas progressistas, liberais e conservadoras. Deste modo, sua base de apoiadores depende das condições circunstanciais. Isto é, podem apoiar a uma das partes da polarização ou podem optar pelo não-voto.

Conclusão

Às vésperas do primeiro turno e com a alta frequência de publicações de pesquisas de opinião, podemos concluir que dentro das possibilidades de transferências de voto, aqueles que optam por Caiado, em comparação com as outras figuras da terceira via, são os que demonstram maior flexibilidade a priori. Isto é, por dedução, o eleitorado de Renan e Cury apresentam maior resistência na conversão de seus votos. Todavia, como postulado por Nunes, o cenário de segundo turno ainda permanece imprevisível e dependente de determinados segmentos para sua definição, como as mulheres, os mais pobres, os católicos, os indecisos e os que escolhem votar branco, nulo ou se absterem.

Veronica Guibu e Giovanna Marquesano Tabanes são analistas do NOPPE (Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos) da Fundação Perseu Abramo

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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